Em uma época em que o município de Cotia era bem diferente do que vemos hoje e as poucas vias que havia ainda eram de terra batida, a rotina de Dona Marciliana era acordar um pouco antes de o dia clarear para começar as atividades no sítio para o qual trabalhava, como carvoeira. Termo que a maioria das pessoas de hoje talvez desconheça e que se refere à atividade de queimar lenha para a produção de carvão.
Além dessa ocupação, Dona Marciliana estava sempre executando serviços manuais, entre eles um que a tornou bastante conhecida em meados de 1979, quando foi morar na “Casa Redonda”, no Morro do Macaco. Foi com seus trabalhos de crochê que criava encantadoras toalhas e distribuía aos moradores que guardam as peças até hoje, como símbolo de sua bondade e carinho. Porque além da generosidade, tinha o hábito de conversar e incentivar os moradores do morro a serem próximos. “Tinha algo na essência dela que era de estar próxima, de dialogar e estar envolvida de um modo positivo com as pessoas. Era sempre simpática oferecendo atenção e observando os demais”, conta Paulo Tertuliano.
A “Casa Redonda” foi uma das primeiras construções do morro e tinha esse formato em referência ao circo, paixão do proprietário que a construiu. Atualmente, há uma ONG assistencial a educação no Morro do Macaco que carrega esse nome em homenagem a Dona Marciliana e sua importância na comunidade que morou até os 84 anos, deixando um legado que deve se manter por muitas gerações. Quem fundou e até hoje ocupa o cargo de Diretor Executivo da ONG Casa Redonda é Marcos Batata, 39, neto de Dona Marciliana. Em suas palavras: “O trabalho da nossa Casa Redonda é, através do gosto pela informação, do gosto pelo aprender, fazer com que esses jovens, moradores de favelas e quebradas do Brasil, possam alcançar a consciência plena e, através dos estudos e da curiosidade própria, se articulem para defender seu direito à cidadania real. Na prática, para defender o direito de estudar em boas e belas escolas, de se vestir bem, de se alimentar bem, de brincar bastante e de ser feliz. Tenho certeza que minha avó ficaria feliz com a iniciativa, e também aprovaria o trabalho desenvolvido pela Casa Redonda”.

“O legado que Dona Marciliana deixa é o nível de reflexão acima de qualquer outro, de união e de você respeitar o outro. O ato de você ser generoso, de você manter a união e o afeto é o que faz uma sociedade melhor”, conclui Paulo Tertuliano. Ele conheceu de perto como o carisma de Dona Marciliana foi importante para a união e respeito que é presente entre os moradores do morro até os dias de hoje e deixa uma homenagem de carinho:

“Mesmo ainda sendo de terra a rua, ela caminhava levemente exibindo o seu olhar sincero, e a gentileza fluía natural, do próprio ser, de passo em passo expressava algo para além da matéria do respeito ao lugar em que habitava. Existia alguma espécie de conexão que gerava, e ainda gera, energia vital ao mesmo lugar, na rua da Paz, no Morro do Macaco.
Não poderia deixar de pensar e indagar para minha própria consciência: o que é a sutileza quando o ambiente é hostil? Qual é esse fervor que o sentido de humanidade, muito explícito nessa senhora, produz diante de toda agressão que os poderes, desde sempre, fizeram conosco? A resposta surgiu da lembrança de alguém que, igual a vários, muito embora estando já ausentes de corpo, ainda demonstram a ciência do zelo e do cuidado.
Não posso me ater ao simbolismo latente de minha memória. O que possuo de qualquer lembrança é quase “tátil”, assim reservo o valor do sentimento de gratidão pela existência dessa senhora. Talvez eu não seja a melhor pessoa para descrever a Dona Marciliana, porém, posso dispor da certeza de que a grandeza e a sensibilidade humana dela ecoam ainda hoje, no vigor absoluto, não é apenas o ato de lembrar, é a ação em prol da memória.
A melhor forma de exercer essa ação é pontuar o conceito de alegria pela vivência da população local com Dona Marciliana, que possivelmente é igual ao que penso… o Morro do Macaco é a voz integral capaz de dizer quem era ela, de certo que os antigos irão de recordar, claramente.”
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Por Eric Ribeiro


















