Jornalista na Agência Mural, uma das fundadoras do Sarau na Praça, professora do Cursinho Popular de Cotia e fundadora do projeto Mães da Perifa. Essas são algumas das atividades relacionadas à periferia que a jovem Halitane Rocha, 25 anos, desenvolve na atualidade. Sim, apesar de jovem, ao longo de sua trajetória já trabalhou também como jornalista na Folha de Cotia e Cotia Todo Dia, como ‘social media’ na agência Trevo Quatro, fez estágio na TV Alesp, já foi assessora de imprensa, atuou em produção de vídeo e muitos outros trabalhos de destaque.
Tanto quanto essas atividades trazem reconhecimento para a comunicadora que cresceu no Morro do Macaco, a determinação, empatia e o carisma de Halitane são qualidades que se notam mesmo para quem acaba de conhecer essa jovem e um pouco de sua história inspiradora.
Sua infância teve um início bem comum, brincava com as outras crianças e tinha uma vida tranquila ali na comunidade. Quando um pouco mais velha, foi procurando preencher os tempos fora da escola com cursos, praticando esportes e outras atividades culturais. Com o tempo, sua rotina foi se tornando cada vez mais agitada até que chegou uma fase em que voltava para casa apenas para dormir.
No segundo ano do ensino médio, sua turma precisou fazer projetos sobre doenças mentais, dependência química e outras patologias afins. Halitane decidiu abordar questões sobre alcoolismo em seu trabalho, ela e os colegas planejaram fazer um vídeo reportagem e acabaram visitando uma clínica para ouvir os relatos de pessoas que lutavam contra esses problemas. Mas ela não esperava se identificar tanto com as possibilidades de trabalhar temas sociais que o jornalismo trazia, e foi naquele momento que despertou o interesse pela área que iria seguir sua carreira.
“Coloquei isso na cabeça e decidi que ia fazer esse curso, mas acho que o que me levou a fazer mesmo foi ver injustiças. Como eu estava sempre fora, eu tive contato com pessoas da periferia, do morro, mas também com uma galera que tinha dinheiro. Então eu via nitidamente situações de preconceito em vários sentidos, opressão policial acontecia com muita frequência e foi um negócio que também me indignou, daí eu falei ‘eu quero fazer jornalismo, quero falar sobre onde eu moro e minhas vivências’”, descreve Halitane.

A jovem conta que já viu muita discriminação social ao longo dos anos dentro e fora da comunidade e isso sempre a incomodava porque não tinha voz para fazer a diferença, e na área que escolheu para se profissionalizar viu uma oportunidade de transmitir a realidade que dela de outros moradores da periferia: “eu já vi muita injustiça, mas quem era eu até então para poder falar algo? Quem ia me dar ouvidos? Então fazer jornalismo foi uma maneira que eu achei para ser ouvida.”
Confiante que jornalismo era o curso que iria fazer, além do conteúdo básico do colégio, se dedicou muito aos estudos também através do “Cursinho Popular de Itapevi”, que ela afirma ter sido muito importante para o resultado excelente de sua nota no Enem, que garantiu a ela uma bolsa para cursar a faculdade que desejava.
Foi um momento de muita satisfação e alegria em sua vida, mas suas conquistas estavam apenas começando. Logo nos primeiros anos de faculdade, Halitane recebeu prêmio de melhor revista quando trabalhou um olhar distinto para as mulheres e chamou a atenção de todos da universidade.
Nessa época a jovem interessada pela quebra de preconceitos e desigualdade social, foi buscando oportunidades que relacionavam seu viés ideológico e a área da comunicação até que finalmente conheceu a Agência Mural, principal veículo que produz notícias sobre as periferias de São Paulo. “Foi a partir daí que eu pude ter outra percepção para falar desses lugares sem focar na violência. Poder focar nas pessoas que fazem a diferença, pessoas que se mobilizam, que ajudam uns aos outros e se profissionalizam. Tive ainda outra percepção de como agir nesses lugares”, lembra.
Por acaso ou destino, a missão da Agência Mural de quebrar o estigma das pessoas das periferias e o objetivo de Halitane de combater preconceitos através do jornalismo se encontraram há cerca de dois anos, em 2018 a jovem entrou com cargo fixo e continua desenvolvendo conteúdo até hoje. Pela agência, a comunicadora já conseguiu divulgar matérias sobre Cotia no “Guia da Folha” da Folha de S. Paulo, no “Bora SP” da Band e outros veículos.

Sua relação com projetos culturais
Além de suas atividades de jornalismo focadas na periferia, Halitane já participou e desenvolveu ações sociais de variados segmentos para a comunidade. Entre eles, foi uma das fundadoras do “Sarau na Praça”, projeto que nasceu com a missão de divulgar o trabalho de artistas, fotógrafos, poetas, cantores, malabaristas e muitos outros, aproximando os moradores das periferias de produções culturais. “As pessoas tem muito essa ideia de que artistas são aqueles que são famosos. Mas isso não é verdade, né? Artistas são todos aqueles que produzem arte. Tem muitos artistas na comunidade, só que eles não têm recursos para produzir e serem então reconhecidos”, comenta.
Assim como o Cursinho Popular de Itapevi se mostrou relevante em seus estudos para viabilizar a realização de seu sonho, Halitane sentiu-se inspirada a levar essa diferença a outros jovens, mas dessa vez, promovendo as atividades de estudo para o vestibular como professora no Cursinho Popular de Cotia, o município que mora.
Seu mais recente projeto é o “Mães da Perifa”, que busca trazer soluções para problemas comuns (ou incomuns) vividos por mães da periferia. Problemas que essas mães não encontram soluções sendo divulgadas pela mídia, veículos de informação ou na internet. Questões que vão desde saúde mental, psicológica e até mesmo organizacional, no que diz respeito à preocupação de manter o trabalho que garante o sustento da família e ainda se dedicar aos cuidados como mãe.
“Decidi que eu queria produzir o conteúdo que eu não estava achando. O objetivo do Mães da Perifa é levar a informação que as periferias não têm e que as paginas da internet que a gente encontra não passam. Por exemplo, sobre amamentação, que o período ideal que somos informados é de dois anos, mas como? Se precisamos voltar a trabalhar de resguardo”, explica.
Halitane dedica sua vida para transformar a vida das pessoas através de incentivo, cultura e educação, assim como a sua foi transformada. Uma atitude que vai além dos projetos sociais que realiza com determinação e carinho. Apesar de jovem, sua trajetória já se tornou uma das histórias mais inspiradoras para a comunidade do Morro do Macaco.
- Clique aqui e leia outras histórias inspiradoras que nasceram no Morro do Macaco, periferia de Cotia
Por Eric Ribeiro















