Arte Observada – Stephanie Caldeira e Zara Diniz

A performance confunde, não deixa claro onde termina a cena e começa a vida

A performance arte, também conhecida como performance artística, é uma forma de expressão artística que pode incluir várias disciplinas diferentes, como música, poesia, teatro e vídeo. Este tipo de evento pode ser improvisado ou planejado, e pode ter ou não um público. A palavra “performance” foi emprestada do inglês à língua portuguesa recentemente, e pode ser considerada uma forma de estrangeirismo.

Nos movimentos vanguardistas europeus, como futurismo, surrealismo e dadaísmo, podemos encontrar algumas ações de performance bem antigas. No decorrer dos anos, foram surgindo várias palavras que caracterizaram este movimento, como: fluxus, demonstration, body art, happening, entre outros. No entanto, somente após a Segunda Guerra Mundial, os movimentos de performance se tornaram mais frequentes e reconhecidos. A arte performática é, e sempre foi vista, como uma arte libertadora. Tida por muitos como manifestações estranhas, as performances contemporâneas são grandes agentes de provocação, que levam aos mais variados espaços artísticos e públicos um jeito diferente de questionar o contexto da arte. Pinturas, esculturas, músicas ou filmes podem trazer consigo grande carga de expressão e significado, mas na performance a expressão é intrínseca ao artista e ele é parte da obra. Além da intenção de expressar-se, o artista pessoalmente o faz, usando o seu corpo como suporte ou meio de exprimir uma intensa gama de significados.

Jackson Pollock, que teve em 1951 fotos e filmes criados enquanto pintava no chão de seu ateliê, transformou a pintura em um evento de performance. Recentemente, a artista sérvia Marina Abramović voltou o foco do mundo da arte para uma de suas manifestações chamadas “The Artist Is Present”, que também é o nome da exposição retrospectiva sobre a vida da artista no MoMa, em Nova Iorque. Outros grandes nomes do movimento são Yoko Ono, Allan Kaprow, Nam June Paik, Joseph Beuys, George Maciunas, Matthew Barney, e o artista plástico brasileiro, Hélio Oiticica, com os seus Parangolés.

A performance confunde, não deixa claro onde termina a “cena” e começa a “vida”. E isso é um dos principais estímulos ao espectador, que é levado a indagar-se constantemente sobre o tema, a relevância e o significado da manifestação artística.

Volta é um experimento visual sensorial criado pelas jovens artistas Stephanie Caldeira e Zara Diniz, ambas atuantes da cena artística de Toronto, Canadá. O nome da obra remete a Alessandro Volta, o físico e químico italiano, nascido em 1745, que inventou a bateria elétrica e descobriu o metano. Ele também inventou a pilha e provou que a energia pode ser criada quimicamente, não somente por seres vivos. O título da obra faz um paralelo à energia formada a partir da junção destas duas artistas, suas criações e seus processos.

Caldeira é uma artista multidisciplinar criada por pais sul-americanos, e carrega a cultura de suas raízes em tudo que cria. A dança sempre foi o seu meio de expressão mais aprimorado, apesar de cursar pintura digital e animação na OCAD University, em Toronto. Sua pesquisa se concentra na “arte urbana”, e seu foco em reformular as normas convencionais impostas pela sociedade aos setores mais marginalizados da sociedade. Diniz é uma pintora e muralista já reconhecida em Toronto por seu estilo “tropical”. Seu trabalho é fortemente influenciado por viagens que faz. Sua obra brinca com percepção e espaço, através de uma combinação de realismo clássico e expressionismo. Seus traços coloridos nos convidam a viajar também, mas para o nosso próprio mundo interior.

O resultado desta união é um híbrido de dança tribal com street dance e pintura. A pintura é criada sem pincéis, usando o corpo como instrumento. A música rege os corpos e os movimentos criam as formas em uma tela esticada no chão. A sinergia entre as duas é contagiante e prende a atenção dos expectadores, sem esforço algum. O “experimento”, como elas gostam de chamar esta ação, é improvisado e criado a partir de uma ideia geral. A ideia é usar os instintos e o corpo como ferramentas de criação, através do ritual ancestral que é a dança. As duas, vestidas e pintadas como nativas norte-americanas, dançam e pintam ao som de uma música eletrônica que mais parece uma releitura contemporânea de hinos tribais. Enquanto Zara prepara a estrutura da imagem com tinta, Caldeira usa os pés, as mãos e até os cabelos para criar uma imagem que remete muito à íris dos olhos e também ao universo. Mas esta imagem, apesar de lúdica, não é o produto final da obra. O produto final é o processo de criação, que é registrado em vídeo e cuidadosamente editado. Sem usar palavras ou imagem alguma, Volta diz muito sobre o mundo contemporâneo ideal, que muitas pessoas estão começando a enxergar. A busca pelas nossas raízes e o contato com a natureza são elementos-chaves nesta conversa. A inovação nos movimentos e o uso da tecnologia encaixam a obra no contexto da Arte Contemporânea. Volta é uma obra democrática e permite discussões dos mais variados pontos de vistas. É necessário se ter em mente que as artistas pretendem alcançar uma expressão efetiva e fazem uso das técnicas e das ferramentas que entendem como necessárias para comunicar e expor os seus significados, por razões sociais, políticas, dramáticas ou então por singelas celebrações das vivências comuns do ser. As manifestações performáticas não encontram limites estéticos, sociais ou morais. O único limite para uma arte viva é a morte.

Para assistir à performance “Volta”, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=eClxiTw2IWw.


Vamos Observar

“Volta” 2016

Arte performance

Stephanie Caldeira e Zara Diniz

Toronto, Canadá


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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