Carapicuibanos falam do breaking, fusão de esporte, arte e expressão cultural

Em meio aos muros grafitados e batidas pulsantes, Jennifer Mendes e Jefferson “Twister” da Silva Zacarias tiveram suas vidas entrelaçadas pelo Hip Hop, em Carapicuíba.

Ela tem 25 anos e é formada em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo. Sua paixão pela escrita a levou a criar os perfis de poemas @_entreaslinhas no Instagram e Twitter. Crescendo em uma cidade periférica, o Hip Hop sempre fez parte de sua vida, culminando em sua atuação como social media do Hip Hop Carapicuíba e produtora cultural, colaborando com os principais projetos do coletivo.

Ele, aos 30 anos, é natural de Osasco, mas mora em Carapicuíba. Iniciou na dança em 2007, praticando Street e Jazz, até descobrir sua paixão pelo Breaking durante uma viagem ao Ceará. Hoje, além de ser BBoy, atua como produtor cultural e arte-educador, contribuindo para as iniciativas do coletivo Hip Hop Carapicuíba.

Conversamos com os dois sobre o movimento Hip Hop e a importância da inclusão do break nas Olímpiadas de Paris 2024. Confira:

Como o movimento Hip Hop chegou a Carapicuíba e qual é a importância desse cenário para a cultura local? Quais são as principais manifestações do Hip Hop que se destacam na comunidade?
O Hip Hop nasceu das periferias, sendo capaz de resolver problemas que a gestão pública nunca conseguiu nessas áreas. Não é à toa que Carapicuíba, uma das cidades de menor renda per capita da região, sempre respirou Hip Hop e exportou grandes nomes para o cenário nacional, tanto na música (DBS Gordão Chefe, Dj Cia, Família 4 Vidas), quanto no graffiti (Del Grafites) e no breaking (Dunda). Já houve várias manifestações importantes do Hip Hop na Cidade, inclusive a Semana do Hip Hop organizada pelo nosso coletivo (Hip Hop Carapicuíba), que já está indo para sua quarta edição. Mas, um dos momentos mais importantes que marcou o movimento na cidade foi o Fórum Estadual de Mulheres no Hip Hop, que ocorreu na Aldeia de Carapicuíba em 2010.

Como o hip hop vem influenciando a identidade cultural da região e como vem contribuindo para a construção de identidade e empoderamento na comunidade?
Dificilmente você caminha por duas ruas diferentes sem passar por um graffiti nos muros de Carapicuíba. Artistas como Del Grafites, Ueba, Hebert, Walery deixam o visual da cidade com cara de Hip Hop, evidenciando a força do movimento, dando identidade e empoderando a comunidade. A região também conta com diversos MCs, DJs, Bboys e Bgirls que estão no corre independente, participando de diversos eventos na cidade e fora dela. A DJ Ravs, por exemplo, é um grande destaque da cena carapicuibana, e já participou de grandes eventos como a Expo Favela. Isso inspira e dá esperança para quem começando, mostrando que a arte pode, sim, levar a gente muito longe.

De que forma o Hip Hop serve como meio de expressão artística e social para os jovens?
O Hip Hop se tornou um caminho para ascensão social de jovens da periferia. Hoje, vemos artistas que saíram de Carapicuíba – como Yunk Vino – dominando as paradas musicais e se destacando, mudando a vida de toda sua família e trazendo uma nova perspectiva para quem vem de baixo. Com diz Emicida, o Hip Hop salva vidas, porque além de permitir que os artistas tomem o controle de suas vidas, contem suas histórias e expressem seus sentimentos, desmarginaliza e dá visibilidade para uma parcela da sociedade que não tem apoio devido da gestão pública. Em todos os encontros, com a galera do Hip Hop Carapicuíba, fazemos questão de conscientizar que a arte é um mecanismo de transformação e que pode abrir muitas portas, basta ter coragem e determinação.

O que é o Hip Hop Carapicuíba e quais ações têm sido realizadas?
É um coletivo que visa propagar a cultura na cidade. Idealizado em 2019, nosso grupo já soma mais de 2 mil seguidores nas redes sociais e se destaca por grandes iniciativas, como Hip Hop nas Escolas, Semana do Hip Hop de Carapicuíba e Quintal Hip Hop. Pioneiro entre os projetos, o Hip Hop nas Escolas propõe desmarginalizar a arte para as novas gerações por meio de oficinas e já transitou por várias escolas estaduais e CRAS. A Semana do Hip Hop, em suas três edições, reuniu mais de 400 participantes entre MC’s, Breakers, Dj’s e Grafiteiros, propondo uma exposição dos trabalhos realizados na cidade sobre os quatro elementos do movimento – uma iniciativa que estava prevista em Lei há mais de 15 anos. Já o Quintal Hip Hop, que completa dois anos em fevereiro, é uma festa, idealizada para dar visibilidade à arte e artistas da cidade – inclusive, no dia 24 de fevereiro (sábado), vamos fazer o evento de comemoração de dois anos do Quintal, em uma festa no Herbs Bar (Osasco), com diversos pockets shows e set de djs de dancehall.

Vamos falar do breaking. Qual é sua opinião sobre a inclusão como modalidade olímpica? Como isso pode impactar positivamente a visibilidade e o reconhecimento do Hip Hop no cenário esportivo mundial e, mais,inspirar jovens talentosos na comunidade a se envolverem mais com o Hip Hop e a dança?
Acho que isso trouxe novos horizontes para o breaking. Agora, além das competições, trabalhos publicitários e escolas de arte, temos as olimpíadas como carreira e isso inclusive ajuda a trazer mais adeptos à cultura, mostrando a mães e pais que não só seu filho pode ser um dançarino, como também pode ser um representante do seu país numa competição desse nível. Cada vez mais, mostra a real cara do Hip Hop e sobre a mudança que a cultura traz para os praticantes e simpatizantes. Sem dúvida, no último ano, com a divulgação em massa sobre a participação do Breaking nas Olimpíadas, o setor ganhou destaque e visibilidade, escolas de dança e centros de treinamento se voltaram para o Breaking com outros olhos.

Como os dançarinos de breaking têm se preparado para a possível participação nas Olimpíadas? Tem alguém de Caracas na disputa?
Diversas entidades foram formadas desde o primeiro anúncio do Breaking como esporte olímpico, e isso já mudou muito a cena, inclusive um atleta de Breaking que seja federado e tenha se classificado bem nos eventos, no ano de 2022, já pode solicitar o Bolsa Atleta do estado, mais um incentivo forte para a cena. Já Carapicuíba ainda precisaria de mais um tempo para desenvolver esses novos talentos. Antes da pandemia, dois eventos faziam um papel importante na cidade, divulgando e agitando a cultura, o BreakSP Battle e Breaking Combate, ambos de produtores da cidade.

Quais são as expectativas em relação à representatividade do breaking nas Olimpíadas?
Desde o primeiro anúncio do Breaking nas Olimpíadas, a cultura sentiu uma facilidade maior de contato com escolas e instituições. A visão sobre isso mudou um pouco e isso é super positivo. Ter um representante nacional nesta competição seria um marco na história e uma virada de chave para a cultura por inteiro.

Quais desafios você enxerga na integração do breaking nas Olimpíadas e como a comunidade Hip Hop pode superá-los?
As maiores dificuldades, por parte dos atletas, foram de se adequar ao formato olímpico, treinos e requisitos necessários para poder competir. A pontuação necessária para escalação e até mesmo ranking nacional eram algo fora do cotidiano do competidor de Breaking. Por parte das instituições, o desafio foi organizar para representar de maneira total esse elemento. Todos os praticantes esperam que as instituições sejam corretas e se formem majoritariamente de pessoas que vivam essa cultura, para poder representá-la da melhor maneira possível. A melhor forma de superar esses desafios é com pessoas comprometidas e focadas em fazer o Breaking chegar ao seu máximo dentro das Olimpíadas e se manter nesse alto rendimento. O diálogo com a cena e com os praticantes é algo essencial, a cultura é formada por pessoas, e o coletivo precisa se ouvir para chegar no resultado esperado.

Existem oportunidades que essa inclusão pode trazer para os artistas locais e para a promoção da cultura Hip Hop?
Os artistas, como qualquer profissional, precisam de maneiras para se manter, custear a vida. Com essa inclusão, as escolas de dança e arte, e até mesmo o poder público, se voltam para o Breaking com um olhar agora de incentivo, contribuindo com quem já faz parte e estimulando a prática.  Em Carapicuíba, no último ano, o Hip Hop ganhou duas leis para sua promoção na Câmara Municipal: a de Apoio ao Breaking como esporte (Lei Municipal nº 3.993) e a que coloca o Hip Hop como patrimônio cultural da cidade de Carapicuíba (Lei Municipal nº 4.048), ambas do Vereador Profº Ladenilson.

Qual legado vocês esperam que a inclusão do breaking deixe para as gerações futuras?
Assim como tudo que vem da periferia, o Hip Hop sempre foi marginalizado, onde as pessoas achavam que praticá-lo não levaria ninguém a nada. Os praticantes que treinam em estações, como São Bento e Vergueiro, sempre foram olhados de maneira tipo “eles não vão chegar a lugar nenhum”. No entanto, com a inclusão do Breaking nas Olimpíadas, as próximas gerações vão ter mais oportunidades e, finalmente, vão acabar com esse estigma problemático proveniente da sociedade. Agora, as pessoas não vão olhar para os pertencentes ao movimento como “sem futuro” e, sim, como uma oportunidade de trazer o Ouro para o Brasil, de dar orgulho para o país.

Na sua visão, como vêm o futuro do movimento Hip Hop?
Acredito que o Hip Hop vai crescer ainda mais, como outros movimentos culturais que vieram antes. São só 50 anos de cultura, então, essa é só a metade do caminho. Felizmente, os artistas já estão ganhando mais espaço no cenário nacional, e a tendência é só crescer.

Foto: Bruno Gois

Existem planos ou projetos futuros que podem impulsionar ainda mais a cena Hip Hop na região?
Com Hip Hop Carapicuíba, pretendemos retomar os principais projetos na cidade, especialmente o Quinta Hip Hop, que permitiu com que vários artistas independentes da região pudessem subir a um palco e mostrar sua arte. Infelizmente, tivemos que deixar nossa sede em 2023 por conta do orçamento, mas, esse ano, pretendemos fazer parcerias com outros pontos culturais para voltar com as iniciativas e começar novas.
Em 2024, eu, Jefferson, também estarei retornando à minha turma de Breaking, na Escola Lumiart, no Ariston. Estive dando aula até 2019, no Instituto Amora Arte, mas por conta da pandemia, precisei parar. Esse ano pretendo voltar com tudo, para contribuir com essa nova geração, oferecendo conhecimento e instrução sobre o Breaking e Hip Hop.

Jefferson, o que o breaking representa para você?
O Breaking e o Hip Hop regem a minha vida. Não existe uma pessoa próxima a mim que não tenha me ouvido falar sobre, inclusive grande parte dos meus melhores amigos são do Hip Hop, pois o movimento foi minha segunda família. Danço desde 2007, mas iniciei com o Breaking em 2010. Em ma viagem ao Ceará, para visitar meus avós, me foi ensinado que o que eu fazia era Breaking – o que tornou tudo ainda mais especial, afinal, a terra natal do meu pai se tornou meu berço do Hip Hop. Em 2016 fui contemplado com um Prêmio de Melhor Canal Latino Americano de Breaking, com o meu projeto BreakSP, onde desde 2013 venho fazendo cobertura de eventos, noticiando e entrevistando a cena Breaking. Esse momento foi mais do que incrível, pois minha família estava toda presente para a premiação e eu até o último momento não acreditava na possibilidade de ganhar pelos competidores da categoria, é algo que guardo comigo como a consagração de um projeto bem feito. Tudo isso só me deu gás para continuar e inspirar outros a seguir com o que se ama e acredita!

Por Juliana Martins Machado

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