Antimarketing

Marcos Sá escreve que empresas devem tomar cuidado com suas ações. Tiro pode sair pela culatra e criar um “anti” marketing desnecessário.

Já cometi suicídio e tive de matar um tal de Clarindo por duas vezes! Explico melhor. O banco BMG resolveu abordar-me e presenteou-me com um cartão de crédito que me daria um status ultramegablaster de vip dos vips, com isenção eterna de tarifa! Premiado ou vítima? Vítima, sem exagero recebi uma média de 3 (três) ligações por dia durante quase um mês. Baixei no celular um app antispam para bloquear as ligações indesejadas. Não adiantou, eles ligavam a cada dia de um número novo e de nada adiantavam as minhas negativas. Infernizaram-me. Ligavam nas horas mais inapropriadas possíveis! No começo, educadamente recusei, mas as ligações não paravam. Até que um dia atendi a chamada e, triste e solenemente, declarei à atendente que havia falecido. Sim, o infeliz ganhador do maldito cartão de crédito do BMG havia passado desta para melhor. Ainda comentei com voz de choro: Quem sabe ele desfrutará da eterna isenção de tarifas lá na eternidade… Só sei que funcionou, depois do falso “suicídio” eles não mais me ligaram, afinal, cliente morto, cliente posto. Com o Clarindo foi parecido. Não sei por que cargas d’água a operadora VIVO encanou de achar que meu número de celular era do pobre do Clarindo. E tome cobrança! – Alô senhor Clarindo? – Não, neste número não tem nenhum Clarindo. – Senhor Clarindo, temos aqui em aberto uma pendência do senhor no valor de R$ 87,00… Não adiantava dizer que não existia nenhum Clarindo por ali. Até que um dia: Alô, senhor Clarindo? – Minha cara, o senhor Clarindo acaba de falecer, estamos aqui no velório do mesmo, favor ligar mais tarde. – Oh! Desculpe-me. No dia seguinte, a atendente novamente ligou e confirmei. – Pois é, descansou, faleceu, sucumbiu, bateu as botas, se foi e já era o pobre do Clarindo! Também funcionou, pois não mais me ligaram! Ufa que alívio! Só passando desta para melhor para se livrar dessas empresas, quando a elas interessa vender ou cobrar do pobre cliente. Agora, experimente o contrário. Quando o cliente precisa falar no SAC (deveria ser SACO) para reclamar, cobrar a garantia ou pedir alguma explicação. Precisei ligar no SAC da Elgin. Meu aparelho de ar condicionado pifou e estava na garantia. Passei 1h e 27 minutos aguardando no telefone para ser atendido e ouvindo aquelas musiquinhas irritantes e a mais falsa das mensagens, onde uma gravação metálica dizia insistentemente: Aguarde, em breve você será atendido. Sua ligação é muito importante para nós! Só faltava ela cair na risada no fim da mensagem, seria mais verdadeiro, pois se a minha ligação fosse importante, alguém prontamente teria me atendido. Desisti e eles perderam um cliente para sempre. Precisei de um demonstrativo dos pagamentos feitos a uma construtora para a minha, não sei se vou conseguir escrever…, minha…, urg! ª*¨#@!&#*º  decl… ufa! Declaração de Imposto de Renda, pronto falei. Surpresa! Eles não atendem por telefone, somente pelo site. Como? Mas eu tenho de explicar o que preciso e, bem, azar o meu. Como o assunto não interessava para eles, não consegui falar com nenhum ser humano na maldita construtora, que também perdeu mais um cliente. E assim segue, ou você se comunica via site ou você se comunica via site. Não tem alternativa. O número de telefone para contato é propositadamente retirado do site para que ninguém ligue. E não é só nas grandes empresas, até o boteco da esquina esconde o número do telefone, para não ter de dispor de um funcionário para atender, o que é uma burrice. Investem nos telemarketings para te vender o que você não quer comprar e economizam no pós-venda, que é onde se fideliza o cliente. Perder um cliente sai bem mais caro do que conquistar um novo. Abaixo o antimarketing!


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

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