Milenna Saraiva escreve sobre a arte de Christo e Jeanne-Claude

Eles formaram uma dupla artística que passou os últimos 57 anos repetidamente redefinindo os parâmetros da instalação e land art, criando um corpo de trabalho que desafia a categorização e não reconhece limites para suas possibilidades. Sobre esses dois artistas, Milenna Saraiva escreve: "é difícil não ver suas obras como uma tentativa de mudar nossa relação com a própria paisagem, nos proporcionando uma forma totalmente nova de ver o mundo".

Eles nasceram no mesmo dia, 15 de junho de 1935 – Christo na Bulgária e Jeanne-Claude no Marrocos, onde seu pai era um militar francês de família aristocrata. Christo Vladimirov Javacheff fugiu do regime comunista e chegou a Paris em 1958. Para ganhar a vida, fazia retratos a óleo da burguesia parisiense, enquanto paralelamente realizava seus trabalhos pessoais. O quadro de uma grande dama da sociedade levou Christo a conhecer sua futura mulher e cúmplice nas artes, Jeanne-Claude Denat de Guillebon. Em 1964, eles se mudaram definitivamente para os Estados Unidos. A partir de 1994, passaram a assinar as obras conjuntamente, como Christo e Jeanne-Claude.

Ficaram principalmente conhecidos por empacotar grandes monumentos.  A ideia do empacotamento começou quando Christo, ainda muito jovem, embrulhou um pote de tinta, envolvendo-o com resina e tela de linho. Depois, passou a embrulhar tudo e qualquer coisa. Sua primeira instalação, “Cortina de Ferro”, foi também um ato político e engajado, em 1962. Com barris de petróleo vazios e retrabalhados, ele fechou uma rua de Paris, de madrugada – uma referência ao Muro de Berlim, que ele viu sendo construído. Depois, interagiu com vastas paisagens americanas, já usando tecidos e cores.

Ela faleceu em 2009, vítima de um aneurisma. Em 2020, o Centro Pompidou de Paris dedicou uma retrospectiva à obra de Christo e Jeanne-Claude.  A abertura estava prevista para março de 2020, mas foi adiada para julho por causa da pandemia. Christo faleceu em maio de 2020, por causas naturais, aos 84 anos, em Nova York, onde trabalhava no projeto do Arco do Triunfo.

VAMOS OBSERVAR
L’ Arc de Triomphe, Wrapped
Paris
1961 – 2021
Christo e Jeanne-Claude

L’Arc de Triomphe, Wrapped é uma instalação artística, póstuma e temporária, que apropria o Arco do Triunfo no coração de Paris. Nesta obra, o monumento, que é um dos cartões postais da Cidade Luz, é envolto em 25.000 metros quadrados de um tecido reciclável de polipropileno azul prateado, o que poderia cobrir cinco campos de futebol, com 3.000 metros de corda vermelha, que é a distância que separa o Arco da pirâmide do museu do Louvre.

Parece que agora encoberto, o Arco do Triunfo, monumento encomendado por Napoleão Bonaparte em 1806 como comemoração da vitória francesa na Batalha de Austerlitz, chama muito mais atenção que antes. Quando chegou a Paris, Christo alugou uma pequena sala perto do local e, desde então, assim como os turistas do mundo todo, sentia-se fascinado por ele. Em 1962, fez uma fotomontagem do Arco envolto em tecido e, apenas após 26 anos, fez uma colagem com sua ideia. Sessenta anos depois, o projeto finalmente se concretizou.

Christo e Jeanne-Claude sempre deixaram claro que gostariam que suas obras continuassem em andamento após suas mortes. O desejo dos artistas foi realizado por sua equipe.  A obra foi inteiramente financiada pela herança deixada por eles, por meio da venda dos estudos preparatórios, desenhos e colagens do projeto, bem como maquetes, trabalhos dos anos 1950 e 1960 e litografias originais sobre outros assuntos. O trabalho não recebeu fundos públicos.

Suas intervenções sempre causaram muita polêmica. Muitos criticaram a ideia de ocultar um monumento histórico. Mas por que embalar coisas ou monumentos como forma de expressão artística? Foi em 1958 que Christo, um jovem refugiado do Leste Europeu, cruzou fronteiras escondido na carroceria de um caminhão e começou a embrulhar objetos. Ele se interessou pelo volume das coisas e falava disso como um processo de “mumificação”, prática que realizava inconscientemente: “Não sei porque embrulhei as coisas”. Na época, foi interpretado como a ação de um nômade, figurativamente fazendo suas malas. Qualquer objeto do dia-a-dia era embrulhado pelo artista como uma preparação  simbólica para uma grande jornada. Esconder o conteúdo pode ser uma forma de, metaforicamente, desmaterializar coisas dentro de uma sociedade materialista e consumista. Poderia ser também uma maneira de protestar contra estes mega monumentos, geralmente construídos por ditadores ou governantes megalomaníacos, que através da guerra, da violência e da morte, fincaram seus nomes nos livros de história.  A verdade é que Christo nunca deu muitas explicações sobre seu trabalho. Uma vez, disse em uma entrevista: “nós fazemos coisas lindas, inacreditavelmente inúteis e totalmente desnecessárias”. Antes de sua morte prematura, Jeanne-Claude era ainda menos reveladora.


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

Artigo anteriorOAB Cotia: Ricardo Monteiro diz que vai batalhar por parcerias para mais agilidade e dinamismo
Próximo artigoAinda dá tempo de se inscrever aos treinamentos on-line em parceria com o Sebrae