O que você acha de se reunir com a família e os amigos em um dia para celebrar a união, agradecer pela comida, pela saúde, em torne de uma mesa cheia de comidas especiais, iguais às dos seus antepassados? Provavelmente, você pensou no Natal, data que para nós brasileiros é sinônimo de família reunida e mesa farta com aquelas comidas de infância. Mas nos Estados Unidos esse dia, onde voltar para casa é algo quase obrigatório, é o Dia de Ação de Graças, o chamado “Thanksgiving”, que pode ser traduzido como “Dia de Agradecer”. Em lembrança de quando os índios salvaram os primeiros colonizadores americanos, as famílias recebem os parentes e amigos. É uma festa que marca o final do outono e do tempo das árvores com as folhas coloridas, das maçãs e abóboras.

Em uma família americana é muito comum que os filhos saiam de casa assim que terminam o colegial.  Ir para a faculdade ou decidir entrar no mercado de trabalho após o final dos estudos regulares é como um rito de passagem. A sociedade espera que você seja capaz de se manter psicologicamente e financeiramente depois que acaba o colégio. Assim, é muito comum que os filhos vão viver longe dos pais, mudando de cidade ou indo morar com amigos. Desta forma, muitas famílias resumem a convivência a ligações de fim de semana ou mensagens. É esperado que o filho seja independente e mostre que é capaz de conseguir algo por si. Mas, no Thanksgiving tudo muda. É um feriado oficial nos Estados Unidos, instituído por decreto de Abraham Lincoln em 1863, a ser celebrado no dia 26 de novembro de cada ano.   O clima de união e de família está por toda parte. Os pais esperam todos em casa, mais até do que no Natal. Os amigos que moram longe das suas famílias se unem com as do que são mais próximos, todos em um típico encontro de família – com as bagunças das crianças e a atualização dos mais velhos sobre a vida dos mais novos. As passagens de todos os tipos ficam mais caras nesta época e, ainda assim, todos os voos, ônibus e trens lotam. É a época oficial do ano para agradecer em torno da mesa e junto com os que mais gostamos.

Um menu tradicional traz o peru assado com ervas e recheado, coberto com geleia de cranberries(uma frutinha vermelha que parece groselha e usam para fazer uma geléia levemente adocicada), acompanhado por purê de batatas, bolo de milho ou milho cozido, molho do peru, couve-de-bruxelas, abóbora assada  e de sobremesa tem as tradicionais torta de maçã, de cereja ou de abóbora. Essa última é doce, fazem um purê de abobora e temperam com especiarias. É muito gostoso. No sul do país tem  pessoas que servem caranguejos, os descendentes de italianos servem carnes, há os esquimós do Alaska que fazem esse almoço com carne de baleia. Enfim, o menu original é adaptado aos ingredientes locais. O que vale é cada um colocar no centro da mesa a melhor carne que tiver. Afinal, é dia de agradecer.

Esse menu tenta recriar aquele da primeira reunião de Ação de Graças. Conta a história norte-americana que em 1863, na recém-fundada cidade de Plymouth, ao norte do país, os peregrinos do navio Mayflower estavam acampados e não tinham nada para comer. Fugindo da perseguição religiosa na Inglaterra e da dominação econômica da Holanda, esse grupo de cristãos veio procurar uma terra para morar e ancorou o seu navio ao norte do continente americano, na terra dos índios Wanpanoag. O tempo no lugar era difícil e os peregrinos não sabiam cultivar a terra, nem sabiam quais bichos poderiam caçar para comer. Metade deles morreu de doença ou fome. Foi em março de 1621, quando já não tinham mais alternativas para sobreviver, que Squanto, um indígena da tribo Patuxet mas que vivia com a tribo Wanpanoag, visitou o acampamento e, falando em inglês, ensinou os peregrinos a pescar, cultivar a terra e caçar. Assim, eles não morreram de fome. Aprenderam a caçar e cozinhar o peru – uma ave muito comum na área – cultivaram a terra e, em outubro, fizeram a colheita de milho, abobora, maçãs.

Em agradecimento pela ajuda, que era considerada um milagre, eles chamaram os índios para comemorar. Foram três dias de festas. Os índios trouxeram 3 veados e os peregrinos cozinharam o que haviam colhido e todos celebraram a fartura que a amizade havia trazido para as comunidades. Os índios também haviam perdido populações inteiras antes daquele ano. Mas com a colheita farta, novas amizades surgiam e alianças políticas também. Os peregrinos firmaram um tratado de paz com os índios onde os 2 povos se comprometiam a se proteger e se apoiar. O  tratado foi respeitado por muitos anos. E, no atual estado de Massachussets, na cidade de Plymouth, há uma vila preservada, construída exatamente como a Vila Peregrina, ao lado de uma estátua do chefe Massaoit – o chefe que firmou o acordo, e da pedra branca que registra o local onde os peregrinos desembarcaram.

Então, essa visita do Squanto salvou a vida dos primeiros peregrinos americanos, garantindo uma boa parte da população do país. Por isso, o feriado de Ação de Graças é comemorado todo ano. No século XVIII era mais um feriado religioso, onde todos jejuavam e rezavam e cada estado escolhia o seu dia. Depois, retornou à prática do banquete. E, após o fim da Guerra Civil que dividiu o país o presidente Abraham Lincoln decidiu instituir o feriado nacionalmente, no mesmo dia, como forma de unir o país. Dessa forma, o feriado também lembra as raízes Norte-Americanas, como o país foi fundado. Reforça a união das casas e dos cidadãos, aumentando o sentimento de patriotismo.

Esse é o feriado que marca o fim do outono, das folhas coloridas pela cidade e o início das festividades de Natal. Tem também as paradas de Thanksgiving. Em Nova Iorque a mais famosa é a da Macy’s. É um dia muito esperado por quem gosta de estar com a família. Para os brasileiros que moram nos EUA é como ter dois Natais no ano e este é o primeiro deles. O que vale é o clima de paz, amor e união que todo mundo lembra nesta época. Mesmo que as famílias também tenham aquelas briguinhas, o que vale é estar juntos. Por isso, a história daquele primeiro índio que salvou as famílias é sempre lembrada. Afinal, se não fosse aquele primeiro milagre, os Estados Unidos não seriam como são hoje. Feliz Dia de Ação de Graças!

 

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Mariana Nogueira Machado Simões
Advogada, especialista em Gestão e Tecnologia Ambiental, com atuação em desenvolvimento urbano, brasileira,  amante da natureza, admiradora dos povos e das culturas do mundo.