Paulo Tertuliano é assistente de fotógrafo e baterista da banda de Afro Punk “Punho de Mahim”. Morador do Morro do Macaco desde 1990, o jovem já apoiou e articulou projetos de shows e festivais, debates políticos e atualmente ainda desenvolve produções audiovisuais com seu projeto Doc89 e outras atividades na região. Além disso, buscando criar mais conteúdo reflexivo relacionado ao espaço urbano e comunicação visual, foi colaborador no projeto Farpa Poética e na ONG Casa Redonda.
“Na fotografia, eu desenvolvo trabalho autoral e audiovisual também, dentro de um projeto de edição e gravação de vídeo que é ligado à poesia, que é o Farpa Poética. Originalmente esse projeto é mais recente, mas eu criei a assinatura da Doc89 que é onde eu exponho algumas fotografias de rua e alguns trabalhos de vídeo”, explica.
Paulo revela que, no início, ainda não possuía conhecimentos técnicos da fotografia, mas por interesse em aprender mais sobre essa área, procurou uma especialização e acabou conseguindo fazer um curso livre no Senac. Para fazer o curso, ele lembra que era necessário ter uma câmera, então deu um jeito de conseguir a sua primeira câmera analógica e já saiu tirando as primeiras fotos no cenário que mais lhe despertava reflexão: as ruas.
Algum tempo depois, o jovem que já dominava o básico da fotografia teve seus primeiros contatos com produções em vídeo e as novas possibilidades que a edição trazia, então resolveu criar a sua identidade artística relacionando todas essas ferramentas. Dessas produções, um curta-metragem ganhou destaque por mostrar objetos do cotidiano que fazem parte de sua vida em uma narrativa engajada na reflexão. Seus trabalhos sempre estão dentro de uma temática que busca abordar questões raciais adaptadas para transmitir uma mensagem de impacto de uma forma mais leve para as pessoas: “é uma questão de mostrar o cotidiano, a vivência, porque geralmente eu crio quando sou impactado por questões que me afetam. Desde agressão e violência policial que acontece e é exposto na mídia, até coisas que são positivas e construtivas, então eu pego isso e procuro desenvolver uma criação em cima desse contexto da minha visão de mundo e do que eu estou sentindo”.
Seu projeto Doc89 já tem cerca de dezesseis publicações de produções de curta duração. Ele conta que, apesar de sempre trabalhar com críticas sociais, não há um padrão que segue na pré-produção desses trabalhos ou nos roteiros. Na verdade, o desenvolvimento depende muito de como sente que o assunto deve ser retratado. Esse caráter fotográfico se deve em partes, por profissionais que inspiraram Paulo na construção de um olhar humanista para a realidade da periferia que ele queria trazer para a produção áudio visual.
“Tive a experiência de observar fotógrafos mais do meu entorno, algo mais perto da minha realidade. Em 2015, eu comecei a trabalhar como assistente de fotógrafo e, a partir disso, eu comecei a ter um olhar mais peculiar para alguns fotógrafos, entre eles acho que o Cartier-Bresson foi fundamental pra mim, mas tem também o Wainer que tem uma visão mais crítica social e que traz isso para a fotografia”, conta.

A música como ferramenta de combate ao preconceito
E para quem acha que o espírito artista de Paulo Tertuliano encontra-se só no âmbito visual, o jovem dá exemplo de versatilidade quando o assunto é expressão e produção cultural, seja por fotos, filmes ou, então, pela música.
Tem relação com a produção musical na cena underground (que foge dos padrões de produção e consumo) desde 2011, atua oficialmente como baterista desde 2015 e ao longo desse período já passou por diferentes projetos.
A banda “Punho de Mahim”, cujo estilo corresponde ao movimento Afro Punk, foi formada por amigos que decidiram promover o combate ao preconceito através da música. Suas letras são carregadas de críticas que relacionam história e a discriminação racial na sociedade. “A ideia era fazer um projeto que fosse Afro Punk, com músicas hardcore, mas que tivesse uma essência ligada a ancestralidade e a população preta no Brasil. É sobre a cultura Negra. As letras são pautadas em pessoas que desenvolveram resistência e críticas sociais”, explica.
Vivendo muitas situações em que esse tema se torna a realidade da periferia, Paulo e seus colegas do grupo musical tem propriedade para expressar a dor do racismo estrutural, machismo, sexismo e outros males que ainda estão presentes no dia-a-dia dos moradores da comunidade. O jovem informa que esse gênero está tendo mais abertura atualmente na sociedade porque muitos outros grupos tem se aproximado dessa causa, mas a luta contra o preconceito ainda é constante: “ainda rola muito estranhamento para as pessoas, mas agora até que está tendo uma abertura e uma aceitação melhor das pessoas porque a galera se organizou para que existisse. Existe já um conceito político pronto, mas é uma luta cara, é uma luta constante para conseguir quebrar paradigmas e estereótipos. E a gente segue tentando fazer o que é possível”.
Mas para quem está nessa luta constante, manter o otimismo diante de tanta injustiça e desigualdade, confiar na arte como ferramenta de transformação é o que mantém Paulo e muitos outros moradores do Morro do Macaco com esperanças de dias melhores para a comunidade.
“A importância desses projetos é justamente levar a reflexão sobre vários aspectos sociais, produzir conscientização por meio da arte. A gente busca o reconhecimento fazendo música, fazendo arte, e isso é uma resposta real ao processo de opressão que a gente vive. A arte possibilita inúmeras condições de reposta, inclusive de resposta social. Pra mim a importância desses projetos é essa. No futuro, eu espero que essa realidade esteja melhor em vários quesitos, a gente está plantando para ver o que será possível colher futuramente… e a gente vai seguindo a vida”, diz com olhar para o futuro.
- Clique aqui e leia outras histórias inspiradoras que nasceram no Morro do Macaco, periferia de Cotia
Por Eric Ribeiro


















