
Por muito tempo, quando alguém falava de vinho brasileiro — especialmente no imaginário de consumidores e críticos — vinham à mente a Serra Gaúcha, Bento Gonçalves e o Vale dos Vinhedos. E com razão: foi nessa região que a viticultura nacional germinou sua força, com tradição e vinícolas consolidadas há décadas. Mas algo mudou: o mapa nacional do vinho fino está se redesenhando. Hoje, vinícolas despontam em regiões pouco tradicionais como Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e até mesmo no Planalto Central, com projetos ambiciosos, modernos e com forte apelo ao terroir local. Trata-se de uma verdadeira “explosão” do vinho nacional, que aponta para um futuro de pluralidade, identidade e ousadia.
Algumas iniciativas já merecem ser acompanhadas:
Vale do São Francisco (Nordeste):

Maraví e Garziera
Talvez o caso mais emblemático dessa nova fronteira vitivinícola seja o Vale do São Francisco. Esses projetos enfrentaram desafios enormes relacionados ao calor do sertão. Hoje, a Maraví produz espumantes de grande sucesso e, recentemente, conquistou medalha de ouro no Concurso do Espumante Brasileiro 2025, uma competição realizada às cegas. Já a Garziera lançou sua linha premium intitulada Resiliente, em homenagem à trajetória de seu fundador, Jorge Garziera, e vem recebendo boas críticas.

Minas Gerais: Primeira Estrada e Maria Maria
Minas Gerais passou a figurar no radar após a descoberta, por Murilo de Albuquerque, da técnica da poda invertida, que viabilizou os chamados “vinhos de inverno”. Atualmente, há grandes apostas no terroir da região e diversos projetos de destaque. Primeira Estrada e Maria Maria foram alguns dos pioneiros, mas há muitos outros nomes relevantes no Estado.
Brasília: Vinícola Brasília

O cenário ainda é embrionário, mas apresenta sinais promissores. A região já produz vinhos finos de colheita de inverno, assim como Minas, mas com um terroir único do Cerrado. A Vinícola Brasília foi inaugurada oficialmente em 2024, durante as comemorações dos 64 anos da capital, e já se tornou um importante ponto de enoturismo da região.
Bahia: UVVA
A Vinícola UVVA está localizada em Mucugê, na Chapada Diamantina (Bahia), a cerca de 1.200 metros de altitude. O terroir local combina clima tropical de altitude, noites frias e dias ensolarados, além de solos bem drenados, condições ideais para a maturação lenta e equilibrada das uvas. O resultado são vinhos elegantes, com excelente acidez natural e expressão aromática intensa, evidenciando o potencial da Bahia para a vitivinicultura de qualidade.
A Descentralização da Vitivinicultura
Um indicador que confirma essa efervescência recente é a última edição da ProWine São Paulo 2025, a maior feira de vinhos e destilados das Américas. O evento reuniu impressionantes 220 produtores de vinho nacional, com stands representando regiões que antes raramente apareciam de forma destacada. Minas Gerais, Vale do São Francisco e Santa Catarina, por exemplo, tiveram espaços próprios.

Esse movimento revela duas tendências marcantes: a descentralização da vitivinicultura brasileira, já que o “mapa do vinho fino nacional” não se limita mais ao Sul e Sudeste, e a crescente aceitação do mercado e do consumidor, com produtores apostando na presença de vinhos dessas novas regiões em eventos de porte nacional e internacional, impulsionados pelo aumento do interesse, da curiosidade e da demanda.
Com tecnologia, investimento e paixão, novas regiões começam a revelar um Brasil vitivinícola múltiplo, vibrante e em plena ascensão. O preconceito histórico em relação ao vinho nacional dá lugar ao interesse genuíno e ao consumo crescente de rótulos brasileiros. O futuro aponta para um mosaico de terroirs, em que cada garrafa carrega não apenas uvas, mas identidade, cultura e inovação.
Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas.
Juíza de vinhos Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR e
fundadora da Confraria das Granjeiras.












