Arte Observada – eL Seed

Mesmo para aqueles com pouco conhecimento sobre a história do grafite, o trabalho de eL Seed é uma voz que precisa ser ouvida

eL Seed, nascido em 1981, na França, é um dos maiores nomes da Street Art na atualidade. Cresceu em Paris, falando somente o dialeto de sua família, imigrantes da Tunísia. Somente em sua adolescência começou a descobrir suas raízes árabes e aprendeu a língua.

A Tunísia fica na África do Norte e tem a Itália como vizinha. Também faz fronteira com a Líbia e a Argélia. Em 1881 a França invadiu o país, que então tornou-se uma colônia francesa. A partir de então, assentamentos europeus no país foram ativamente incentivados; o número de colonos franceses cresceu de 34 mil em 1906 para 144 mil em 1945. Em 1910 havia 105 mil italianos vivendo na Tunísia.

A Tunísia conquistou sua independência da França só em 1956, liderada por Habib Bourguiba, que mais tarde se tornou seu primeiro presidente. A secular Assembleia Constitucional Democrática controlou o país através de um dos regimes mais repressivos do mundo árabe, de sua independência em 1956 até a revolução da Tunísia, em 2011 – revolução essa que inspirou uma onda de levantes civis que foi chamada de “A Primavera Árabe”. O artista acredita que a revolução foi crucial para o desenvolvimento da arte no Oriente Médio. Antes os criativos tinham medo de se expressar, agora têm motivos para criar. Ele mesmo fez seu primeiro mural de escala grandiosa um ano após a revolução. Neste trabalho, ele recita uma passagem de um poema dedicado a pessoas sofrendo pela injustiça e tirania do governo.

Mesmo para aqueles com pouco conhecimento sobre a história do grafite, o trabalho de eL Seed é uma voz que precisa ser ouvida. O seu próprio nome artístico já diz muito: eL Seed significa “a semente”, em inglês. Mas o nome foi inspirado pela obra do francês Pierre Corneille “Le Cid” (o mestre), uma tragédia cômica escrita em 1636. Combinando a caligrafia tradicional árabe com elementos modernos do grafite, a obra do artista conversa com o mundo contemporâneo e estimula a discussão sobre política, arte e a tolerância entre culturas.

Seu trabalho é todo escrito na língua árabe, e ao longo dos anos seus traços ficaram mais precisos, bonitos e limpos. Diferente de muitos artistas de rua hoje dia, eL Seed faz seus trabalhos sem o uso de projetores ou estêncis. Seu principal objetivo é criar uma arte tão bela que não precise de tradução. Ele acredita que as cores, as formas e a beleza enrustida na caligrafia árabe trazem um entendimento inconsciente aos que observam. Apesar de sua beleza incontestável, a parte mais bela de seu trabalho é a sua mensagem. O artista pinta poemas, passagens do Alcorão e mensagens de paz e de amor pelos quatro cantos do mundo.

eL Seed retorna a Cairo, no Egito, berço da civilização árabe, para um de seus mais novos trabalhos. O local, estrategicamente escolhido, foi o bairro de Manshiyat Nasr, que fica no centro da cidade e é chamado pelo resto do país de Zaraeeb (Cidade Lixo). Seus habitantes são chamados de Zabaleen (pessoas do lixo), pois vivem do lixo, no meio dele. Por décadas, os habitantes desta “favela” trabalham como coletores de lixo. Eles desenvolveram um dos mais efeicientes e baratos métodos de reciclagem da região.

De acordo com o The Gardian, eles coletam aproximadamente 9 mil toneladas de lixo por dia, dois terços de todo o lixo produzido pelos habitantes de Cairo. Apesar de sua importância para a cidade, seus habitantes são vistos como selvagens sujos e, por isso, são marginalizados e descriminados pelo resto da sociedade.

O artista disse que os Zabaleen os receberam como se fossem família. Disse também que esta foi uma das mais incríveis e humanas experiências que já viveu e que eles são pessoas generosas, honestas e fortes. Com o apoio e a aprovação dos locais, eles conseguiram manter o projeto em segredo até o seu término. No Egito, as autoridades não permitem grafites e os grafiteiros pegos no ato são severamente punidos.

O artista diz que levou um ano para conceber a ideia e três semanas para realizar a mesma. Este projeto questiona o nível de julgamento e a interpretação errada de uma sociedade, baseada nas diferenças aparentes. O mural gigantesco foi feito para chamar a atenção para esta comunidade, para sua arquitetura e seus aspectos culturais.

De perto, a obra aparenta ser só rabiscos feitos aleatoriamente. É só quando observada de uma certa distância que sua beleza colorida, feita sobre paredes de 50 prédios, pode ser vista por inteira e sua mensagem revelada: “Aquele que quer ver a luz do sol, precisa primeiro limpar seus olhos”. As palavras são de Santo Athanasius, da Alexandria, um bispo copta do século 3. Através desta brincadeira de ilusão de ótica, o trabalho enfatiza uma ideia muito maior: quando mudamos o nosso ponto de vista, podemos mudar o que enxergamos drasticamente.

O artista revela que seus trabalhos são influenciados pelos locais por onde passa. A sua arte se tornou uma forma de desafiar a intolerância, tanto de extremistas quanto de liberais. Seu objetivo é unir as pessoas através da arte e questionar o “pré-conceito” que nós, Ocidentais, temos em relação à cultura árabe e ao Oriente Médio. Uma missão quase impossível nos dias de hoje, quando tudo nos divide: a religião, a opção sexual, a aparência, a posição social, a posição política, a cultura, o país onde vivemos etc. Como Nietzsche brilhantemente colocou: “Temos a arte para não morrer da verdade”.


Vamos Observar:

“Perception” (Percepção), 2016

Mural anamórfico – feito em 50 prédios

Tinta spray

Cairo, Egito


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

Artigo anteriorComo escolher quem vai cuidar da reforma?
Próximo artigoCircuito Comercial: Dr. Fernando e Dr.ª Katy