Tom Cox estudou artes plásticas na Camberwell, UAL e se formou na Northampton University. Em 2016, fundou a plataforma de artes Focus LDN, que produz e organiza exposições de arte em Londres e em algumas grandes cidades pelo mundo. Em 2018, ficou uma temporada no Brasil e trouxe a Focus LDN para a cidade de São Paulo.

Tom Cox pinta cidades usando formas geométricas simples e cores eletrizantes. Suas pinturas são cuidadosamente construídas e compostas para dar a impressão de um olhar momentâneo – um olhar voyeurista para o espaço público, visto de uma certa distância. Suas paisagens são criadas de forma muito orgânica e fluida. É como se ele tivesse nascido com um pincel na mão. Depois de traçada a base de suas obras no local escolhido para retratar, ele as termina em seu ateliê. Em suas telas, Cox captura a vibração das cidades metropolitanas e o fluxo contínuo de carros e pessoas. Suas obras são belas homenagens à vida urbana.

Cox já teve seu trabalho comparado com o de Edward Hopper e L.S. Lowry. O próprio artista vê seu estilo como uma versão contemporânea do Impressionismo, o mesmo de Van Gogh e Monet.

O artista é fascinado pelo comportamento humano coletivo e a expansão rápida das cidades. Para ele, este movimento e crescimento de populações, combinado com a diversidade de culturas que uma metrópole engloba, é uma fonte infinita de inspiração para suas obras.

 

Vamos observar

Congregation, 2019

Nanquim indiano e tinta a óleo sobre tela

70 x 100 cm

Londres, Inglaterra

 

A obra Congregation (Congregação) foi criada em 2019, com nanquim indiano e tinta a óleo. A tela foi iniciada no local retratado, na frente da entrada de uma das maiores feiras de artes de Londres, a The Other Art Fair, localizada na famosa Brick Lane Road. Tom se inscreveu para participar da feira, mas seu trabalho não foi aceito, por isso decidiu participar do evento de outra maneira: foi até o local e pintou a cena na entrada do evento. Na minha opinião, uma resposta muito criativa e irônica ao mundo da arte.

As feiras de arte no mundo têm se tornado um fenômeno digno de estudo. Em pouco mais de uma década, o número de feiras foi multiplicado quase sete vezes.  Apesar dos números crescentes, o círculo artístico destes eventos sempre é o mesmo. Esta modalidade de negócio vem sendo questionada e é controversa. Muitas das galerias chegam a ter 70% do seu faturamento associado às feiras internacionais. Museus e instituições e seus patronos aproveitam os eventos para fazer aquisições de acervo e receber doações para suas coleções. Os espectadores e amantes da arte têm a chance de ver um panorama muito amplo em uma única visita, que permite encontrar obras modernas e contemporâneas em praticamente toda variedade de suporte. Mas o que isso implica para os artistas? Há uma mudança de paradigma no processo criativo quando se deve levar em consideração o ambiente acelerado e, às vezes, até pouco receptivo das feiras. De acordo com alguns pesquisadores, consciente ou inconscientemente, alguns artistas acabam de fato se impactando por formatos ou por assuntos que se mostrem mais palatáveis em feiras. Na verdade, todos os artistas querem participar delas, mas a maioria não consegue ou paga (e muito) para o fazer. Nesta obra fica clara a intenção do artista de não pintar o que está em sua frente, mas sim o que ele vê. Os personagens criados pelo pintor esperam em uma fila para entrar na feira de arte. O artista vira o observador, pintando-os de longe. Eles, que foram ver arte, acabam virando a arte em si. Tom Cox cria uma inversão de papéis em sua narrativa e aí está a genialidade desta obra.

 


Por Milenna Saraiva
Artista plástica, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles, EUA.
www.milenna.com

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