Avanço ou retrocesso?

Marcos Sá fala da segregação dos sexos nas corporações: avanço ou retrocesso?

Nos Estados Unidos, país em que tradicionalmente as mudanças comportamentais ocorrem alguns anos à frente dos países do terceiro mundo, veem as seguintes informações: escritórios de advocacia e alguns outros estabelecimentos comerciais têm 100% do seu quadro de funcionário(a)s composto por mulheres. À primeira vista essa notícia aparenta grande avanço nas conquistas femininas. Enfim, as mulheres obtêm reconhecimento profissional em alto nível e em escala corporativa! Adeus, sexismo? Fim do assédio? Será? Analisando a notícia com mais profundidade e conversando com profissionais da área de advocacia que vivem nos EUA, chega-se a uma triste conclusão. Sabe aquela história de torcida única em partidas de futebol, para evitar briga entre torcedores? Fazendo uma analogia, trata-se da mesma intenção. Explico melhor. Nos EUA, as leis são severas e quando um funcionário de uma empresa comete um deslize ambos pagam a conta. Funcionário e empresa. Só que a multa sobre a empresa é proporcional ao faturamento. Quanto maior a empresa e maior seu faturamento, maior é a multa. A essa altura, você já deve ter matado a charada. Hoje, nos EUA e no mundo, a questão do assédio é uma realidade muito presente e denunciada imediatamente. Têm também a questão da luta feminina por igualdade de salário em funções com as mesmas tarefas. Faço aqui um parêntesis. Nos anos 1990, quando profissionalmente comecei a visitar empresas jornalísticas nos EUA, já havia um clima pesado nas redações. Pairava uma desconfiança mútua entre os sexos quanto a relacionamento entre funcionários na empresa. Os olhares eram comedidos e tensos. Senti esse clima e ouvi de colegas que a sensação era de desconfiança. Naquela época, o tema ainda era tabu, assim como as diferenças salariais entre os sexos. Hoje, felizmente as mulheres ganharam força e as denúncias e punições ocorrem com muito mais frequência e exposição, como sempre deveria ter sido. Há mais transparência também nas questões de igualdade de ganhos entre os sexos. Mas, infelizmente, existem as empresas que não querem correr riscos de possíveis acusações de casos de assédio ou questões ligadas a diferenças salariais entre seus funcionários. E para se proteger de futuros problemas e evitarem multas astronômicas e problemas de reputação, elas já começam a contratar somente funcionários do mesmo sexo. Tal qual uma torcida de time de futebol, no estádio. A torcida única. Sim, já há casos por lá também de empresas de varejo, em que apenas homens são admitidos. Óbvio que o problema não acaba, pois continuará a existir a possibilidade de assédio entre pessoas do mesmo sexo e diferenças salariais também. Mas convenhamos que, estatisticamente, as chances para as empresas diminuem. Seria um retrocesso esse tipo de prática das empresas de segregarem seus funcionários pelo sexo? Ou será um avanço? É como tirar o sofá da sala para resolver o problema do marido ou esposa traído. Mas é uma tendência. Uma triste tendência, pois o amor deveria prevalecer sobre tudo e sobre todos. Sinal dos tempos? Politicamente correto? As empresas deveriam incentivar relacionamentos saudáveis entre suas equipes de funcionários, além de premiarem a meritocracia independentemente do sexo do indivíduo. Quantos casamentos nasceram nos corredores das empresas? Acredito no ser humano e torço para que essa nova tendência de segregação dos sexos nas corporações fique no passado. Afinal, estamos avançando ou retrocedendo?


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

Artigo anteriorLinhas intermunicipais de Embu das Artes têm integração na estação Morumbi do Metrô
Próximo artigoCarapicuíba abre inscrições para cursos gratuitos