Crônica do Saul: Manda nudes

“Fique com quem te despe a alma, porque a roupa qualquer um sabe tirar”

Desde que me entendo por gente (e isso faz muito tempo, ou como diria em minha franquia de filme preferida “long time a go”) gosto muito de tecnologia, e é só surgir um aplicativo novo, que me faça a cabeça, estou dentro.

E o último que incorporei ao meu dia foi o Whatsapp e suas infinitas possibilidades de utilização.

Pois bem. Estava eu utilizando e me divertindo com o aplicativo, quando de repente, me surgiu a mensagem “manda nudes”. A principio não sabia nem como se pronunciava: sê manda ‘núdes’ ou ‘nudês’.

Além de perguntar sobre a pronúncia, também questionei sobre o significado da palavra aos meus netos, porque “na boa véio” (acho engradada demais essa expressão), todo dia aparece uma gíria adolescente nova.

Bom, perguntado aos meus netos, após longo período de zombarias e frases como “acho que o senhor não tem mais idade para isso, vô!”, me explicaram que aquilo significava que a pessoa queria imagens íntimas minhas.

Sim, eles tinha razão, talvez tenha passado da idade para isso, mas com certeza a mensagem foi ao remetente errado, pois se eu enviasse o que o meu interlocutor me requisitava, seriam longos e longos anos de terapia para esquecer as imagens, afinal, no aplicativo não tem o botão ‘desver’.

Detesto utilizar o termo “no meu tempo”, porque se você está vivo, este é o seu tempo, mas há alguns anos, se enviasse essa mensagem para alguém, já configuraria como assédio.

Não, não, não… não sou nenhum puritano, e acho que cada um deve mandar o que quiser para quem quiser, desde que a outra pessoa queira ver. Mas essa ação me deixa com uma dúvida: o que se evapora primeiro, a curiosidade de quem pede a nudes ou a autoestima de quem envia.

Porque pensa comigo: você acha que se a pessoa procura um par romântico – a sua cara metade, sua tampa da panela, a outra metade da laranja – se interessará por alguém que fica distribuindo fotos intimar pela internet.

Talvez sim, talvez não, mas acredito que a possibilidade é bem pequena. O que eu realmente levo bem a sério é uma postagem que li recentemente em uma fan page e achei batuta (essa gíria é das antigas, mas sempre boa): “Fique com quem te despe a alma, porque a roupa qualquer um sabe tirar.”

Saul Queiroz é autodidata, inclusive na arte de inventar pequenos currículos de três linhas para o final de suas crônicas. Exímio domador de lobos, Saul cuida com muita justiça de suas feras internas.

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