It’s time

Deste lado, com 30 lutas, 24 vitórias e apenas seis derrotas, Demian Maia, que em breve pode conquistar o cinturão na categoria Peso Meio-Médio e falou com exclusividade à Revista Circuito sobre sua trajetória na vida e no octógono.

Enquanto esperávamos um lutador de alto desempenho de MMA (do inglês Mixed Martial Arts ou, em português, Artes Marciais Mistas) para realizar nossa entrevista de capa, imaginávamos encontrar um homem sisudo, com traços de humor mais contido e de poucas palavras.

No entanto Demian Maia chegou ao estúdio para a sessão de fotos e logo notamos que o estereotipo popular não se encaixa com sua personalidade. Nascido no bairro da Bela Vista, em São Paulo, e granjeiro desde 2008,  o lutador da organização americana de artes marciais mistas UFC (do inglês Ultimate Fighting Championship), distribuiu simpatia e bom humor.

Ainda criança teve o primeiro contato com o mundo das lutas. Primeiro com o judô, depois com o karatê e, então, com o kung-fú, que praticou durante sete anos. Mas foi somente aos 19 anos, já visando a carreira de MMA, que o atleta passou a lutar a arte marcial que seria sua grande paixão: o jiu-jitsu.

Demian dedicou-se intensamente ao esporte, chegando a treinar três vezes ao dia. Da faixa branca até a preta foram quatro anos e sete meses de treino, tempo recorde para os padrões da época, no Brasil. Tanta dedicação lhe rendeu cinco títulos mundiais, um pan-americano, dois norte-americanos, um ADCC, um brasileiro e sete paulistas de jiu-jitsu.

Paralelamente à arte suave, Demian Maia foi aos poucos vestindo as luvas de MMA. Sua primeira luta foi em 2001, na Venezuela. Depois foram mais cinco combates, incluindo a impressionante conquista do torneio Super Challenge em que Demian venceu três lutas na mesma noite ao fim de 2006, até que finalmente foi convidado para lutar no evento mais importante de MMA do mundo em 2007, o UFC.

Aos 39 anos, Demian Maia vem de seis vitórias consecutivas no UFC. A última delas foi contra Carlos Condit, em agosto do ano passado, quando finalizou o norte-americano com um mata leão ainda no primeiro round. Terceiro colocado do ranking dos meio-médios, Demian Maia teve o próximo desafio no Ultimate Fighting Championship confirmado. Apesar da expectativa para a disputa de cinturão, o brasileiro enfrentará Jorge Masvidal no UFC 211, no dia 13 de maio, em Dallas.

Revista Circuito: Embalado com seis vitórias seguidas você seria o primeiro da fila para a disputa do cinturão dos meio-médios, após a revanche entre Tyron Woodley, atual campeão, e Stephen Thompson, que foi atração principal do UFC 209, em Las Vegas. No entanto, acabou preterido. Como encarou a notícia da luta com *Jorge Masvidal?

Demian Maia: Tenho recebido muitas perguntas do público e da imprensa tentando entender por que aceitei uma luta tão perigosa, apenas dias antes da disputa do título dos Meio-Médios do UFC. Não é segredo pra ninguém que eu estava esperando pela disputa de cinturão, e pode parecer estranho porque eu mudei de ideia tão perto de provavelmente finalmente ter a minha chance confirmada.

É muito simples. Me pediram pra pegar uma luta, e me foi dito que eu tinha que continuar na ativa pra ter a minha chance. Eu sou um e tenho sido um artista marcial, um competidor, e um lutador por mais de 20 anos. É isso que faço pra viver, e esse é quem eu sou. Eu respeito muito o UFC e o Dana White, já se vão quase 10 anos, e se é isso que eu tenho que fazer, não faz mais nenhum sentido em esperar.

Eu honestamente acredito que já fiz o suficiente pra conseguir uma disputa de título, mas nem tudo na vida é sempre como a gente gostaria e agora isso não importa mais. Todo meu foco está no UFC 211, já que o *Masvidal é um adversário extremamente duro, e nenhum lutador pode fazer planos já pensando no que virá depois de enfrentá-lo. Sendo o esportista que sou, vou lá fazer o meu melhor, competir e me testar novamente. Essa é vida que eu escolhi.


*Jorge Masvidal está na sexta colocação do ranking da divisão até 77kg. O norte-americano vem de três vitórias seguidas, a última em duelo contra Donald Cerrone, por nocaute, em janeiro deste ano.  Demian, por outro lado, não entra em ação desde agosto de 2016, quando finalizou Carlos Condit, no primeiro round.


Você é um dos principais representantes do Jiu-Jitsu no MMA. Como você se sente levando essa arte para os tatames do Brasil e do mundo?

A cada luta que eu venço sinto um alívio gigante e a responsabilidade é maior ainda. Eu sei que eu luto por uma nação, não só no Brasil, mas também a galera do Jiu-Jitsu. Quando vou lá fora, sinto que os amantes do Jiu-Jitsu me apoiam muito. Uma vez ouvi um cara falando que depois da Bossa Nova, o Jiu-Jitsu é um dos aspectos mais importantes da nossa cultura. Tem uma pressão enorme por isso, então fico muito feliz por estar representando a arte suave.

Como funciona a sua luta em relação aos oponentes?

O MMA é diferente do Jiu-Jitsu, o cara se fecha ali e fica parado. No Jiu-Jitsu, você começa a fazer ponto por raspagem, passagem e o cara fica desesperado querendo sair dali. No MMA não, ele sabe que quando acabar o round a luta volta a ficar em pé. Por isso, no MMA eu preciso sempre ser mais incisivo nos meus golpes, tentar pegar um braço, uma perna, as costas e chegar à finalização. A filosofia do Jiu-Jitsu é lutar para frente, finalizar, e eu sigo.

Quando começou a se interessar por artes marciais e em que modalidade iniciou?

Meu primeiro contato com as artes marciais foi aos 5 anos, quando comecei a praticar judô, até uns 7 anos de idade. Não me recordo por que parei, mas aos 12 anos comecei a treinar kung fu. Após isso, nunca mais deixei as artes marciais, praticando jiu-jítsu e o caratê. São 27 anos lutando. Hoje treino o jiu-jítsu, luta olímpica, boxe e muay thai.

Quando mais novo você era brigão?

Não. Quando criança fui um pouco agressivo por causa de problemas familiares, como a separação de meus pais e outras situações que vivi, mas após 12 anos, quando comecei a treinar, nunca mais briguei. Nunca fui adolescente de brigar em balada, ao contrário, separava brigas de amigos.

Conte sobre sua carreira no MMA. Quando começou? Quantas lutas?

Tenho 30 lutas, sendo 24 vitórias e seis derrotas. Minha primeira luta de MMA foi no ano de 2001, e depois voltei a lutar em dezembro de 2005, com uma sequência de lutas até hoje. Mas antes disso já participava de competições de jiu-jítsu, consagrando-me com títulos mundiais, pan-americano, brasileiro e paulista, enfim, conquistei quase todos os títulos na modalidade.

Também nesse caminho, quais os erros que não repetiria?

Não penso muito em erros. O legal da vida é esse “erra e acerta”. Não há como acertar o tempo todo. Mas, se pudesse mudar algo, talvez tivesse migrado do kung fu para o jiu-jítsu um pouco mais cedo. Contudo, todas as minhas decisões tiveram seu valor e tudo foi importante e do jeito que tinha de ser.

Em que categoria compete e em que já competiu?

Minha primeira luta foi na categoria Peso Médio, para lutadores com até 84 quilos, e minhas últimas 11 lutas foram no Peso Meio-Médio, de competidores com até 77 quilos.

Qual a diferença nessa migração de categoria?

Quando participava na categoria Peso-Médio os lutadores eram muito maiores que eu, pois pesavam cerca de 100 quilos, e baixavam para 84 quilos para a pesagem oficial, mas na hora da luta, após se reidratarem, já estavam pesando mais de 90 quilos. Como sempre pesei, no máximo, 90 quilos, eu lutava pesando 87 quilos. Isso configurava, entre mim e meus oponentes, uma diferença muito grande de peso, altura e força física.

Essa perda de peso para se adequar à categoria é uma coisa maluca, não é? Existem relatos de lutadores que perderam mais de 10 quilos em pouquíssimo tempo. Como é isso para você?

Realmente. Lutadores perdem muito peso em pouco tempo, e é normal nessa profissão reduzir 7 quilos na semana da luta, mas grande parte dessa perda é causada pela desidratação, sendo recuperada rapidamente também.

Mas e para o corpo, isso é legal?

É bastante agressivo, acho que não é uma coisa saudável. É algo que tem de ser feito com muito cuidado. Como não existe um protocolo médico único em relação a isso, cada equipe faz de um jeito. O melhor seria perder de forma mais tranquila e conseguir se recuperar sem sentir na luta. Se você não estiver procurando a performance no mais alto nível competitivo do mundo, que é onde eu luto, não é algo que deva ser feito.

Quais os melhores e piores momentos em sua carreira até o momento?

Os piores momentos foram as derrotas e os melhores sempre são as vitórias. Vivemos uma vida que não tem meio-termo. Não existe emoção mais ou menos, é um sentimento muito forte, tanto para a tristeza quanto para a alegria. Todos os meus oponentes foram grandes competidores. Minha última luta contra o Carlos Condit foi uma vitória muito importante, contra um ex-campeão do peso, que venci em cerca de dois minutos de luta de uma forma muito clara. O oposto a isso, sendo a minha luta mais difícil, resultando em derrota, foi contra o Anderson Silva, no ano de 2010, quando ele estava no auge de sua carreira e era considerado o maior lutador do mundo e, por muitos, o melhor lutador de todos os tempos. Consegui lutar os cinco rounds contra ele e perdi por pontos.

Como é a sua rotina de treino?

Tenho dois períodos de treino por dia, sendo um de manhã e outra à noite. Treino jiu-jítsu, luta olímpica, boxe, muay thai e preparação física, com corrida e peso, este último muito mais para me proteger de lesões do que para adquirir força física e potência.

O que mais gosta nos treinos e o que menos gosta?

Gosto de tudo durante os treinos e sou muito feliz com o que faço. Todo dia de academia, para mim, é um aprendizado.

Como é a sua relação com os outros lutadores?

Não tenho problema com nenhum e me dou bem com a grande maioria. Todos se respeitam, pois estamos em um esporte muito duro, difícil e que exige muito sacrifício, que envolve muito desprendimento e coragem para você entrar lá no octógono e colocar sua integridade física em risco. E não é só isso, também provar o seu trabalho diante de milhões de pessoas. Isso é uma coisa que mexe muito, pois terá seu trabalho glorificado ou escarnecido.

O MMA ganhou grande notoriedade no país nos últimos anos. A que você atribui isso?

É um esporte empolgante e imprevisível, qualidades que atraem o público; é um esporte de luta, coisa fácil de entender pelo público leigo, mas principalmente aqui no Brasil. O que deu notoriedade ao MMA foi a recente vinda para a TV aberta, que resultou no grande boom do esporte no país.

Fora o Demian Maia, quem é o melhor lutador da atualidade?

Tem um campeão dominante que pode ser considerado o melhor lutador peso por peso do mundo, que é o Demetrious Johnson, do peso-mosca [57 quilos]. Ele é muito bom tecnicamente e vai para sua décima defesa de cinturão.

As lutas o deixaram rico?

Quando criança nunca imaginei que poderia viver de luta. Posso dizer que tenho uma vida confortável e que tudo o que construí foi por meus méritos, sem ajuda financeira externa, e isso me dá muito orgulho.

Como é a sua relação com os fãs? Aliás, são muitos?

Tenho bastantes fãs, e o interessante é que estou em um nicho do jiu-jítsu brasileiro que tem muitos admiradores. Então não tenho apenas admiradores pela nacionalidade, e sim pela modalidade. Não represento apenas a nação brasileira, mas também a nação de praticantes do jiu-jítsu brasileiro. É legal porque isso não tem raça, cor nem cultura, é uma arte marcial que une a todos.

É legal ser reconhecido na rua?

É muito bom, mas não é o que me move. Superação, aprendizado, divulgação da arte marcial, conhecer pessoas, viajar são maiores motivadores do que a fama, que é um produto secundário.

O que gosta de fazer para relaxar? Tem algum hobby?

Gosto de violão e toco um pouco. Como tenho uma casa que tem muita mata em volta, gosto de mexer com a terra, horta e plantas. Quando mais jovem, pegava onda, e pretendo voltar a fazer isso. Ultimamente, fiquei muito sem tempo, então pretendo frequentar mais a praia.

Tem alguma mania?

Tenho obsessão com os treinos. Não conseguir parar de treinar ou me sentir culpado quando não treino, porque estou deixando de evoluir. O controle do tempo também é outra obsessão minha.

Quando pretende se aposentar e o que tenciona fazer depois?

Acredito que vou lutar mais uns dois ou três anos. Então pretendo fazer muita coisa que já faço, como viajar para dar seminário, frequentar minha academia em São Paulo e estar junto com os afiliados na capital, Brasil e no exterior. Tem outras opções também, como comentarista para a TV. Há inúmeros projetos, mas penso no dia a dia, que hoje é a luta.

O que você aborda em seus seminários?

Normalmente, meus seminários são técnicos, voltados para o jiu-jítsu, mas recentemente realizei uma palestra motivacional. Pretendo entrar nesse nicho e quero praticar isso.

Qual o melhor fato que já aconteceu em sua vida?

Minha família e trabalhar com o que eu gosto para conseguir as coisas com que sempre sonhei, como minha casa, viagens, enfim, conquistar minha independência financeira.

Qual é sua relação com a Granja Viana?

Conheço a Granja desde criança. Na década de 1980, minha mãe nos levava a um lugar chamado Recreio 21, que não existe mais, mas ficava do lado do Rodoanel. Tinha uns pedalinhos e um restaurante. Eu e meu irmão éramos crianças e tínhamos um amigo que morava em Caucaia do Alto, que depois se mudou para o miolo da Granja Viana. Foi meu primeiro contato com a Granja. Após me casar, minha esposa queria morar em casa. Gostávamos muito de natureza e queríamos um ambiente mais rural. E a Granja tem este espírito. Tem bairros na região que até tinham o que procurávamos, como Alphaville, mas eram mais urbanizados, semelhantes ao subúrbio americano. Já a Granja, apesar dos condomínios, tem muito mais as características do Brasil.

Foto: Johnny Duarte/Revista Circuito

Recado para os 17 Anos da Revista Circuito

“Conheci a Revista Circuito quando ela era distribuída em Alphaville. Eu a acompanho porque acho que no Brasil falta um pouco de senso de comunidade e informações sobre fatos que acontecem nos bairros. Por meio da Circuito é possível se integrar, ver as reivindicações e até mesmo participar para as soluções. Informações sobre o trânsito, segurança, lazer, curiosidades, histórias da região são assuntos que agradam a mim acompanhar pela revista.”

Demian Maia


 

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