O gosto pela arte e expressão corporal se iniciou com a capoeira, aos oito anos de idade, se estendendo para o teatro, a dança, as artes plásticas, o breakdance e a ginástica olímpica. Sua estreia nos picadeiros foi no Grande Circo Popular do Brasil e, a partir daí, Marcos Casuo não parou mais. Com performances que chamaram a atenção do casting do Cirque du Soleil, participou de uma audição e se tornou integrante de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Primeiro, como acrobata da equipe russa e, depois, passou a assinar um personagem com o seu próprio nome: Clown Casuo tornou-se protagonista do espetáculo Alegría e foi aplaudido por reis, rainhas e astros da música e do cinema. Visto por mais de 12 milhões de pessoas pelos 22 países pelos quais passou, o ápice de sua carreira aconteceu em Londres, no Royal Albert Hall, quando foi reconhecido como um dos dez melhores clowns do mundo. Mas Casuo queria mais…
Depois de oito anos, resolveu deixar o Cirque du Soleil, voltar para o Brasil e criar uma forma própria de transmitir a alegria e o aprendizado adquiridos em sua trajetória. Assim nasceu o Universo Casuo. A ideia deu tão certo que, em poucos meses, já estava excursionando por toda a América Latina, com mais de 3 milhões de pessoas impactadas em menos de quatro anos. Em entrevista para a Revista Circuito, Casuo recordou o início de sua carreira, falou sobre o período em que trabalhou na maior empresa de entretenimento do mundo, enumerou as lições que trouxe do picadeiro e como evoluiu e de que forma conquistou um espaço tão importante numa estrutura circense. A dimensão que ganhou em sua carreira não foi à toa nem veio por acaso. Desde sempre, ele apostou na profissionalização, na melhora constante e nunca deixou o otimismo de lado. Pensa em, no futuro, tornar-se psicólogo. É vegano e preza o contato com a natureza. Há mais de um ano, comprou uma casa na Granja Viana, onde se refugia com a esposa, a bailarina Larissa Menezes, a vó Nena, seus seis animais de estimação e, em breve, com seu primeiro filho, Ravi, previsto para nascer no início deste mês. Respeitável público, com vocês o artista que nasceu para alegrar o público…
Malabarista, acrobata, coreógrafo, produtor, ator, palhaço… Casuo, quem é você?
Eu sou um eterno sonhador. Quando estou com o meu personagem, falo que sou uma criança dentro de um corpo adulto. Faz parte de mim e faz parte de quem eu sou. Uma pessoa muito transparente, muito vida. Eu digo que sou a alegria.
Como você foi parar no circo?
Ah, eu tinha uma vida convencional, normal, digamos assim. Pensava em estudar, me formar e ter um trabalho fixo. Fiz um pouquinho de tudo: fui office-boy, auxiliar de cozinha, frentista, mecânico, caricaturista… Eu queria trabalhar, então comecei cedo. Saí de casa dos 15 para 16 anos, meus pais ficaram malucos comigo. Fui para uma cidade do interior de São Paulo, São Carlos, e foi lá onde tudo aconteceu. Eu já fazia capoeira, ginástica olímpica, ballet e breakdance. Foi o mix da dança com a capoeira e a ginástica olímpica que despertou em mim a vontade de ser artista, só que para isso eu precisava de dinheiro para pagar os cursos. Fiz um pouquinho de tudo mesmo, era meio que Bombril, mas me descobriram, mesmo, em um posto de gasolina, por incrível que pareça.
Como assim?
Era adolescente e, no auge da minha vaidade, era um trabalho do qual eu não gostava pela forma como tinha sido treinado para atender e do cheiro de gasolina que ficava impregnado em mim. Trabalhava lá porque precisava pagar minhas contas. Um dia, estava abastecendo e fiz um equilíbrio na bomba de gasolina por brincadeira entre meus amigos, só que o cliente viu e eu comecei a ganhar notoriedade na cidade. As pessoas começaram a ir ao posto porque eu fazia isso – e o dono nunca ficou sabendo. Até que o grupo de artistas de circo formado por Sidney, Michele Ramos, Edilton Lins, Neto Frota e Vicente Frota viu e comentou: “Nossa, como você é bom nisso. Já pensou em trabalhar em circo?” Aí veio o convite para fazer um teste para o Grande Circo Popular do Brasil. O mais engraçado nisso tudo é que, todas as vezes que eu ia me deitar, eu sempre focava isso: mentalizava o que eu queria e rezava para trabalhar em algo que mexesse comigo, me desse prazer, me motivasse e me inspirasse. Mas, sobretudo, que eu pudesse intervir na vida das pessoas levando alegria, e eu tive esse presente.
Quando foi isso?
Não me recordo, ao certo. Acho que era 1997/98…
Por quanto tempo ficou lá?
Com o Marcos Frota, uns nove anos. Foi uma experiência fantástica. Tive a oportunidade de trabalhar no circo tradicional e, ao mesmo tempo, de desenvolver um talento com o qual eu já tinha nascido, só que não sabia: ser palhaço. Fui linkando as coisas: fiz curso de teatro, linkei a dança, linkei as acrobacias, tudo o que pudesse me moldar para interpretar ou fazer um papel bacana dentro de um circo tradicional ou até mesmo em um teatro. Mas o circo é mais envolvente, pois é uma coisa muito mais próxima do público, com luz, maquiagem, figurinos, acrobacias… meu coração acelerava!
E qual era o seu papel dentro do Grande Circo Popular do Brasil?
O garoto Bombril (risos). É que no circo tradicional, até hoje, tem essa coisa do polivalente, por falta de estrutura e de certa organização. Os artistas acabam fazendo vários personagens dentro do espetáculo e também é o pipoqueiro, o que vende algodão-doce, o que monta e desmonta, o que dirige… É um trabalho muito coletivo, porém desgastante. É como se tivesse sido treinado para a tropa de elite. Aprendi um pouco de tudo, de toda expertise para montar o circo, cenário, eletricidade, hidráulica, figurino, maquiagem… Aprendi um pouco de tudo e, principalmente, a verdadeira história do circo. Tudo o que sou hoje agradeço ao circo tradicional e à família circense que me adotou. Eu não nasci no circo e não sou filho de circenses, mas me sinto honrado em ter amigos e ver tudo o que conquistei graças à arte circense.
Você fala em verdadeira história do circo. Qual seria?
Quase tudo o que existe hoje, na arte da dramaturgia, veio do circo. Antigamente, era um circo teatro, como se a primeira parte fosse o espetáculo circense, propriamente dito, e a outra o teatro misturado com um pouquinho do espetáculo. Era muito comum celebridades irem ao circo. Com o passar do tempo, ele perdeu espaço como entretenimento, principalmente por conta da tecnologia. Tudo se revolucionou e o circo brasileiro, como também os internacionais, acabou perdendo um pouco do espaço, talvez por não acompanhar as mudanças e a inovação. O que eu sinto é que a história do circo tem de ser escrita de uma forma completamente diferente, não dá mais para levar um circo tradicional como era antigamente. E o tradicional pode ser um retroinovador e encantador, independentemente da falta de incentivo, de apoio e de patrocínio. O circo precisa criar uma gestão para dar uma qualificação e oportunidades a tantos outros artistas que não são de circo, assim como eu. Veja o exemplo do Cirque Du Soleil: não faz estrelas, e sim busca artistas, transformando o anônimo em uma estrela, oferecendo oportunidade e reconhecimento de trabalho.
Quando você entrou para o Cirque du Soleil?
Foi em 2001, depois de nove anos no Grande Circo Popular do Brasil, viajando por todo o país. Eu queria mais, pois chega certo momento na vida, em qualquer coisa que você faz, que o universo te empurra para crescer. Você é obrigado a crescer, mesmo que seja um pouquinho, e se você não se move, o universo te para. No Grande Circo, já tinha me transformado em produtor, ajudava na coreografia, na direção artística e eu queria mais e não tinha mais onde preencher. Pensei: “Eu vou para outro circo, mas vai ser a mesma coisa”. Então, comecei a pesquisar e cheguei a esse circo canadense que se chamava Cirque du Soleil. Assisti a um take, gostei e comecei a treinar para aquilo. Ia ter uma audição no Rio de Janeiro e saí de Brasília para lá, em um ônibus da Cometa que não tinha nem ar-condicionado. Participei de um teste com mais de 400 artistas e passei.
Como foi quando recebeu essa notícia?
Nossa, foi como quando minha esposa me deu a notícia de que estava grávida… Para o Casuo como artista, e para outros da profissão circense, entrar para o Cirque du Soleil é como um ator entrar para Hollywood. Quando recebi a notícia que eu ia fazer parte da maior empresa de entretenimento do mundo, eu não acreditei. Achei que era pegadinha. Mas era mesmo verdade! Assinei meu contrato e não demorou um mês, depois do teste, e eu estava desembarcando no Canadá, e lá começou uma nova fase da minha vida.
Quando você subiu ao palco pela primeira vez com o Cirque?
Foi no México, no fim de 2001 para o começo de 2002. Fiquei um ano em treinamento antes de pisar no palco. Saí de lá pronto para o que desse e viesse. Eles não me ensinaram, mas me prepararam. Eu fui o único dos brasileiros a fazer parte da equipe russa. Quando as pessoas falam que a coisa tá russa, ninguém tem noção de como é “russo” ficar trabalhando com mais 12 russos (risos). Não falava russo, não falava inglês, não falava francês e meu espanhol era aquele portunhol horrível.
E como você se comunicava?
Aprendi na raça, da mesma forma como aprendi a arte circense no circo tradicional. Foram dois anos de estrada com esses russos e, com eles, aprendi o russo e a cultura. Meu outro parceiro foi um espanhol, com quem aprendi o idioma e a cultura também. O circo é um círculo onde todos trabalham em prol de uma única coisa: surpreender e encantar.
E sua evolução dentro do Cirque du Soleil, como se deu?
Com treinamento, disciplina, destreza e foco. Depois que estreei no México, comecei a viajar mundo afora, mas foi em Nova York que recebi a oportunidade de trocar o meu contrato para ser um dos palhaços do show Alegría. Esse era o meu foco! Parei como acrobata e comecei a criar meus próprios esquetes – e são cinco que estão, até hoje, sendo apresentados no show La Nouba, exclusivo para a Disney. E foi quando tudo começou a se abrir e não tem nenhum segredo. Quando você quer muito uma coisa, o universo conspira, é normal da evolução. Somos nós que colocamos os limites de onde queremos chegar. O segredo é esse: preparar e buscar, com coragem.
Você foi considerado um dos 10 melhores clowns do mundo…
Então, eu também queria saber quem foi que me deu esse título (risos). Tudo indica que foi após uma apresentação no Royal Albert Hall, em Londres. Ah, e de tudo o que já rodei, posso falar com a boca cheia que nada supera aquele palco. Nossa, você olha para a frente e vê a realeza e grandes celebridades, como Madonna, U2, Pavarotti, Michael Jackson sentados prestigiando o espetáculo do qual você está fazendo parte e te aplaudindo. O aplauso, independentemente de quem venha, é como um beijo na alma de qualquer artista. O ser humano precisa de inspiração, e eu me inspirei naqueles grandes artistas que estavam naquele dia no Royal assistindo ao espetáculo. É como se fosse missão cumprida e o que viesse era lucro. Para mim, não tem gratidão suficiente para expressar o quanto foi importante ter me transformado nesse palhaço que viajou o mundo. Fiquei oito anos com o Cirque du Soleil.
E por que largou?
Eu pedi a conta pelo mesmo motivo que aconteceu no Grande Circo Popular do Brasil: eu queria mais. Mas querer mais do que isso? Sim, porque cada cabeça é um mundo e o ser humano cria suas expectativas e seus desejos. Eu saí do Cirque du Soleil para abrir a minha própria companhia, criar meu próprio espetáculo, montar minha própria trupe e trabalhar nesse segmento de entretenimento corporativo e cultural. Com o Universo Casuo, atendo empresas de toda a América Latina, e continuo viajando o mundo inteiro também, porém, com o meu próprio espetáculo. Eu tenho o meu próprio circo! Tudo o que aprendi com o circo tradicional, bem como com o Cirque du Soleil, nesses quase 25 anos de carreira, eu aplico dentro do meu espetáculo. Formo e faço com meus artistas o que o circo fez comigo, moldando e ensinando a trabalhar com essa sinergia coletiva.
Como foi a concepção desse espetáculo?
O Universo Casuo é um lugar onde você pode tudo, dar asas à imaginação, trazer a coisa lúdica para essa coisa material e transformar a arte para que possa tocar as pessoas. Com as minhas viagens, conhecendo novas culturas e desafios, fui escrevendo sobre isso. O espetáculo foi concebido como minha vida pelo mundo, relatando as cores de um mundo que era tão colorido, mas hoje está tão preto e branco. E determinado personagem atravessa esse portal para resgatar as cores e os sonhos para que o mundo volte a ser colorido e alegre. Todo o dinheiro que ganhei no Cirque investi nesse próprio projeto e deu certo. Eu não consegui conceber 100% e precisava de uma verba a mais, até que consegui vender para a Atlas Schindler. Aliás, vendi um espetáculo que não existia. Mas, quando aconteceu, foi sucesso! As pessoas do entretenimento corporativo ficaram encantadas e, quando eu falo do entretenimento corporativo, estou falando de pessoas que já viram de tudo, que não são pessoas leigas e que estão sempre buscando algo mais. Elas querem o quê? Networking, encantar os gestores e os colaboradores e motivá-los. E isso o Universo Casuo gerou. Comecei com uma mochila nas costas e, hoje, são 28 mil toneladas de aparelhagem. E temos vários formatos, com o tema “A arte de encantar”. Abrange muita coisa. Durante todos esses anos, nunca tivemos um patrocínio. Não falo para me gabar; pelo contrário, é gestão. O circo também tem de ser levado como uma empresa séria. Por mais que vocês não acreditem, por trás dessa máscara tem muito trabalho envolvido. A palhaçada aqui é levada muito a sério.
Dá para viver de arte no Brasil?
Muito. Dá, sim. O que precisa é gestão. A mente na lua e os pés no chão. Nossa vida é uma planilha em Excel. Se não tiver dentro do planejamento, não dá. Esperamos 9 meses para nascer, mas andamos muito acelerados. Devemos ir com calma e paciência. Tem gente que fala que a arte não dá dinheiro. Dá, mas é consequência de um trabalho bem-feito. São os pequenos detalhes que fazem do espetáculo um grandioso show. Quando o personagem entra, em três minutos de performance, as pessoas olham e perguntam: saiu do Soleil para fazer isso? Com dez minutos, todos são abduzidos. É muito gratificante. A sensação que tenho é de que estou fazendo o que vim para fazer. Essa coisa do palhaço… Enfim, se você tem amor pelo que faz e gosta do que faz, não tem como dar errado. Você se dedica a isso, compartilha e contamina as pessoas com isso. É uma responsabilidade muito grande entreter as pessoas e, ao mesmo tempo, mostrar a elas que o que nós fazemos tem muita seriedade e muita magia, além de paixão.
Qual a mensagem que o espetáculo passa?
De prosperidade, de cuidado, de superação dos nossos limites e de acreditar. Independentemente das suas crenças, você pode muito mais do que possa imaginar. É preciso canalizar sua energia para prosperar. E tem, também, a sinergia coletiva. Você pode ir sozinho, mas se quiser ir longe terá que ir em grupo. O ser humano criou uma camada de proteção para tudo e se distanciou dessa coisa alegre, bonita e divina. Sabe o que distancia as pessoas da felicidade e da alegria? O dia a dia. As pessoas estão sem equilíbrio. Falta equilíbrio, organização e planejamento pessoal. Ou as pessoas trabalham demais, ou não trabalham nada. Não conseguem reservar tempo para ser feliz também. A vida, a felicidade, o prazer, a espiritualidade e os negócios estão juntos. Quando falo de espiritualidade, não falo de religião. Deus quer a gente feliz, não quer a gente mal. Se você acredita em Deus e Deus é pai, você acha que ele quer o mal para você? Um pai quer um mal para o filho? Não, o mal quem faz é você.
E quais são seus próximos passos?
Um novo show. Rodar meus dois espetáculos que estão em produção. Tenho pretensão de ter um programa, tipo reality show, já tenho até o formato e gente trabalhando nisso. Vou canalizar minha energia e investir nisso. Além disso, meu filho Ravi, o Menino Sol, está chegando.
Você mora na Granja Viana, né?
Sim, no meio do mato. Moro aqui há um ano, junto com minha esposa e minha avó, que me criou. É uma pessoa à qual eu me dedico porque me ensinou muita coisa.
Por que escolheu o bairro?
Ah, a Granja é muito boa… Nós queríamos achar um lugar que pudéssemos nos sentir como se estivéssemos no campo. Fui procurando e encontrei esse achado: uma casa cercada de muito verde. Eu escolhi a Granja, mas ela também me escolheu. Nós nos escolhemos, na verdade. Sou vegano e a região oferece uma possibilidade muito bacana de se autoconhecer. Frequento muito os restaurantes “Ser Afim” e “João do Grão”. Gosto de ir aos parques da região levar meus cachorros para passear. Tenho seis animais, entre gatos e cachorros, em casa. Acho o lugar perfeito. Para onde eu quiser ir tenho as saídas. O problema é que as pessoas canalizam toda sua energia no trânsito da Raposo Tavares e se esquecem de valorizar o lugar maravilhoso em que moram. É um local de muita paz e conectividade com a natureza. Quando não estou nos espetáculos, é aqui que estou. Saio para trabalhar, mas não vejo a hora de voltar. Adoro a natureza e, quando as pessoas me chamam de bicho-grilo, digo que sou um Louva-Deus. Gosto de ficar na minha casa. Não há nada melhor do que fazer o que se gosta e ter tempo para as pessoas e para você.
















