Ainda criança, Demian Maia teve o primeiro contato com o mundo das lutas. Primeiro com o judô, depois com o karatê e, então, com o kung-fú, que praticou durante sete anos. E aos 19 anos, já visando a carreira de MMA, passou a lutar a arte marcial que seria sua grande paixão: o jiu-jitsu. “É uma arte fundamental para quem ser se desenvolver. É uma meditação em movimento que ajuda a controlar a vaidade e o ego e pratica a resiliência. É a defesa pessoal mais eficiente que já foi criado pelo homem e é um produto nosso, brasileiro”, explicou o lutador em entrevista ao Circuito Almanaque de quinta-feira (15/10), programa exibido pelo Facebook e pelo YouTube.

Sim, o jiu-jitsu é um esporte brasileiro. Tudo começou quando o especialista nas artes marciais do Oriente, o japonês Mitsuyo Maeda, mais conhecido pelo apelido Conde Koma, mudou-se para Belém do Pará. Era adido do cônsul do Japão, mas nunca deixou de ensinar as lutas em que era mestre. Um de seus alunos, Carlos Gracie, tinha um irmão franzino e de saúde frágil, chamado Hélio, que acabou criando uma técnica própria, baseada em alavancas – golpes que usam todo o peso do corpo (o seu e o do adversário). Ele percebeu que o sistema funcionava melhor ainda no chão, onde o peso do corpo atingia sua força máxima. Nessa dupla estratégia – privilegiar as alavancas e levar a luta ao solo – está sua grande contribuição à luta original, possibilitando que um lutador mais fraco vença oponentes pesados. “Funciona de verdade. Não é o mais forte que ganha, mas o mais técnico”, ressalta Demian. Foi isso que deslumbrou fãs de todo o mundo quando Royce Gracie, filho de Hélio, com apenas 77 quilos, derrotou Ken Shamrock, de 95 quilos, no Campeonato Mundial de Vale-Tudo de 1993. A partir daí, o estilo tornou-se cada vez mais popular, apelidado de BJJ (Brazilian Jiu Jitsu).
Demian dedicou-se intensamente ao esporte, chegando a treinar três vezes ao dia. Da faixa branca até a preta foram quatro anos e sete meses de treino, tempo recorde para os padrões da época, no Brasil. Tanta dedicação lhe rendeu cinco títulos mundiais, um pan-americano, dois norte-americanos, um ADCC, um brasileiro e sete paulistas de jiu-jitsu.

Paralelamente à arte suave, Demian foi aos poucos vestindo as luvas de MMA. Sua primeira luta foi em 2001, na Venezuela. Depois foram mais cinco combates, incluindo a impressionante conquista do torneio Super Challenge em que venceu três lutas na mesma noite ao fim de 2006, até que finalmente foi convidado para lutar no evento mais importante de MMA do mundo em 2007, o UFC. Atualmente, é o brasileiro com maior número de vitórias dentro do UFC e é o segundo no mundo, só perdendo para o norte-americano Donald Cerrone.

Com 42 anos e uma carreira vitoriosa dentro do MMA, Demian Maia está muito próximo de encerrar sua carreira no esporte. “Devo fazer mais uma ou duas lutas pela frente”, afirma. A notícia não é novidade e já falamos da sua aposentadoria algumas vezes. Formado em jornalismo, a atleta já tem feito alguns projetos na área. Recentemente, fez o papel de entrevistador na segunda temporada da série “Espírito da Luta”, realizado pelo Combate, UFC e a Academia de Filmes. Foram três episódios que trouxeram uma viagem pela história das artes marciais, criando contrapontos entre luta, arqueologia, arte, dança e videogames.

Durante a entrevista concedida ao jornalista Fabio Sanchez, ele ainda falou sobre os impactos da pandemia no esporte, deu dicas para estilo de vida e alimentação e, claro, citou os medos e a pressão da profissão, além da diferença das lutas marciais para outros esportes. “Você pode ter feito o seu melhor e estar ganhando, mas nos últimos segundos pode perder. Seu adversário encaixa uma finalização, dá um soco no queixo e pronto. Virou a luta: ele ganha e você perde. A tensão é muito grande”, comentou.
Futuro? “A carreira de um atleta profissional acaba. Continuar dando aula, se tiver com saúde, será para sempre”, responde. Por isso, ele está prestes a abrir uma academia na Vila Olímpia. “Se dê a chance ao esporte. Não tem idade. Tem cara na escola com 60 anos e que vai embora, até a faixa preta”, convida.
Assista a entrevista completa:
Relembrando
Em abril de 2017, Demian Maia foi nosso entrevistado de capa. Na ocasião, o lutador falou sobre o importante momento pelo qual passava sua carreira, além de projetos e do cotidiano como pai de família. Representante de peso no universo do jiu-Jítsu e destaque nas competições de MMA, é na Granja Viana que Demian e sua família encontravam a tranquilidade entre a intensa agenda de lutas e treinos diários. “Conheço a Granja desde criança. Na década de 1980, minha mãe nos levava a um lugar chamado Recreio 21, que não existe mais, mas ficava do lado do Rodoanel. Tinha uns pedalinhos e um restaurante. Eu e meu irmão éramos crianças e tínhamos um amigo que morava em Caucaia do Alto, que depois se mudou para o miolo da Granja Viana. Foi meu primeiro contato com a Granja. Após me casar, minha esposa queria morar em casa. Gostávamos muito de natureza e queríamos um ambiente mais rural. E a Granja tem este espírito. Tem bairros na região que até tinham o que procurávamos, como Alphaville, mas eram mais urbanizados, semelhantes ao subúrbio americano. Já a Granja, apesar dos condomínios, tem muito mais as características do Brasil”, declarou na época.
Por Juliana Martins Machado














