Músico, produtor musical, inventor de instrumentos, Arthur Joly é um dos nomes mais criativos da cena brasileira de música eletrônica. Ao unir poesia sonora, design e eletrônica, sua obra despertou o interesse de nomes como Hans Zimmer e Adrian Younge. Joly é criador do Reco-Synth, ateliê paulistano que se tornou referência nacional na construção artesanal de sintetizadores – um lugar onde fios e madeira ganham alma e se transformam em instrumentos.

No mês de agosto, o músico vai participar de um projeto piloto do Instituto Sidarta voltado à difusão artística e cultural na região de Cotia. Partindo da sua missão de promover educação de qualidade e experiências de vida, o Sidarta trará Joly à sua sede na Granja Viana para uma palestra sobre criação sonora e liberdade criativa. A programação com o músico também incluirá uma oficina de construção de sintetizadores, na qual cada participante construirá e levará para casa seu próprio sintetizador. As vagas são limitadas e as inscrições já estão abertas.

Nesta entrevista exclusiva para a Revista Circuito, Arthur Joly fala sobre sua carreira, suas influências e suas reflexões sobre arte e tecnologia. Confira!

Em que momento sentiu vontade de construir os seus próprios instrumentos?
Eu comecei a colecionar sintetizadores em 2009. Na época trabalhava com música para publicidade e podia investir em equipamentos. Conheci esses sites internacionais de compra e importei dezenas de sintetizadores e baterias eletrônicas. Quando quis comprar os modulares, aqueles que usam os cabos externos, vi que eram muito caros e difíceis de trazer. Foi assim que descobri que o mais fácil seria construí-los. Esse foi o começo.
Durante sua passagem pela MTV, você teve contato com diferentes linguagens visuais, musicais e comportamentais.

De que forma essa experiência influenciou sua obra?
A MTV era um polo criativo sem igual. Lá, eu tive oportunidade de trabalhar com pessoas incríveis e estar sempre em contato com artistas. Como tinha banda, usava toneladas de conteúdo do dia a dia para alimentar minhas criações. Foi, de fato, uma fase de muita inspiração.

O Jolymod foi um dos seus primeiros sintetizadores modulares. Quais foram os maiores desafios técnicos e criativos na construção desse projeto?
O Jolymod 1 é, até hoje, o meu projeto mais megalomaníaco, principalmente porque eu não sabia como usá-lo. O maior desafio foi construir algo que eu não sabia usar. Demorava muito pra eu entender se a construção estava correta ou se eu é que não sabia exatamente como usar o circuito.

Ao seu ver, por que a Reco-Synth se tornou reconhecida internacionalmente?
O meu grande diferencial é a estética e o modo de construir manualmente. Penso em cada peça como uma obra de arte artesanal. Como sou músico e usuário dos meus próprios instrumentos, isso me ajuda a criar peças inovadoras e funcionais.

Como funciona a sua parceria com outros artistas na criação de novos instrumentos?
Muitos artistas estrangeiros me procuram com encomendas personalizadas. Já perdi a conta de quantas peças únicas construí para clientes que criam suas próprias customizações. Talvez a mais legal seja a dupla de sintetizadores que fiz para a banda Red Axes, de Israel. Com o Hans Zimmer eu não tive contato direto, um produtor americano encomendou o sintetizador com o nome dele para presenteá-lo em seu aniversário. Já o Adrian Younge encomendou o seu quando veio ao Brasil em 2018.

Além de construir sintetizadores, você também é músico e produtor. Como esses diferentes talentos se complementam em sua carreira?
Tenho 4 trabalhos que convivem entre si. Construir sintetizadores, masterizar discos, fazer discos de vinil e trilhas sonoras para filmes. Todos acabam se cruzando de certa forma. São trabalhos bem específicos. O meu maior hobby é criar músicas autorais quando estou no estúdio, sem nenhuma entrega para cliente.

Como você adapta seus projetos aos componentes disponíveis no Brasil? As limitações influenciam suas criações?
Fazer sintetizadores no Brasil não é fácil monetariamente. Muitos componentes são importados e o imposto é de 100%. Até por isso custa muito caro para quem os vê apenas como instrumentos. Meus clientes compram arte. E, nesse ponto, minhas soluções estéticas acabam me ajudando, como a marcenaria e os painéis de alumínio feitos em fotocorrosão.

O que te inspira na criação de novos sintetizadores?
O que me faz criar modelos novos é principalmente meu desejo de usar minhas próprias máquinas. As soluções que eu mesmo usaria para mim e que não encontro nos sintetizadores que já tenho.

Poderia nos contar mais sobre a experiência de fabricar seus próprios discos de vinil e o que o motivou a explorar essa tecnologia?
Minha história com discos de vinil é pelo menos dez vezes mais complexa e intensa do que a com os sintetizadores. Vendi tudo o que eu tinha em 2012 para reativar um torno Neumann de 1965. Viajei o mundo atrás de senhores que guardavam os segredos e dicas de como fazer um disco. Para mim, construir um sintetizador é como fazer um carrinho de lego perto da complexidade e dedicação que se deve ter para fazer um disco de vinil. Continuo aprendendo dia a dia. Aliás, em ambas atividades, todo dia é uma aula de como atingir a perfeição.

Como você vê o futuro da música e o papel dos sintetizadores analógicos nesse cenário?
Com a inteligência artificial e com o digital dominando o mundo, o futuro vai cada vez mais valorizar o que faço. Em uma era em que qualquer um faz o que quer em um celular, quem conseguir materializar objetos de verdade se destacará.

O que te motiva a compartilhar sua experiência com o público do Instituto Sidarta?
Dei muitas aulas no SESC, no Colégio Bandeirantes, no Colégio Friburgo, muitas palestras e workshops pelo Brasil. Ensinar meu ofício para as pessoas me dá muita alegria. É uma das minhas maiores motivações. Quero retribuir a paciência de quem me ensinou.

Você acredita que a construção artesanal de instrumentos pode dialogar com os valores de uma instituição como o Sidarta, que promove a intersecção entre arte, ciência e cultura?
Sim, acho que a experiência inicial de ser apresentado e entender o que esses instrumentos fazem pode mudar a vida de qualquer pessoa. Seja com sintetizadores ou com qualquer outra atividade criativa e manual, fazer algo seu proporciona um tipo de realização que pode motivar para toda a vida.

Que conselho você daria para alguém que deseja começar a construir seus próprios sintetizadores ou seguir uma carreira semelhante à sua?
A única coisa que não pode faltar é amor pelo que se faz. Muitas vezes surgirão dificuldades, frustrações e você vai querer desistir. Se não tiver muito amor, vai parar e deixar de viver os momentos de sucesso e de alegria.

Arthur Joly no Instituto Sidarta
23 de agosto
Estrada Fernando Nobre, 1332, Granja Viana
Cotia, SP

0 evento será dividido em dois momentos:
Palestra sobre criação sonora e liberdade criativa
Oficina prática, na qual cada participante construirá seu próprio sintetizador e o levará para casa.

A palestra acontecerá das 10h às 11h. Já a oficina será dividida em 3 turmas, das 11h às 13h, das 14h às 16h e das 16h às 18h (o participante deverá escolher um dos horários).

As inscrições estarão abertas até o dia 16 de agosto e devem ser feitas pelo link: forms.gle/8VP8efM6ZhVeg2Nj6
Dúvidas? Entre em contato com Andreza pelo WhatsApp: (11) 91097-5221

Artigo anteriorRotary Club Cotia Granja Viana abre inscrições para o Programa Internacional de Intercâmbio Estudantil
Próximo artigoMedViana completa 10 anos de atendimento que abraça