Julgamento histórico nos EUA pode acabar com os Stories e mudar o Instagram

29 estados americanos processam a Meta acusando a empresa de viciar crianças e adolescentes. Se perder, plataforma pode ter fim da rolagem infinita, contagem de curtidas e publicações que desaparecem.

Um julgamento que começou na última terça-feira (18) em Oakland, na Califórnia, pode transformar para sempre a forma como bilhões de pessoas, incluindo os brasileiros, usam o Instagram e o Facebook. A Meta, dona das duas plataformas, está sendo processada por um grupo de 29 estados americanos que a acusam de projetar deliberadamente aplicativos viciantes para crianças e adolescentes.

As multas podem chegar a US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão), mas o que realmente chama a atenção são as mudanças estruturais exigidas pelos acusadores: o fim dos Stories, da rolagem infinita, da reprodução automática de vídeos, da contagem de curtidas e dos filtros que alteram a aparência nas fotos.

“Se Mark define algo como prioridade, montanhas se movem em questão de meses”, disse Arturo Béjar, ex-diretor de engenharia da Meta, em depoimento ao tribunal.

A empresa nega as acusações e argumenta que não há comprovação científica de vício nas redes. Além disso afirma que investe constantemente em ferramentas de controle parental e bem-estar do usuário.

O que está em jogo no julgamento

O processo, iniciado em 2023, acusa a Meta de projetar plataformas viciantes que exploram vulnerabilidades psicológicas de jovens; ocultar os riscos que suas próprias pesquisas internas identificaram; violar leis federais ao coletar dados de crianças menores de 13 anos e tratar crianças como produtos, segundo os acusadores.

A juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers conduz o julgamento, que deve durar seis semanas. O júri dará um veredicto consultivo, mas caberá a ela decidir sobre a responsabilidade da Meta e as possíveis sanções.

O que revelam os documentos internos da Meta

O depoimento de Arturo Béjar, ex-diretor de engenharia de segurança da Meta e primeira testemunha do caso, trouxe à tona informações explosivas baseadas em milhões de documentos internos:

  • Pesquisas da própria Meta mostravam que adolescentes tinham “narrativa de viciados” sobre o uso do Instagram;
  • A empresa sabia que milhões de crianças de 11 e 12 anos estavam na plataforma; enquanto a Meta alega ter encontrado apenas cerca de 100 mil;
  • Ferramentas de segurança como o recurso “Faça uma Pausa” foram “projetadas para falhar”, segundo Béjar;
  • A empresa adotava uma abordagem “não pergunte, não conte” em relação a menores de 13 anos;
  • Béjar, que já havia testemunhado no Congresso americano, afirmou que a cultura hierárquica da Meta fazia com que qualquer mudança relevante dependesse diretamente de Mark Zuckerberg.

O que pode mudar por aqui?

Embora a decisão da juíza Rogers tenha validade jurídica apenas nos Estados Unidos, especialistas afirmam que o julgamento pode servir como precedente global e o Brasil deve sentir os efeitos de forma direta.

Se a Meta for condenada e obrigada a alterar suas plataformas nos EUA, é muito provável que as mudanças se estendam ao mundo todo por três motivos principais:

Custo técnico: Manter versões diferentes do Instagram para cada país seria extremamente caro e complexo;
Precedente histórico: A Meta costuma unificar experiências globalmente — como fez ao testar a remoção da contagem de likes;
Pressão regulatória internacional: Uma derrota nos EUA daria munição para reguladores do mundo todo.

O cenário regulatório brasileiro

O julgamento americano chega em um momento em que o Brasil debate ativamente a regulamentação das redes sociais.

ECA Digital: Projeto em discussão no Congresso que pode estabelecer regras específicas para a proteção de crianças e adolescentes online.
PL das Fake News (PL 2630/2020): Em tramitação, pode impor obrigações de transparência algorítmica às plataformas.
Marco Civil da Internet: Pode ser atualizado para incluir novas responsabilidades das redes sociais.

Uma condenação da Meta nos EUA criaria um “efeito dominó regulatório” que aceleraria discussões semelhantes no Brasil.

O “Momento Big Tobacco” das redes sociais

Especialistas estão comparando este julgamento ao processo histórico contra as empresas de cigarro nos anos 1990, quando os estados americanos se uniram para processar a indústria do tabaco por esconder os riscos à saúde.

“Fizemos isso com o acordo do tabaco nos anos 1990. Fizemos isso com as empresas por trás da crise dos opioides. Faremos de novo com a Meta” , disse Russell Coleman, procurador-geral do Kentucky.

Próximos passos

O julgamento segue em Oakland e deve trazer novos desdobramentos nas próximas semanas. Os depoimentos mais aguardados são os de Mark Zuckerberg e Adam Mosseri, chefe do Instagram, que estão na lista de testemunhas.

Enquanto isso, brasileiros que usam o Instagram diariamente, especialmente pais e responsáveis, ficam na expectativa. Se as mudanças forem aprovadas, recursos que fazem parte do cotidiano digital há anos podem desaparecer das telas.

Artigo anteriorFeira de Profissões ocupa Praça do Relógio da USP com estandes das carreiras e atividades interativas