“Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim (…)”. Em 1988, no mesmo ano de promulgação da Constituição Cidadã (auge da transição do autoritarismo para a Democracia), os versos de Cazuza ecoavam no horário nobre da televisão. Gal Costa interpretou a música de abertura da novela Vale Tudo, megassucesso da teledramaturgia brasileira que, assim como a canção acima referida, escancarava um mal histórico que desde sempre atinge o nosso país: a corrupção.
A eclosão de operações de destaque no combate a falcatruas e maracutaias nos mundos político e empresarial (a Lava-Jato e a Satiagraha, por exemplo) transmitem a impressão de que a corrupção é um fenômeno relativamente recente só desvelado graças à atuação implacável da Polícia Federal e do Ministério Público. Entretanto, urge relembrar aos desavisados que a corrupção está arraigada às entranhas de nossa história, desde a gênese do país (quando da chegada dos portugueses à Terra de Vera Cruz) até estampar as manchetes dos principais jornais da atualidade.
Passaram-se os séculos, houve a Independência (1822) e a mudança na forma de governo (substituição da Monarquia pela República em 1889), grupos antagônicos alternaram-se no Poder entre 1995 e 2016 e a corrupção persistiu como uma chaga que macula a imagem da nação perante a comunidade internacional. Não raramente o Brasil destaca-se nas primeiras posições dos rankings elaborados por órgãos e entidades estrangeiras no intuito de aferir os índices de corrupção nos governos dos Estados em todo o globo.
Na década de 1950, o jornalista Carlos Lacerda cunhou o termo “mar de lama” para se referir às suspeitas de corrompimento que pairavam o Governo do Dr. Getúlio Vargas. Se aquele político udenista estivesse vivo, certamente constataria ser a corrupção uma praga que se alastrou pelo país- sobretudo na Administração estatal- modus operandi pelo qual se governa, coopta-se apoio político e fornece financiamentos para projetos ilimitados de poder e de controle dos órgãos do Estado, explicitando um sistema corroído e que se retroalimenta. Ademais, frise-se que o desejo colossal de “levar a melhor” em tudo é atemporal e prescinde de ideologias, longe de constituir prática exclusiva de um só governo ou legenda partidária. Prova disso são os sucessivos escândalos noticiados nas últimas décadas, a citar o petrolão (Governo Dilma), as suspeitas de compra de votos em apoio à emenda da reeleição (FHC- 1997), o Fiat-Elba que derrubou Collor e o emblemático caso do Mensalão do Partido dos Trabalhadores (2005). Mas não paramos por aí: há de se relembrar também as benesses trocadas entre a Ditadura Militar e o empresariado nacional em busca de apoio mútuo, materializados em legitimação do Estado de Exceção e expansão dos interesses econômicos daqueles que defenderam o Regime, hoje sabidamente tão imoral e depravado quanto os governos civis da Nova República (1985 em diante).
Assim senso, a corrupção transformou-se no caminho pelo qual a política é exercida, demonstrativa do quão espúria pode ser a união entre agentes políticos, empreiteiros e empresários que, munidos de ambições desmedidas, celebram tramas e negociatas nas penumbras dos gabinetes com objetivo de saquear os cofres do Erário para encher os seus próprios bolsos- ou malas e cuecas- , gerando consequências gravíssimas à população. À degeneração de nossa democracia em uma Cleptocracia (do grego, “governo de ladrões”) estão associadas muitas das mazelas que recaem sobre os cidadãos, obrigados a aguardarem em intermináveis filas de hospitais sem receber atendimento adequado (verdadeiro ultraje ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, fundamento da República nos termos do artigo 1, inciso III, da Carta Magna), ou de crianças e adolescentes aliciados pelas facilidades do mundo criminoso pela falta de boas oportunidades no ensino público. Enquanto preponderar o ímpeto desenfreado de obter vantagem em tudo- e sobre todos-, a corrupção será um entrave ao progresso do Brasil ou, nas palavras do grande mineiro Carlos Drummond de Andrade, uma verdadeira “pedra no meio do caminho”.
Sobre o autor
Thieser Farias é leitor da CIRCUITO, ex-Aluno do Colégio Militar de Santa Maria e acadêmico de Direito da Universidade Federal de Santa Maria

















