Falando a verdade


O delicioso prazer de dizer a verdade

 

Estávamos deitados de barriga para cima cercados por peças de roupa do lado avesso. Mesmo tendo sido boa, nem eu nem Vinícius imaginávamos que aquela transa seria apenas a primeira. E, sem preocupações com o dia seguinte, nos entregamos ao delicioso prazer de dizer a verdade sobre quem éramos, o que em pouco tempo se transformou em uma competição adolescente sobre a nossa vida sexual.

Contei da farra com uma amiga de colégio e um barman que nos seduziu com cinco mojitos e antebraços tatuados. Vinícius não pareceu se impressionar. Então, contei que tinha me feito de puta, com vestido colado, peruca loira e perfume barato, e dado pinta na Atlântica até meu ex-namorado passar de carro e me pagar 200 pratas por três horas em um motel de quinta. Vinícius virou-se de bruços, pediu que eu lhe coçasse as costas e disse:

– Já bati punheta para todas as mulheres da minha família.

E quando ele disse “todas as mulheres da minha família”, era isso mesmo o que queria dizer, visto que, a despeito dos meus olhos arregalados, começou a listar as primas de terceiro, segundo e primeiro graus; a falar da cintura da tia Ângela, dos decotes da Tia Sônia e do traseiro da dinda Regina; do frescor das sobrinhas Carol, Fernanda, Maria Eduarda e Tatiane – a das pernas oxigenadas –; além das irmãs mais velhas Viviane e Vaninha, que passeavam de camisola pelos corredores da casa de Madureira, até insinuar que já tinha pensado na própria mãe – só a avó Margareth tinha ficado de fora das suas fantasias. Isso porque a velha passava dos oitenta, tinha cheiro de guardado e precisava de ajuda para se levantar do sofá.

Na hora, fiz pouco da confissão de Vinícius pois não queria ficar em segundo lugar na disputa pelo título de maior libertino presente, mas dois anos, uma cerimônia simples e centenas de transas depois, no aniversário de 85 da Dona Margareth, na hora da sobremesa, olhei para a sala apinhada de mulheres da família e a nossa primeira noite acertou minha cabeça como um vaso que cai da janela.

Da transa não guardo detalhes, melhorou com o treino. O problema era o Vinícius ter se masturbado pensando em todas as mulheres da família, com quem dali a pouco eu recolheria os pratos e arrumaria a cozinha. No caminho para casa, presa pelo cinto de segurança, imaginei Vinícius no banho com cada uma delas – família grande –, até pensar na Melinha, que faz o brigadeirão que ele sempre repete. Assim que chegamos, Vinícius foi direto para o banheiro e ligou o chuveiro. Tentei entrar, mas a porta estava trancada. Saiu com a toalha azul enrolada na cintura, enxugando o que lhe restava de cabelos com a branca. Enfiou o short do pijama e, sem camisa, foi fumar na janela do escritório.

Puxei uma cadeira e um cigarro do maço dele.

– Ficou louca? – perguntou, mas eu estava surda.

– Até com a Melinha?

– O que tem a Tia Melinha?

– Você se masturbou pensando nela?

– Que isso, amor! O que você está falando?

– Eu sei, Vinícius, você me contou que se masturbava pensando em todas as mulheres da família – nessa hora, tossi um pouco, porque não fumo, e Vinícius tomou o cigarro da minha boca.

– Eu disse isso?

– Disse, você disse! Na nossa primeira noite, depois da nossa primeira vez, quando estávamos deitados na cama com nossas roupas espalhadas pelo quarto.

– Você se lembra disso?

– Você esqueceu?

– Todas, menos a Vó Margareth.

Foi mais forte que eu: franzi a testa, fechei os olhos, e senti as lágrimas escorrerem depressa, molhando a gola do meu vestido. Vinícius me abraçou, enxugou minhas bochechas como era de costume e falou que tinha sido coisa de garoto, que ele só tinha trazido à tona para ganhar aquela competição idiota e terminou dizendo que “não há no mundo, nem no da fantasia, mulher como eu”. Depois me fez prometer que nunca mais iria encostar em um cigarro. Dormimos abraçados a noite inteira.

No dia seguinte, quarenta minutos depois da hora, Vinícius chegou em casa com uma sacola parda, estendeu o braço e disse:

– Toma.

Vestido colado, peruca loira e perfume barato.

 

 Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro “Como se não houvesse amanhã” (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com

 

 

Artigo anteriorE agora?
Próximo artigoCarta ao governador