Educação Financeira agora nas salas de aula: aprendendo sobre o equilíbrio entre ter e ser

Descubra como a nova disciplina que fará parte da matriz curricular nas escolas pode mudar a perspectiva dos alunos, criando novas estratégias para atingir suas metas e seus hábitos de consumo. Conversamos com algumas escolas da região para entender como a disciplina está sendo desenvolvida na região.

Um tema que tem se tornado cada vez mais presente na rotina dos brasileiros é sobre o atual cenário do mercado de trabalho e suas novas demandas. Quando tudo à nossa volta parece estar se reinventando cada vez mais rápido, seja pela tecnologia ou por exigências sociais em atingir resultados cada vez melhores. Mas por outro lado, o desemprego também tem sido um problema nas grandes cidades e desta vez esteja de alguma forma relacionado aos novos programas de ensino dentro das salas de aula.

Considerando os índices de desemprego dos últimos anos, o número de famílias em dívida ou inadimplentes, deu-se inicio uma proposta de inserir educação financeira na rotina das famílias pelo país, ensinando alternativas para se organizar e conseguir chegar ao fim do mês maior alívio financeiro.

A partir dessa reflexão, o Ministério da Educação (MEC) decidiu introduzir a Educação Financeira como “disciplina transversal” – que existe uma necessidade de ser amplamente discutida e inserida na rotina dos alunos – e obrigatória a partir deste ano em todas as escolas públicas e particulares do Brasil.

A professora do 5° ano do Colégio Via Sapiens, que tem trabalhado esse tema vinculando-o às matérias tradicionais, conta como as temáticas financeiras estão sendo relacionadas e aplicadas nas matérias comuns da grade: “por se tratar de um projeto muito vivo, a interdisciplinaridade acontece naturalmente. Coleta de informações e vendas podem se transformar em gráficos em matemática, já com diferentes gêneros textuais podemos refletir em português, situações diversas que envolvam a tomada de decisões baseadas no consumo consciente. Em História e Geografia, podemos aproximar os alunos de questões culturais, desde os tempos antes da existência do dinheiro (ou moeda, propriamente dita), bem como os locais originários do capital. Ao pensar em Ciências, nosso projeto ganha importância fundamental, visto ser baseado em ações sustentáveis.”

Por outro lado, também existem escolas em que os alunos já podem contemplar a disciplina como independente. A professora especializada em Educação Financeira do Colégio Português, Maria Aparecida de Souza Leitão (foto), declara que já procurava relacionar essa temática em aulas tradicionais, mas agora poderá ser abordado de forma direta e objetiva. “Na grade, entrou só esse ano. Mas aqui já era um tema transversal, como outras escolas também já trabalhavam. Agora já estamos apresentando ela como uma disciplina, então está bem mais específica. Antes até trabalhávamos dentro de temáticas de outras matérias, fazendo trabalhos interdisciplinares e outros projetos, mas agora realmente se tornou uma coisa bem direta”, explica.

Bem, se você está imaginando que isso significa que os estudantes de ensino infantil e fundamental deverão apenas ter mais aulas de cálculo ou aprender a investir, saiba que não é bem por aí. Na verdade, apesar de ser estendida dentro da Matemática, a educação financeira trata-se de uma ciência humana e não exata. Se estamos falando de dinheiro, sim, ainda haverá cálculo envolvido. Mas a disciplina vai além de números, ela está sendo implementada como um meio para se estudar e trabalhar o comportamento das pessoas como consumidores. Aprender não apenas como chegar a um resultado, mas entender e poder interpretar o que ele representa.

Para a professora Maria Aparecida, outro ponto importante é trazer esse tema para a realidade deles, e ser trabalhado de forma prática desde o início no ano. “Eu vejo essa disciplina como uma coisa que precisa ser trabalhada de forma mais prática. Não adianta apenas ensinar conceitos e teorias da educação financeira. Os alunos precisam entender na prática como esse tema aparece na vida deles. Para isso estamos trabalhando com projetos, fazendo planejamentos financeiros, mostrando como se faz isso e para quê fazer isso. Discutir as diferenças entre Consumo x Consumismo e então tentar desenvolver hábitos de consumo consciente”, completa.

E nas escolas da região, como este tema é inserido dentro da proposta de ensino que já conhecemos?

A intenção é que a educação financeira possa ser abordada desde o ensino infantil até os jovens que entrarem no ensino médio. Não obrigatoriamente como disciplina independente, tal como Português ou Matemática, mas difundida e abordada sempre que as habilidades dos estudos se relacionarem. Podendo então variar em diferentes aprofundamentos e abordagens da aula específica de acordo com cada nível e série dos estudantes. Apesar disso, há instituições aqui na região que decidiram já colocar e desenvolver a disciplina como independente dentro da proposta da BNCC, como é o caso do Colégio Português. A diretora Aparecida Maria Clapis de Paula, conhecida carinhosamente pelos alunos como a “Diretora Cidinha” conta que diante de um assunto tão relevante na vida de todos na atualidade, eles acharam necessário colocar um profissional especializado em educação financeira para trabalhar isso com as crianças. “Essa disciplina, cujo objetivo é ajudar os alunos a lidar com o dinheiro e a economizá-lo, também incentiva as novas gerações a adquirirem independência financeira, uma vez que aprenderão sobre finanças, trabalho e consumo, fomentando, dessa forma, habilidades empreendedoras”, comenta.

O mais importante é que o assunto seja trazido para a realidade do aluno. Que ele possa conhecer suas possibilidades e então aprender a administrá-las. Discutir sobre o valor do dinheiro e da importância de um consumo consciente é importante para a criança aprender a se organizar. E então, conquistar mais autonomia acerca de escolhas no seu dia a dia, para atingir seus próprios objetivos. A professora da Escola Maré da Kids, Regina Pundek, conta que ali na instituição eles criaram uma atividade denominada “FAZER”, para trabalhar a motivação dos alunos em que eles mesmos podem conquistar itens desejados através das aulas de educação financeira. “Temos uma prática de educação financeira bastante real, que se aproxima do dia a dia do consumidor comum. As crianças do nosso Ensino Fundamental 1 trazem para a escola, mensalmente, 50 reais. E esse dinheiro é deles! Através de uma planilha do Excel, eles controlam o dia a dia das finanças do grupo. Esse dinheiro é usado para as atividades dos momentos que denominamos FAZER, que requerem materiais e serviços não usuais na escola. Desta forma, todos se sentem responsáveis pelo que foi adquirido”, explica. Regina descreve que através desse programa, os alunos já conseguiram usar o dinheiro para pagar especialistas e agroflorestas, já fizeram excursões e até desenvolveram projetos educativos voltados para temas ecológicos.

Mas para isso, é preciso que as escolas se empenhem em possibilitar que essa proposta possa ser adequadamente realizada também pelos professores que são relativamente importantes nessa fase. E que exista uma orientação para que estes profissionais possam ser capacitados em mais este desafio.

O órgão central se comprometeu a fornecer parte do material a ser usado, tal como uma ementa do projeto, material padrão a ser contemplado e um plano de aula. Mas os professores também podem fazer uso de outros conteúdos extras sobre o assunto em suas aulas livremente.

Educação financeira é o mesmo que aprender a investir?

Na verdade, não são áreas que, apesar de bastante relacionadas, tratam de finanças para atingir metas diferentes. A educação financeira está mais relacionada em entender as suas possibilidades, e posteriormente decidir o que poupar e o que gastar. Como poupar em certos momentos pode ajudá-lo a conquistar um objetivo talvez um pouco mais almejado lá na frente, ou então mais relevante, como não ficar no vermelho no final do mês.

Enquanto os investimentos são atividades, que através de uma educação financeira e um autoconhecimento, a pessoa pode realizar, hoje, aplicações, de um valor em dinheiro que não vai comprometê-la, para obter um possível retorno potencializado no futuro.

Mas como mudar seus hábitos e deixar de gastar naquilo que proporciona a alegria das pessoas no dia a dia assim do nada? Como trazer essa educação financeira para a vida das pessoas afinal?

A professora Maria Aparecida conclui que o ponto mais importante é definir-se um objetivo, do contrário, seria bem difícil mudar seus hábitos de consumo e atingir suas metas no final: “Educação financeira é um tema bem abrangente. Podemos trabalhar de muitas maneiras e ver muitos tipos de aplicações diferentes na vida real. Como estamos começando esse ciclo agora, ainda estamos fazendo pesquisas, até para os alunos conhecerem e traçarem um perfil de suas famílias, depois podem desenvolver metas e ver se cada um consegue atingir esses objetivos. Quer dizer, criando aquele questionamento, poupar para que? É importante que as pessoas definam um objetivo e possam poupar para alguma coisa. O poupar avulso se torna uma prática vazia. Com um objetivo, isso tudo se torna mais fácil e a chance de sucesso no final, é maior”.

Por Eric Ribeiro