Arte de João Rossi

João Rossi era um artista completo, cheio de habilidades e paixões, como todos artistas deveriam ser. Sua pluralidade, curiosidade e talento o tiram da categoria do artista autodidata e o colocam na categoria do homem Renascentista.

Ele foi pintor, gravador, ceramista, muralista, escultor e um autodidata. Pesquisou diferentes técnicas e matérias-primas, aplicando-as em suas obras e, assim, criando a expressão polimatérica para descrever sua técnica.

João Rossi nasceu em 1923 em São Paulo e faleceu em seu ateliê, por complicações decorrentes de um câncer, em 2000, aos 77 anos de idade.  Morou e atuou no Paraguai, ajudando a formar o Movimento Modernista local e onde conheceu a sua esposa. Morou também no Uruguai e Brasil, onde teve uma forte atuação política na luta contra a ditadura militar – João e sua esposa chegaram a ser presos pelos militares.

Realizou inúmeras exposições em galerias, bienais e museus pelo Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Colômbia, Venezuela, Holanda, Itália, Cuba, Japão, China, Canadá, México e EUA.  Atualmente, suas obras estão no acervo de diversos museus nacionais e internacionais, como MASP, Pinacoteca do Estado de São Paulo e Museo del Barro no Paraguai.

Ele também se destacou na área da educação como diretor, professor e mentor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Universidade Presbiteriana Mackenzie, entre outras escolas e faculdades de comunicação e artes.

O artista ganhou recentemente uma Associação Cultural em seu nome, que ocupa sua antiga casa e atelier, na Vila Sônia, em São Paulo.  A ideia da associação floresceu do anseio dos herdeiros do artista por resgatar o conteúdo e os significados mais notáveis de sua obra. Seu principal objetivo é inseri-los de maneira criativa e renovadora no curso dos debates que permeiam a sociedade brasileira e sua arte.

 

VAMOS OBSERVAR

Urbânia, 1989

Técnica polimatérica sobre tela

80 x 80 cm

Acervo Associação Cultural João Rossi

 

A obra de João Rossi, apesar de muito diversa e abundante, se divide em dois temas principais:  Ameríndias e Urbanas.  A temática Ameríndia tem origem no começo dos anos 1950, época em que viveu no Uruguai e Paraguai, com base na sua percepção da desigualdade social vivida pelos índios sul-americanos. O ameríndio é intransferível no traço social que João Rossi, ao longo dos anos, conseguiu retratar em suas gravuras. Marginais, prostitutas, vendedores de flores, frutas e crianças mortas aparecem em suas obras de forma consistente.

Em 1953, o artista retornou a São Paulo e, então, começou a concentrar-se na criação das obras do eixo Urbanas.  Suas obras mostram a transformação de lugares icônicos, como a Avenida 9 de Julho. Os prédios foram transformados em linhas e retângulos; os casarões, em pretexto para lidar com a passagem do tempo; as favelas, em estruturas visuais de exploração do espaço; os morros, na discussão de áreas espaciais para a pintura; e as praças, nos locais em que a urbanidade encontra a sua expressão social. Mas o mais interessante é que a junção de todos estes elementos, que fazem de São Paulo um lugar caótico, compõe imagens equilibradas e quase  minimalistas em suas telas.

Rossi foi, em toda a sua longa carreira artística, um pintor da cidade de São Paulo. Soube transmitir a beleza dura dos prédios e das ruas, a sombra dos arranha-céus e o resplendor das grandes vias de locomoção, descobrindo e retratando, através de pinceladas, sua luz especial e sua melancolia contemporânea. Suas habilidades de pesquisador contribuíram sempre para encontrar a técnica adequada e transmitir precisamente todas as características da metrópole. Mas o artista não se prendeu ao óbvio da paisagem urbana e desvendou a alma da cidade através do seu olhar lúdico.

A obra abstrata Urbânia remete a Mondrian e Miró, tanto na composição como na paleta de cores. As aquarelas, gravuras e pinturas dessa época têm em comum as gradações tonais, com base na sobreposição de cores neutras, formas geométricas e grossas pinceladas de tinta a óleo em cores primárias, que lembram os faróis dos carros, semáforos, trânsito e movimento urbano. Somente o essencial coube na tela de 80 por 80 centímetros.

Hoje, há mais de vinte anos de sua morte, o artista vive através do seu grande legado artístico e sua posição na história da arte brasileira continua a ser escrita com o lançamento de um documentário sobre sua vida e duas exposições virtuais, que serão inauguradas em breve: Conhecendo a Associação Cultural João Rossi e Seu Acervo e a exposição Rossi e a Dura Beleza de São Paulo. Em cada uma delas serão expostas 27 e 30 obras, respectivamente.

Serviço – Para saber mais sobre a Associação João Rossi e eventos futuros associados ao artista acesse o website www.joaorossi.com.br.


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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