Eu sou normal!

Uma reflexão sobre as bizarrices do dia-a-dia.

Nos tempos em que os programas humorísticos da TV eram engraçados, sem a patrulha dos lacradores e sem a chatice do politicamente correto, tinha um personagem no programa “Viva o gordo” do falecido Jô Soares que era interpretado pelo também falecido ator Francisco Milani, que falava absurdos diante das situações e causava espanto ao redor. Seu bordão era um grito que trazia as pessoas de volta a realidade: “Eu sou normal!” dizia ele tentando justificar as bizarrices desconexas.

Esse personagem remete a nós brasileiros nos dias de hoje. Convivemos com situações absolutamente anormais, mas achamos tudo normal. E vamos vivendo num caos cada vez maior, mas agindo como se tudo fosse normal! É normal o que fazem alguns motociclistas no transito das cidades brasileiras? Ou só eu vejo as atitudes suicidas dos caras? Trafegam com leis de transito próprias sem qualquer cerimônia, pondo suas vidas e a de quem estiver por perto em risco e seguem impunes na anormalidade que acaba virando normal. “Eu sou normal!” diria o nosso saudoso personagem a bordo de seu carro e levando um susto atrás do outro com os motociclistas fazendo acrobacias no transito.

É normal a quantidade de impostos que pagamos versus a precariedade dos serviços públicos que recebemos em troca? “Eu sou normal!” diria ele na fila do SUS ou pagando impostos que não param de crescer, IR, ICMS, IOF, ISS, CSLL, IPVA, COFINS, ufa! ou sendo assaltado e assistindo as saidinhas do mês.

É normal a quantidade de ligações de telemarketing que um cidadão recebe por dia, sendo metade golpe e metade algum IA tentando vender seus abacaxis? “Eu sou normal!” diria ele atendendo a vigésima ligação da Claro ou do INSS tentando dar um golpe nos velhinhos.

São normais os salários e penduricalhos que alguns privilegiados dos três poderes recebem mensalmente sem que ninguém tome uma providencia? ”Eu sou normal!” diria ele olhando para o seu misero holerite de um digito versus os de sete dígitos da turma de Brasília.

É normal a quantidade de casos de corrupção que assola o noticiário diariamente e nada de culpados e punições? “Eu sou normal!” diria ele sabendo dos casos do banco Master, INSS, Petrolão, mensalão e outros aõs e vendo o Brasil ocupar a 107ª posição num ranking de 180 países mais corruptos do mundo, ao lado da Venezuela, Sudão do Sul, Iêmen, Eritréia e outras potencias da corrupção, sendo a Dinamarca a 1ª colocada como a menos corrupta e a Somália a 180ª como a mais corrupta.

É normal convivermos com o descaso das prefeituras que administram a Granja Viana e nada fazem pela região? “Eu sou normal!” diria ele preso no transito da Av. São Camilo por horas e olhando para os condomínios fantasmas vendido por empresas inescrupulosas e que jamais serão entregues as vitimas compradoras.

É normal encararmos há anos o inferno do transito da Rodovia Raposo Travada? “Eu sou normal!” diria ele esperando parado no transito sua vez de ser assaltado na RT.

Nada disso é normal, mas nos acostumamos com as anormalidades e vamos incorporando as barbaridades como parte do dia a dia e deixando para lá o que deveria ser nosso direito de cidadão. Vivemos uma agressão diária ao bom senso e a vida num país incivilizado.

Poderia escrever uma enciclopédia de anormalidades que se normalizaram no nosso Brasilzão véio de guerra, mas o espaço é curto. E você, o que acha anormal que virou normal e te incomoda? Eu sou normal!

Marcos Sa é palestrante e consultor de propaganda e marketing,  com especialização na universidade de Stanford, California, EUA.

 

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