Arte Observada – Roberto Ferri

Nascido em Taranto, em 1978, é comparado aos maiores nomes da pintura de todos os tempos

A Itália é considerada o berço do Renascimento. O desenvolvimento cultural e intelectual de lá foi favorecido pelo importante crescimento comercial e urbano que ocorreu em várias cidades do Norte da Itália a partir do século XIV. Grandes mercadores italianos passaram a incentivar o desenvolvimento artístico, financiando vários artistas (principalmente pintores e escultores) italianos. Estes ricos comerciantes eram chamados de “mecenas”, e o apoio que davam aos artistas ficou conhecido como mecenato. Nesta época surgiram grandes nomes da pintura e da escultura, que hoje são reconhecidos como mestres. Nomes como o de Michelangelo, Rafael Sanzio, Leonardo da Vinci, Tintoretto, Ticiano, Veronese, entre outros. Há muito tempo não se ouvia dizer de um artista italiano que se comparasse aos mestres renascentistas.

Roberto Ferri, nascido em Taranto, em 1978, é comparado aos maiores nomes da pintura de todos os tempos, pela semelhança de estilos e técnica: Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio. Formado – com Menção Honrosa – na Academia de Belas Artes de Roma, suas obras já estão presentes em muitas e importantes coleções particulares nas maiores cidades do mundo. Influenciado pelo estilo Barroco, suas pinturas apresentam uma absurda perfeição e irrepreensível uso de luz e sombras, uma técnica impecável, além de um realismo estonteante, mesclado com um surrealismo de deixar Salvador Dalí no chinelo. Aliás, o aspecto surreal de sua obra é o elemento que a torna contemporânea. Além disso, o contexto da obra de Ferri quase se opõe ao contexto predominante religioso das obras mais conhecidas de Caravaggio. Carne, nudez, transgressões, mutilações, demônios, anjos caídos, sereias e criaturas híbridas habitam o seu mundo fantástico. A escolha de cores, a composição, a criatividade e a técnica com os pincéis colocam estes assuntos polêmicos em segundo plano. A beleza de sua obra é hipnotizante.

Pietà é um tema muito tradicional no mundo das artes. É representado pela imagem da Virgem Maria segurando o corpo morto de Jesus nos braços, após a sua crucificação.  As Pietàs eram destinadas à contemplação mística dos fiéis, permitindo que o devoto se sentisse presente no momento do abraço sofrido entre Maria e Jesus. As primeiras surgiram no século XIII. Michelangelo consagrou-se com a sua fiel versão em mármore, que se encontra hoje na igreja de São Pedro, no Vaticano. Roberto Ferri fez uma releitura da famosa imagem. Em sua versão, a Virgem Maria não aparenta ser tão virgem assim, deitada nua no chão de mármore com o seu véu branco. Sua expressão facial também não é de sofrimento, mas sim de contemplação, ao segurar em sua mão o coração sangrando de seu filho. Talvez a parte mais intrigante da obra seja a representação do que seria Jesus morto em seus braços, substituído por uma caveira com pernas que se transformaram em galhos secos. Talvez o artista quis nos dar a sua interpretação da história da morte de Jesus. Talvez ele entendeu que as histórias contadas na Bíblia são cheias de metáforas e não relatam exatamente o que aconteceu. Pintando Jesus como uma caveira, o artista coloca o filho de Deus como um simples mortal. A caveira também é um símbolo de igualdade – todos somos iguais depois que morremos.

Como todas as suas obras, esta é cheia de poesia e tem o foco na coexistência do bem e do mal, do sagrado e do profano, em ambos planos do consciente e do inconsciente. Esta obra é quase teatral, com suas luzes e sombras dramáticas. O fundo neutro isola as personagens das distrações do mundo real e as deixa a sós, completamente absorvidas em um vórtex metafísico de seus próprios sentimentos. O artista explica: “Cada uma de minhas obras carrega uma mensagem cheia de símbolos e alegorias, cuja interpretação depende do observador. A mensagem viaja em duas direções opostas, em questão à tensão intelectual e à percepção.”

Em 1846, Charles Baudelaire, poeta francês e um dos percursores do Simbolismo, escreveu: “A grande tradição está perdida”. Ele estava falando sobre a decadência das artes. Para ele a vida moderna não tinha espaço para a idealização dos mestres antigos e ficava cada dia mais difícil para a arte ser majestosa como antes. De uma certa forma ele tinha razão. Vivemos em um mundo onde tudo é transitório e hoje a arte é feita para estas rápidas transições. O artista contemporâneo, em sua busca constante da originalidade, sempre rompendo com o tradicional, acaba reduzindo a arte de se fazer arte a um mero instrumento de expressão. A arte conceitual é predominante no mundo contemporâneo. Arte Conceitual é um movimento artístico que teve o seu auge na Europa e nos Estados Unidos durante a década de 1970. Foi uma espécie de reação ao formalismo da arte, principalmente europeia, da década de 1960. Uma de suas principais características é a valorização do conceito e da ideia da obra, que se tornam mais importantes do que o objeto e a sua representação física. Outra característica é o rompimento com o formalismo artístico. Ou seja, tudo hoje em dia pode ser chamado de arte. A técnica, o estudo, a prática e a beleza do produto final não são mais tão importantes. Roberto Ferri chega bem no auge deste movimento, para trazer de volta esta grande tradição da pintura e salvar a arte contemporânea de sua banalização e decadência.

Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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