Lembra quando você ia ao restaurante, chegava, sentava e pedia solenemente o cardápio? O garçom entregava um para cada cliente e todos escolhiam tranquilamente seus pratos e bebidas. Era uma delícia? Um dos melhores momentos da refeição. Todos com o menu em mãos, discutindo prazerosamente o que comer. E beber. Pois era uma delícia!
Já não é mais assim. Acabaram com mais esse prazer. Agora, você pede o cardápio e o garçom aponta para um QR code no centro da mesa. Aí começam seus problemas e acaba a sua alegria. Primeiramente, você tem que estar com um celular atualizado, apto e em mãos. Nem todos os comensais estão com seus telefones ou estão dispostos a fazer a tal conexão. Eles querem se divertir, não ter uma aula de tecnologia. Alguns dos aparelhos dos comensais são antigos e não habilitam o aplicativo do QR code. Então, você gentilmente se oferece a facilitar a vida de todos. Uma roubada!
Normalmente, o sinal do celular não pega direito dentro do restaurante. Se você está num estabelecimento que fica dentro de um shopping center, pior ainda. Então, o dublê de cardápio falante – no caso eu – tem que entrar no wi-fi local ou do centro de compras. Mas, para isso, tem que preencher um cadastro. Nome, e-mail, celular, sexo etc., enquanto todos na mesa aguardam impacientemente te olhando com cara de “isso não vai dar certo”. E você lá, todo estressado, fazendo cara de nerd e tentando ser rápido.
Resolvo perguntar ao garçom novamente se ele não tem mesmo um cardápio impresso. O cara não responde, te olha como se você tivesse cometendo um crime e sai pisando duro. Desaparece. Finalmente, eu e o QR Code nos entendemos e o cardápio digital surge na tela do meu celular. Ruim de ler, pior ainda de se navegar pelas opções gastronômicas e etílicas do famigerado menu digital. Ao mesmo tempo, o garçom volta com um tablet/cardápio e te entrega com total desdém, tipo “toma aí seu analfabite!”.
E agora? Uso o celular ou o tablet? Resolvo usar o tablet, que é mais amigável. Só que na mesa estamos em quatro adultos e duas crianças, e todos pedem para eu ler o conteúdo, já que alguns esqueceram os óculos e as crianças estão famintas. A raiva e a fome vão aumentando e a vontade de jogar o tablet para o alto e ir embora, também. E eu lá lendo o cardápio, com cara de poucos amigos, item por item e em voz alta. Um porre antes de começar a beber. Quem foi o gênio que teve essa genial sacada?
Ok, a pandemia obrigou os restaurantes a adotarem medidas para evitar a contaminação, mas nada que um álcool em gel depois de lermos o cardápio impresso não resolveria, pois, no fim das contas, o tablet também pode acabar de mão em mão.
Sem contar que, sem o cardápio impresso, a discussão sobre o que pedir vira um evento. Todos falam ao mesmo tempo e querem ver o aparelho e, no fim, o vírus faz a festa, espalhando-se mais que se tivéssemos o menu tradicional.
Enfim, terceirizaram o abacaxi do cardápio digital para os clientes e eles que se virem. Ou quiseram lacrar, dando uma de moderninhos e esquecendo que nem sempre o público pagante quer tais modernidades, e sim, quer conforto, não dificuldades. Afinal, o cliente sempre tem razão. Tinha. Acho que não tem mais. Qual sua opinião?
Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas
















