Prestes a completar 51 anos, a granjeira Flávia Lippi mantém o sorriso largo que a fez  conhecida do grande público desde os anos 1990, quando foi a apresentadora do programa Repórter Eco, na TV Cultura – o que fez por 27 anos. Hoje ela alterna seu cotidiano entre sua casa na Granja Viana, seu escritório em Belo Horizonte, onde passa cinco dias por mês, e Londres. Seja onde estiver, ela mantém, há três décadas, a prática da meditação diária, dos horários regulares para dormir,a alimentação balanceada  – vegana quando está em
casa, vegetariana quando fora dela para poder socializar melhor. Além disso, não bebe, não fuma, dá aulas diárias gratuitas de meditação. O cotidiano ritmado e tranquilo, aliado à vontade férrea, provavelmente foi a alavanca de sua recuperação. Explica-se: em 2017,
depois de ter contraído dengue por três vezes, teve chikungunya, doença viral também transmitida pelo mosquito Aedes aegypt, e desenvolveu a síndrome de Guillain-Barré. Trata-se de uma doença autoimune que mina o sistema nervoso e pode ser fatal. Ficou meses internada. Quando saiu, desenvolveu em conjunto com uma fisioterapeuta um protocolo contra a dor que consiste em exercícios para o nervo vago, associado à distribuição da ocitocina, e hoje tem a meta de recuperar todos os neurônios em cinco anos. Os óculos novos – a síndrome a deixou com 4 graus – e a exaustão que sente com constância – combatida com longos períodos de sono – são sequelas menores diante do que poderia ter ocorrido. Seu maior ganho, ela não tem dúvidas, foi a liberdade de aceitar a vida como ela é. “Antes da doença eu queria que as coisas fossem do jeito que havia planejado. O plano hoje é viver sem precisar ter controle. Esse foi meu aprendizado. Não tenho mais ‘isso vai ter de acontecer’. Quando uma coisa não é, não é. Estou muito mais fluída.” Não por acaso, desde que trabalha com transformação humana, ganhou o apelido de start up. “Você aprende a se erguer rápido, isso é a coisa mais importante.”
De onde vieram os Lippi?
Sinto muito respeito pelos meus antepassados. Acho que o fio que liga minha vida nessa vida só é possível graças às muitas experiências guardadas nas células. E graças a eles eu me sinto um pouquinho do mundo. Isso porque do lado materno tenho um bisavô chinês – por parte deste lado da família, os Maia e Silva, são proprietários do Mundo Verde [A maior rede de lojas de produtos saudáveis da América Latina]. E tenho um avô italiano por parte de pai, cuja linhagem remonta a Fra Filippo Lippi (1406-1469), pintor florentino do Renascimento que era patrocinado, principalmente, pelos Médici. Esta parte da família, quando chegou ao Brasil, se tornou comerciante, fornecendo alimentos ao Império, eram ligados a D. Pedro I. É gostoso ver que a gente carrega o mundo dentro de nós, a meu ver a maior prova que somos um mistério não revelado. Não sei quem são, mas sinto quem eu sou, através dos meus antepassados.
O que mais você herdou do lado chinês, além dos olhos amendoados?
Acho que minha facilidade em elaborar as filosofias orientais. Já do lado italiano certamente herdei minha paixão pela arte. Aliás, minha mãe é artista plástica – tinta, tela, beleza estética, aprofundamento do ser pela arte, a Florença me traz isso. Fiz há alguns anos o teste do DNA e descobri ter ascendência árabe, portuguesa, de índios, além de chinesa e italiana. Até indiano tinha um pouquinho. Não me lembro as quantidades, mas é bom saber que tem de tudo dentro de ti. Sempre me senti inteira, sabendo que sou do mundo. Por isso, quando tentam me rotular, me sinto estranha.
E a Flávia Lippi, você pode falar um pouco dela?
Não escondo minha idade. Tenho 50 anos, redondim [ela brinca com o fato de ser mineira),
nasci em 24 de fevereiro de 1968. Ano do macaco terra positivo [no horóscopo oriental, este signo é considerado o mais inteligente dos 12]. E sou de Peixes – um espírito brincalhão, se posso me resumir assim.
Você começou a empreender cedo, próximo dos 17 anos, certo?
Sim. Nasci em Belo Horizonte, sou a filha primogênita, tenho duas irmãs. Sempre fui empreendedora e comecei a trabalhar cedo, com meu pai, José Raimundo, que é médico psiquiatra formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e sempre teve uma vida acadêmica muito forte. Hoje, aos 84 anos, ele é presidente da AcademiaMin eira de Medicina e dá atendimento em nossa clínica em Belo Horizonte. Aos 17 anos, abri minha primeira produtora de eventos com um amigo, também na capital de Minas Gerais. Em seguida, fui estudar na Europa, me encantei muito com Amsterdã e Londres. Uma irmã minha é artista e reside em Londres. Minha mãe, Lígia, tem 74 anos, é artista plástica e administradora da clínica. Tem o dom raro de navegar entre números e artes.
Seu site é tão rico em formações que você fez que não achamos sua graduação…
Tem lá, sim (risos). Quando voltei para o Brasil, para validar meu diploma do exterior,
cursei Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, no campus do Morumbi da Fiam [hoje Fiam-Faam, parte do grupo Laureate). De tudo o que me ensinaram, o que mais usei foi bom senso. E adicionei emoção, acho que fui uma das primeiras a chorar no vídeo.
Rimos muito ao ver no seu site a frase: “Ah! Se você se interessa pelas qualificações
formais, por aquele currículo de antigamente: onde estudei, quais cursos fiz, entre outras obrigações que apelidei de pedágio do saber (…) você pode ver meu CV completo lá no
Linkedin. Eu, particularmente, acho uma chatice”. O que você acha da universidade hoje?
Para ser sincera, acho que a forma de ensino tradicional caducou, pois limita e tira do
indivíduo o direito dele/dela criar, de usar seu talento da forma como ele/ela quer
usar. Acho importante o que eu chamo de “MBA pessoal”, isto é, aquele que a gente
constrói a partir de nossas experiências. Mas reconheço que algumas profissões
ainda precisam de cursos superiores, como a medicina, que depende de um conhecimento
profundo sobre o corpo humano. Mas não vejo a universidade, nos dias de hoje, como
necessária. Ela precisa se atualizar.
Você fez inúmeros cursos de aperfeiçoamento. Na sua opinião, qual foi o mais importante?
O de corpo, mente e espírito com a Susan Andrews, psicóloga da Universidade de Harvard. Devo a ela a noção que as pessoas precisam ter com o corpo como um todo, quando faz compartimentação picota todas as possibilidades. Tenho também a formação psicanalítica, entre outras.
Seu sorriso largo ficou conhecido do grande público nos anos 1990, como apresentadora do Repórter Eco, na TV Cultura. Como foi sua experiência no programa?
Comecei a trabalhar na TV Cultura em 1990, como produtora executiva, e criei o programa
com a jornalista Vera Diego e com a ecologista Maria Zulmira. Ele foi ao ar pela primeira vez em 10 de fevereiro de 1992 como um jornal diário (hoje vai ao ar aos domingos às 17h) e foi o primeiro da televisão brasileira especializado em meio ambiente. Não por acaso, surgiu no contexto da Eco 92. Na época, com 24 anos, já tinha a ver com algo que é vital até hoje: saber viver bem, compreender que é possível ter um laço entre a natureza, a ciência, a tecnologia e o mundo urbano. Era muito importante, para mim, mostrar para as pessoas como era possível ter um bom intercâmbio de vida urbana com a vida natural.
O início dos anos 1990 também foi um momento muito intenso de difusão de técnicas e práticas então consideradas “alternativas”. Algumas delas, como aacupu ntura e a homeopatia, foram mais tarde incorporadas como especialidades médicas. Nesse contexto, você fundou o Instituto de Desenvolvimento Humano Lippi, o IDHL. Como foi a experiência?
Na verdade, eu sinto intensamente a vida, mesmo que me machuque. E percebi que o
IDHL era, no seu início, como que eu poderia juntar a ciência, a espiritualidade e a tecnologia em prol da formação de seres humanos mais completos. Fui tateando muitas e muitas experiências para chegar nisso. Para mim, o IDHL é a prova de quando acreditamos
na humanidade a gente enxerga antes. Já fui apelidada de start up humana porque consigo de fato em pleno voo criar muitas coisas em prol do que o mundo precisa. Em 2016, por exemplo, resolvi que ia oferecer tudo isso também na linguagem de libras. Em homenagem a uma prima com deficiência auditiva. Meu mote é “transformar a pessoa a partir do caos da vida dela”. Eu pinço onde está o olho do furacão daquele caos, fisgo aquele sentimento, e o amplio na sua maior possibilidade de transformação, fazendo com que a dor seja apenas o centro do fortalecimento. No fundo, acho que a vida é isso.
Espiritualidade é um valor-chave em sua vida. Você o herdou de seus pais?
Como boa mineira, acho que minha mãe se definiria como católica, mas meu pai não.
De toda forma, em casa, meus pais nunca trataram religião de forma dogmática. Era
mais como espiritualidade, um partilhar comum das conquistas que fazíamos. Sempre
dividir, sempre poder ajudar financeiramente os mais necessitados. Tanto que uma das
minhas primeiras lembranças tem a ver com a primeira comunhão. No cursinho preparatório dela, tínhamos que responder num caderninho o que pensávamos do assunto. A frase que registrei foi que gostava de tudo da forma mais simples, como uma calça jeans, uma camiseta branca e uma sandália. “O que eu mais gosto é de unir as pessoas e evitar brigas.” Eu devia ter uns 7 anos. Hoje vejoque tu do o que resolvi fazer de minha vida foi realmente permanecer no mundo sem causar danos, minimizar o máximo possível
minhas pegadas emocionais e físicas, realmente estar cada vez mais em contato com o universo em todas as suas dimensões. Tanto que posso dizer que sou muito empenhada
espiritualmente, que me dedico profundamente às filosofias espirituais. Mas religião em si não posso dizer que tenho.


Os anos de 2016 e 2017 foram particularmente desafiantes para você. Como os superou?
Tive dengue. Não apenas uma, mas três vezes em 2016. Como sigo a Ayurveda, esse milenar conhecimento médico desenvolvido na Índia, faço ioga, tenho alimentação saudável, sigo ritmos muito saudáveis, tenho o corpo muito forte. Eu sentia o mal-estar, mas não me deixava abater. Pensei que era uma gripe forte. Tanto que fui avisada que tinha tido dengue depois, quando fui fazer exames em 2017, quando tive chikungunya, esta uma doença viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypt, que também transmite a dengue.
Quais foram as consequências da chikungunya?
Senti dores, dor de cabeça, fiquei três meses passando muito mal até ser internada. Mas
parece que foi tudo de repente. Uma noite de maio de 2017, acordei para ir ao banheiro e
senti que estava com sinais de AVC [acidente vascular cerebral, uma emergência médica cujos sintomas incluem dificuldade para andar, falar e compreender, bem como paralisia ou dormência da face, do braço ou da perna]. Na época, liguei para meu então namorado. “Dani, não estou bem, acho que tenho algo grave”, eu disse com a voz engrolada. E ele respondeu: “Acho que é grave mesmo, não estou conseguindo te entender”. Ele veio em casa e me levou imediatamente ao Hospital Oswaldo Cruz. Na internação, eu falava coisas sem muito sentido, estava cambaleante, o diagnóstico foi de uma alteração neurológica gravíssima. Tive uma pré-morte. Fiquei bastante tempo no hospital, pois tive diagnosticada a síndrome de Guillain-Barré, distúrbio autoimune no qual o próprio corpo ataca parte do sistema nervoso [esta síndrome geralmente é provocada por um processo infeccioso anterior e se manifesta como fraqueza muscular]. É raro sair sem sequela, como não falar, não andar, não ter vida normal. Ainda hoje tenho dores muito fortes e não enxergo bem.
O que você tirou dessa experiência de quase morte?
Sei que estou bem porque vivencio a espiritualidade. Sou meditadora há 30 anos. Atendi mais de 600 pessoas, com a ideia de mostrar a elas que existe uma equação de plenitude. Tenho vida regrada, voltada para o bem-estar, para que eu tenha horário para dormir, me alimento corretamente, não bebo, não fumo, dou aula de meditação gratuita todo dia lá em casa. É um ritmo libertador. Mas antes da doença, ainda tinha na minha personalidade o desejo do controle. Queria que as coisas fossem do jeito que eu havia planejado. Tanto que só percebi o que vivenciei em maio de 2017 em março de 2018. Aí caiu a ficha da minha experiência, de que eu havia sobrevivido em condições muito difíceis e que poderia, então, falar sobre o assunto. Tive de reaprender a andar, a falar, lancei uma campanha contra barulho na Granja, estou viajando muito. O olhar da doença me trouxe o entendimento de que não tenho o controle de nada, e isso é um presente. Hoje está facinho de entender, de
olhar. O plano agora é viver sem precisar ter controle. Esse foi meu aprendizado. Eu não tenho mais “isso vai ter de acontecer”. Quando uma coisa não é, não é. Estou muito mais fluida.
Qual foi o momento mais difícil para você superar a doença?
A dor neuropática é paralisante, literalmente, não há remédio que a tire. Tem apenas paliativo. No hospital, cheguei a tomar morfina seis vezes por dia e nada. Até que a abandonei. Hoje a dor segue comigo. Tenho algumas sequelas. Passei a usar óculos, por exemplo, estou com 4 graus. E quando fico exausta “apago” e só acordo 12 horas depois. Como não há opção, deito e durmo. Aceitar é algo maravilhoso. Sei que tenho uma doença autoimune, não vou ficar livre dela. Mas também sei que tenho cinco anos para recuperar todos os neurônios. Talvez eu consiga eliminar as dores também. Desenvolvi, com a ajuda de Camila Flores, fisioterapeuta aqui da Granja, um protocolo novo que é um turning point para quem tem doença neuropática. Esse trabalho com o nervo vago, importante na distribuição da ocitocina, o hormônio do amor, ajuda a diminuir a dor e a aumentar a empatia. Estou confiante: daqui 20 anos, me vejo mais nova do que hoje, vou estar no auge de meu conhecimento sobre a vida. Mas já me sinto muito grata, falo de coração, por esta experiência. Aprendi a aceitar minhas deficiências. O que não há possibilidade de modificar, tá certo, é isso.

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