Ele surgiu no cenário musical brasileiro na rica década de 1970 como um furacão. Odair José, o cantor da pílula; o terror das empregadas, o Bob Dylan da Central do Brasil. Estas foram algumas das expressões criadas pelos jornalistas da época para tentar definir o então novo fenômeno. Alguns o chamam de divisor de águas para a música brasileira, mas ele prefere ser chamado de misturador. De uma maneira ou outra, Odair José pode ser traduzido também como um dos maiores vendedores de discos do país e um dos mais censurados pela ditadura, perdendo apenas para Chico Buarque. Compositor de melodias simples e letras diretas, ele trouxe o cotidiano do povo para a música brasileira, para os discos, as estações de rádio e televisão.

Um ano atrás, o músico lançou seu 37º álbum, cuja canção que abre o trabalho propunha “hibernar”. Mal sabia ele que, um ano depois, aqueles versos caíram como uma luva e estaríamos todos confinados. Isolado em sua casa na Granja Viana desde março, o cantor e compositor atendeu nosso convite para uma entrevista. Ficar em casa não é o grande problema para ele, um apaixonado pela região que escolheu para morar há quase duas décadas, mas ficar longe do palco, sim.

Em um bate-papo descontraído e mediado pela tecnologia, aquela mesma que ele duvidava presenciar, ele reviveu momentos de sua carreira, falou da amizade com Raul Seixas, opinou sobre o cenário musical brasileiro e, de certa forma, lamentou ter estado tão em sintonia com os acontecimentos atuais.

Aos 72 anos, sendo 50 de carreira, sente-se livre artisticamente e diz que vai até onde o corpo aguentar. Fez uma parceria recente com Arnaldo Antunes para a trilha sonora de Meu Álbum de Amores, filme de Rafael Gomes que tem previsão de estreia para o ano que vem, e já planeja seu próximo trabalho, um disco que traga como tema os seres humanos.

“Vou hibernar por um tempo/Me avise quando a cena mudar/O mundo está de ponta-cabeça/Espera ele aprumar”. Os versos de Hibernar, lançado no ano passado, parecem proféticos, não?
Eu, realmente, naquele momento já vinha olhando para o mundo e vendo que ele estava ficando de ponta-cabeça em todos os sentidos, humanidade, política, a forma como as pessoas estavam conduzindo suas relações umas com as outras. De repente, achei que fosse importante para todos uma hibernação, uma pausa para repensar. Evidentemente, não imaginava que daí a pouco o mundo teria que fazer esse gesto quase que obrigatório por conta de uma pandemia. Acho que ninguém poderia imaginar uma situação dessas, mas da forma que o mundo vinha, me parecia possível que esse momento pudesse chegar. Foi daí que veio a ideia de criar o disco começando com uma canção fazendo convite para hibernar. E na primeira semana de janeiro, depois de um fim de semana no Sesc Bom Retiro, comentei com minha equipe que o projeto do ano, que celebraria os 50 anos da carreira de Odair José, não iria rolar e que estava vindo uma coisa que pararia tudo. As pessoas acharam um absurdo, um delírio, mas infelizmente aconteceu. Parou tudo.

Esta música foi composta no início do projeto que se tornaria o álbum Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio, um trabalho com pegada roqueira. Como você contextualiza esse disco na sua carreira?
Em 1977, fiz O Filho de José e Maria, conhecida como uma ópera rock. Era uma ópera mesmo, escrevi 18 músicas – uma plugada na outra – contando a história de uma pessoa desde o seu nascimento até o seu momento final. Tive muita dificuldade com a censura: oito foram proibidas e o disco só saiu com dez músicas. Mas era uma proposta minha, porque sou um compositor que acha que a gente tem obrigação de sair da zona de conforto e trazer o novo, procurar ser relevante naquilo que escreve. O artista que não se arrisca não faz arte, faz negócios. E eu gosto de arriscar e correr riscos. N’O Filho de José e Maria, fui muito criticado e não consegui dar continuidade ao meu raciocínio. E de uns anos para cá, quando gravei uma produção com meu amigo Zeca Baleiro, o Praça Tiradentes, retornei com esse Odair José de trazer o novo. O novo dentro da minha proposta como artista. Depois, lancei o Dia 16 e Gatos e Ratos, até chegar neste, o de número 38 na minha carreira. Era como uma trilogia, em que um álbum estava caminhando para o outro. Esse disco lembra o de 1977. Lá, eu falava de um personagem. Nesse, falo de um ambiente, a casa das moças. Cada música fala de um acontecimento lá. E essa coisa do rock, sempre gostei de guitarra. Toco desde os meus tempos de Goiânia. Tinha guitarra nos meus álbuns antigos, mas as próprias gravadoras não permitiam que você usasse com liberdade de distorcer. O máximo que passava era algo próximo dos Beatles. No meu primeiro disco, inclusive, em 1970, na CBS, o Raulzito (Raul Seixas) me ajudou a fazer um som de guitarra, porém as gravadoras não compravam muita a ideia. Mas agora, não! Posso fazer minhas guitarras e eu sempre tive esta pegada de rock. Em 50 anos, sempre andei por aí com esse formato. As pessoas até achavam que eu era mais estilo Roberto Carlos. Digo que posso até ser estilo Roberto Carlos, mas aquele da Jovem Guarda e não da orquestra.

No novo disco, você critica a mídia, em Fora da Tela, e o armamento da população civil, em Chumbo Grosso. Fale um pouco sobre essas duas músicas.
Em Fora da Tela, faço um convite e, ao mesmo tempo, uma crítica das pessoas ficarem muito plugadas na telinha do celular. Às vezes, a pessoa no restaurante fica dando mais atenção ao celular do que para quem está ali ao seu lado. As pessoas sabem tudo, mas tudo que está na rede. Isso me incomodou um pouco e eu falei: pô, vou fazer uma música falando disso. Já Chumbo Grosso é um bate-papo de mesa na casa das moças, em que as pessoas falam daquilo que estão ouvindo no rádio. Esse prende e solta. Acho que o país parou ali. Aliás, já vinha parando. Mas de repente, o judiciário virou um palco. Um grande show. E a música fala um pouco disso, desse bangue-bangue, da liberdade. Na verdade, esse disco é um convite a uma desobediência dessa hipocrisia estabelecida.

Em Morrinhos, interior de Goiás, onde nasceu em 1948

Sua composição recente, Morrinhos, relembra sua origem.
É. De repente, eu estava caminhando aqui no condomínio e me veio a ideia fazer uma música em homenagem à minha cidade e falar do momento em que voltei lá. Em 2018, fui convidado para tocar na praça, no centenário da cidade. Foi uma passagem rápida, porém mexeu bastante comigo. Um amigo de infância foi me procurar e me levou para andar pela cidade, pela rua que morei, pela escola que estudei. Revi algumas pessoas. Bem aquele negócio que eu digo na letra: velhos amigos com novas histórias. Não pensei em fazer uma música para Morrinhos (Goiás), mas dois anos depois de ter estado lá, me vi fazendo. Como a cidade ia fazer aniversário e por causa da pandemia não teria festa, quis dar essa canção de presente para cidade. Gravei com meu filho, o multi-instrumentista Junior Freitas (Odair também é pai de Rafael Freitas, que é seu produtor), em casa. Eu me coloquei como um personagem da cidade, o garoto que jogou bola naquelas ruas, que aprendeu música ali, que estudou ali… A canção reflete isso… “Morrinhos, Morrinhos encanta com tantas lembranças, protege o meu lado criança, andando pelos seus quintais” (diz cantando). Virou um hino lá.

Em setembro de 2020, Odair José no Música #EmCasaComSesc com participação do filho Júnior Freitas

Pelo que se vê, você não quis saber de ficar parado durante a quarentena. Compôs e lançou o single. Fez live com o filho. O que mais fez nesse período de, digamos, hibernação para manter o corpo e a cabeça saudáveis?
No 13 de março, pela manhã, estive na academia como fazia sempre, disse para as pessoas que iria dar um tempo e comecei o processo de isolamento. Ainda bem que moro em um lugar privilegiado, que foi uma opção da minha esposa Jane 17 anos atrás, com um espaço verde e uma comunidade tranquila. Continuei minha rotina, só que dentro de casa. Faço exercícios físicos diariamente e dei sequência à minha rotina de execução de instrumentos. Tenho o hábito de tocar praticamente todos os dias, até como um estudo e porque gosto de compor. Tenho um home studio em casa. Não deu para ficar totalmente parado, mas claro incomoda não poder manter a rotina de rua, muito embora eu seja bem caseiro. Incomoda mais minha esposa do que a mim, mas de certa forma mexe comigo também e estou procurando me safar da melhor modo possível.

Odair no palco, no início da carreira

Sente saudade do palco?
Olha, faz falta. Eu tô no palco, desde meus 14 anos. Comecei com 7 anos, quando pedi um violão ao meu pai. Ele me deu um cavaquinho, que tenho até hoje. Desde então, mexo com música. Teve uma época em que toda rua tinha uma banda em Goiânia, para onde me mudei, e eu também tinha a minha. Depois, fui para o Rio de Janeiro e trabalhei na noite. Portanto, estou no palco desde então. Para mim, é essencial como ser humano estar no palco. Além de ser o meu trabalho, é onde existo de verdade. Tenho sentido muita falta e espero que, em breve, possa voltar.

Ator Gabriel Leone entre Arnaldo Antunes e Odair José, autores da trilha sonora original de “Meu Álbum De Amores”, filme musical com direção de Rafael Gomes e produção da Biônica Filmes, em filmagem em São Paulo

Compor também é uma paixão sua, né?
Tenho mania de fazer música. Faço uma média de 15 por ano e, muitas vezes, só. Raramente, faço parcerias. Embora, há pouco tempo, tenha feito uma com Arnaldo Antunes. Meu Álbum de Amores é o nome de um filme e fizemos, juntos, seis músicas da trilha. Foi uma delícia compor com Arnaldo. Ele é um poeta raro e ficou um trabalho bem-feito. Mas enfim, tenho mania de compor. Venho aqui para o meu canto, com meus instrumentos e crio.

Uma coisa é certa, né, Odair: o artista criador não depende de nenhuma grande estrutura para produzir sua obra, e sim de si próprio, e de algumas poucas e acessíveis ferramentas.
Eu me vejo como compositor, como músico, como intérprete, como um cara que tem uma função como ser humano de fazer música, levando mensagem para as pessoas, tentando ser o alerta das pessoas. Não sei se pode chamar isto de talento. Então, independo muito de onde ou de que forma vou estar para fazer o meu negócio, até porque na minha vida inteira compus muitas vezes num quarto de hotel, vendo televisão ou dirigindo. Depois, só pego o instrumento para acertar detalhes. O refrão de Pare de Tomar a Pílula, por exemplo, surgiu enquanto eu dirigia. Eu Vou Tirar Você Deste Lugar, andando na calçada no Rio de Janeiro. Então, não precisa de muita coisa. Quando se fala em ferramentas, hoje em dia nem é preciso ir a um estúdio. Tenho a felicidade de ter meu filho aqui, que me ajuda nesse negócio do gravar. Se a pessoa souber mexer com tecnologia, fizer a música e tiver o dom de tocar o instrumento, não precisa nem ser um musicista de primeira linha ou um virtuoso, basta tocar o necessário e vai fazer um bom trabalho. Realmente, isso facilitou e muito.

Aproveitando esta deixa, a relação com as gravadoras também mudou e, de acordo com suas próprias palavras em alguma de suas entrevistas, ainda bem. Nesse novo cenário, a música independente conseguiu unir forças para enfrentar o monopólio e as grandes gravadoras deixaram de ter controle absoluto sobre a produção de discos, passando a buscar novos campos de atuação. Como você vê esse cenário para a música brasileira?
Olha, a gravadora não é mais fundamental no esquema de fazer a música e chegar até o público ou à mídia. Evidentemente, para todo trabalho, quanto mais estrutura você tiver, melhor. Eu já disse que ainda bem que a gravadora não é mais importante nesse sentido, é porque todos os trabalhos relevantes que fiz, que deram certo, o público gostou e a mídia curtiu, foram quando a gravadora não se meteu. Depois d’O Filho de José e Maria, fui praticamente policiado pelas gravadoras para não pensar. Havia a censura do governo, censura da hipocrisia das pessoas e censura da m** da gravadora. Tinha que gravar sempre aquela mesmice, ficar na zona de conforto e vender o disco que eles precisavam. Então, com a liberdade de fazer sem esse policiamento e sem essa orientação entre aspas, foi uma maravilha. Na verdade, tenho 51 anos de carreira. Em 1969, de modo independente, gravei um compacto simples, eu mesmo fui levá-lo para a rádio e fez sucesso no Rio de Janeiro. Foi graças a esse disco que fui contratado pela CBS, a grande gravadora do momento. Comecei independente. Viva o alternativo! Para a música popular brasileira, isso é bom porque quando você está no alternativo, não tem entre aspas a orientação da mesmice das gravadoras. Porque a gravadora não quer que o artista pense, não quer que ele arrisque. Penso que a música só vai ser boa, quando o compositor não está nesta pressão. O alternativo pode dar à música popular brasileira o fôlego que ela precisa.

Dá para viver de música no Brasil?
Vivo de música desde que me entendo por gente. Nunca fiz outra coisa, a não ser compor música, tocar, viajar, gravar disco, fazer show… então, dá para se viver, sim! Poderia ser melhor? Sim, poderia! O que acontece, às vezes, é que se ganha muito em determinado momento e acha que aquilo vai durar para sempre, mas não dura. Se nós tivéssemos um direito autoral menos politizado, poderíamos ser mais bem remunerados, a música poderia ser mais bem paga e quem faz a música, mais respeitado no sentido da sua obra. Mas dá para viver, sim!

Quando a coleção de vinil deu lugar ao CD, cunhando uma relação fria e indesejada com todos aqueles que apreciavam o long play (LP), a música parecia tomar um rumo obscuro e duvidoso. Mesmo sem todo o encantamento do disco, o CD ganhou espaço e impôs novas práticas de consumo no mercado musical. Mas e agora, onde estão os CDs?
Nossa, me lembro dos compactos. Era uma delícia aquela época! Claro, você ficava na mão da gravadora, porque precisava da fábrica, mas era uma delícia ir para o estúdio e gravar um LP. Todo o processo é maravilhoso. Graças a Deus que vivi isso. Cheguei a vender 1 milhão de cópias em 1973 e ter as 12 faixas tocando nas rádios. Era muito bacana ver os discos nas lojas e nas mãos das pessoas. Quando chegou o CD, em um almoço com Heleno de Oliveira e João Araújo, eles estavam contando da chegada dessa novidade e questionei se aquilo ia dar certo. Não foi igual ao vinil, mas foi legal. E agora, temos um outro tempo. Estamos na rede. Agora é Spotify, o Nas Nuvens… Tenho tentado me adaptar, pois não tem outro jeito. Você faz, joga na rede e torce para que as pessoas gostem. Isso é bom, porque mais uma vez você tira um monte de intermediário.

Para que gravar um disco hoje? O que isso significa?
Lá vem meu lado das antigas, eu sou favorável ao disco. Quando penso em música, penso no conjunto da obra. De 10 a 12 músicas. Penso na capa, em qual vai ser a faixa um, dois ou três. Mas minha produção mesmo diz: vamos lançar uma agora, outra daqui três meses. Fico calado, porque são os novos conceitos e métodos. Mas eu fico sempre aguardando o disco. E para que o disco? Você vende para pessoas que gostam da ideia, dá para os amigos e fica como registro.

Odair José, o cantor da pílula; o terror das empregadas, o Bob Dylan da Central do Brasil. Estas foram algumas das expressões criadas pelos jornalistas da época para tentar definir o fenômeno que surgiu na década de 1970. Mas quem é, realmente, Odair José? Como se define?
É tudo isso. Gosto de ser conhecido como um músico popular. Sempre procurei fazer uma coisa que tenha relevância para as pessoas, e por meio das minhas músicas dar um toque, alertar… sou um cronista do dia a dia, escrevendo de uma forma simples. Sou um instrumentista de acordes simples, de melodia simples. É o que gosto de fazer: música simples com letra simples, mas com conteúdo que, de preferência, tenha relevância. Sou um compositor popular, um cantor popular. Uma pessoa ligada ao povo. Um cantor de rua.

São 50 anos de estrada. Pouca gente conseguiu atingir essa marca. O que você pensa quando olha para trás?
Pois é, cara, 50 anos e parece que foi ontem. Eu, quando olho para trás, sei que muita coisa certa eu fiz e que muita coisa errei. Lamento pelos erros, fico feliz pelos acertos, mas sei que poderia ter feito muito melhor e ainda posso fazer. E é isso que estou tentando: errar menos do que já errei e acertar mais do que já acertei. Olhando para trás, valeu a pena! Não sei até onde vai, mas espero que eu consiga ainda fazer coisas que as pessoas digam: pô, que legal, ele tá compondo bem ainda, o cara tá aí trabalhando. Quero realmente ser um ser humano relevante, através do meu trabalho que é compor músicas para as pessoas.

No seu site, está descrito: “um verdadeiro divisor de águas na música de massa brasileira”. Pode nos explicar, Odair?
Acho bonita a frase e penso que é porque estou aí há muito tempo. Mas não acho que eu seja divisor. Gostaria de ser um misturador de águas e é o que tento fazer: misturar tudo. Canto e escuto de tudo, de Luiz Gonzaga a Beatles. Vou da Bahia à cozinha mineira. Escuto a guitarra do Frejat e o pagode do Zeca Pagodinho.

Como a música chegou até você?
Lá em Morrinhos, quando eu tinha 7 anos, vi um pessoal tocando numa festa, violeiros, sanfoneiros, e eu pedi um violão ao meu pai. Mas a música chegou a mim, principalmente, pelas ondas do rádio. Sou de uma época que o rádio trazia de tudo, de Frank Sinatra a Cauby Peixoto, de Ataulfo Alves a Ben Cross, de Nat King Cole para dupla sertaneja de Goiás, Tonico e Tinoco, e assim vai.

Sendo entrevistado por Pedro Bial, no programa global “Conversa com Bial”

Do que se alimenta seu trabalho? Quais são suas referências e inspirações?
Gosto de fazer música e é o que sei fazer. Como eu já disse, simples mas feita com a intenção de tocar as pessoas. Referências? Todas, do jazz de Herbie Hancock ao baião, de samba ao rock. Gosto de instrumentistas e de músicos que fazem músicas e eles mesmos a interpretam. Ah, gosto dessas três coisas numa pessoa: instrumentista, compositor e cantor. Mas minha referência maior é o povo. Fazer música como se fosse um discurso para as pessoas. Minha inspiração é fazer da minha música porta-voz daquilo que penso para dizer às pessoas.

Odair José no Morning Show, da rádio Jovem Pan

Você foi um dos artistas mais censurados durante o regime militar, só perdeu para o Chico Buarque. Como era escrever música sob a sombra da censura?
Tive contato com a censura, no início de 1972, com a música Eu Vou Tirar Você Desse Lugar. Fui chamado pelo Departamento de Censura, lá no Rio de Janeiro, para me dizerem que, a partir daquele momento, eu estaria sendo observado e que todas minhas letras passariam por aprovação. Justificaram que a palavra “eu vou tirar você deste lugar” era imprópria para aquele momento. Tentei argumentar que não se tratava de política, mas para falar de uma prostituta. Ele respondeu: pior ainda. Então, tive muita dificuldade por conta disso: tinha que mandar as músicas para lá e tinha que ficar aguardando se eles liberavam ou não. Muitas vezes, não liberavam e eu tinha que ficar mexendo, correr lá para saber o que que estava acontecendo. Algumas dava para mexer, outras não. E isso atrapalhava, principalmente na hora de compor. Porque já compunha pensando se seria aprovado ou não, e isso atrapalhava a criação. Foi um pé no saco (risos).

O que o deixa contente ou descontente com o Brasil, tantos anos depois?
Olha, sempre gostei muito do Brasil. E do brasileiro. É um povo alegre, um povo bom. Já rodei este país todo, de ponta a ponta, em uma época que logística de viagem era bem mais complicada. O Brasil tem vários brasileiros: os do Norte, os do Nordeste, os do Sul, os do Sudeste e os do Centro-Oeste. Gosto do brasileiro, o que não gosto é da desigualdade que existe no Brasil e da desinformação que passam para as pessoas para que essa desigualdade continue. Isso realmente me faz sofrer: a hipocrisia da ganância e a desinformação que passam para ficar com o poder. Não adianta uma ponta ter muito e a outra ponta não ter nada. Mas eu gosto do brasileiro, gosto muito do meu país e acredito nele.

Chegou aonde queria, Odair? Do que mais tem orgulho da sua trajetória?
Cheguei muito além do que imaginei. Mas hoje sei que poderia ter ido muito mais longe do que fui. Por alguns erros, parei no meio do caminho. O que me deixa mais feliz na minha trajetória é que fiz muitas vezes o que pude fazer de melhor. Sempre com humildade, mesmo quando eu era o cantor de maior sucesso, e vontade de acertar e aprender.

Você teve uma amizade grande com Raul Seixas e já disse em entrevistas que vocês conversavam muito sobre o modo de se posicionar no mundo da música. Conte um pouco sobre esses encontros.
Cheguei ao Rio de Janeiro em 1967/1968 e comecei a rodar a cidade, tocar em tudo quanto era lugar. Em 1969, quando eu já estava mais enturmado, fui parar na CBS, a gravadora de maior sucesso do Brasil e que detinha praticamente 80%, se não fosse mais, do mercado de disco brasileiro. Estar naquela gravadora já era uma vitória. E eu fui para tentar também abrir minhas portas e lá estava o Raulzito. Fizemos amizade. Ele tinha informações à minha frente, conhecia mais de música do que eu, era muito ligado em música americana e tinha um olhar mais longe do que o meu. Eu gostava muito de conversar com ele. No meu primeiro disco, tem música dele, ele tocou guitarra e violão e me ajudou a fazer o disco, porque o Rossini Pinto (foi produtor musical de Odair José) não gostava muito de ir ao estúdio. Estávamos sempre almoçando juntos em uma restaurante ali próximo ou nos corredores da CBS. Conversávamos muito sobre de que forma se colocar no mercado, porque já existia bossa nova, o samba, o Roberto Carlos com a Jovem Guarda… Raul era muito inteligente e tinha umas colocações muito interessantes. Ele usava o termo iê-iê-iê realista, mais do que eu prefiro fazer crônicas musicais no dia a dia das pessoas. É daí que nasce Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, e dele, Ouro de Tolo. Depois, fomos para Polygram. Sempre cruzava com Raul e batíamos papo, até dois anos antes dele vir a falecer. Foi uma pessoa que respeitei muito.

Com Jane, com quem é casado desde 1984

Você começou a carreira musical ainda na adolescência, quando abandonou o conforto da casa dos pais, em Goiás, para viver no Rio de Janeiro. Do Rio para São Paulo. Como chegou a Cotia?
Nasci em Morrinhos, fui para Goiânia e, depois, para o Rio de Janeiro, onde morei por 20 anos. Nunca imaginei sair do Rio, mas sempre vinha para São Paulo, que é um grande mercado onde os discos mais vendiam e onde aconteciam mais shows. Rio era uma vitrine, mas São Paulo é onde a coisa rolava mesmo. Vim para São Paulo passar uma temporada de trabalho e conheci minha esposa, a Jane. Era 1983 e ela deixou claro desde o início que não tinha intenção de morar no Rio de Janeiro. Eu me apaixonei por ela e pensei: vou ter que virar paulista para casar com a moça. Nos casamos e morávamos nos Jardins, mas a Jane tinha o sonho de morar em casa. Fomos, primeiro, morar em Alphaville. Em 1990, vim para Cotia, a convite do meu amigo Wagner Montes que morava aqui, para cantar na campanha de Ailton Ferreira. Depois, em outra oportunidade, vim para um ensaio do Titãs numa casa aqui na Granja Viana. E o radialista Paulo Barbosa, também meu amigo, morou uma temporada por aqui e fui visitá-lo algumas vezes. Mas como gostávamos de roça, minha mulher acabou me convencendo a irmos morar em Goiânia, justificando que aquilo não iria atrapalhar meu trabalho. Saí do Alphaville 3 e voltei para Goiás. Mas aquilo estava me atrapalhando, pois eu tinha que vir muito para cá. Decidimos voltar a São Paulo, mas ela não queria Alphaville, porque era muito cidade. Escolhemos a Granja e compramos um terreno. Eu me perguntava: será que vai dar certo? Cara, foi a melhor coisa que eu fiz (sorri).

Na varanda de sua casa em Cotia, em foto tirada pelo Cosko

Há quanto tempo mora aqui? E o que curte na região?
Estou morando em Cotia há 17 anos. Comprei o terreno e construí a casa. Antes disso, morei um período de aluguel, em um condomínio próximo. Gosto muito de onde moro, da minha casa, da comunidade. E agora neste momento que estamos vivendo eu não poderia estar em um lugar melhor, por vários motivos. Gosto muito das pessoas e elas me respeitam bastante. Estou próximo, praticamente dentro de São Paulo, mas não estou em São Paulo. Acordo e durmo com passarinho cantando, vários bichos estão por aqui. Moro numa área com muito verde. É uma comunidade que eu recomendo.

Em uma de suas inúmeras entrevistas, já declarou que costumava dizer que não veria duas coisas em vida: tecnologia e piora do ser humano. Mas acho que você errou suas projeções, né?
Já venho dizendo isso há dez anos e percebi que toda vez que eu falava as pessoas não recebiam bem isso, até que parei de falar. Mas realmente, a tecnologia… (para e pensa) eu pensei que não fosse ver, até que a coisa chegou muito rápido. Em 1993/1994, veio o negócio do telefone móvel, depois no mesmo ano a internet. Mas claro que não pegava direito. De repente, o avanço de tal forma e olha onde nós estamos. O mundo está dentro dessa tecnologia e não tem como não reconhecer nisso uma verdade. Estou vivendo isso, mas é algo que pensei que não fosse ver. Por outro lado, fico triste de ver as pessoas. Aqui, perto de casa, tem um templo budista, lugar lindo, aliás (ele se refere ao Templo Zu Lai), e eu pensava que as pessoas fossem fluir por aí. Fossem ser mais leves, mais amigas e mais próximas. Não que elas não sejam próximas umas das outras, mas são próximas de quem tem as mesmas ideias e arredias com quem pensa diferente. Ficam em queda de braço. E isso me entristece. A piora do ser humano a que me refiro é isto: a falta de aceitação ao outro. Eu queria ver o ser humano mais próximo, sem ficar nessa disputa. Parece que é uma partida de futebol sempre em tudo. Se a pessoa não concorda com você, ela é sua inimiga. Nossa, isso está muito ruim e leva ao populismo, à falsa religião… a religiosidade é necessária e só faz bem, mas o falso religioso e a falsa religião, não. O populista na administração pública também não faz bem. Mas vamos acreditar que melhore e espero ver esta melhora.

Você é um otimista em relação ao futuro?
Sim. Evidentemente, como diria o Raul Seixas, um otimista realista. Sou um otimista com relação ao ser humano e ao planeta. Mas veja: se você não cuidar do planeta, não adianta ser só um otimista e ver o povo tacando fogo por aí. As pessoas respeitam um deus que é invisível, mas não respeitam a natureza que é visível. Então, é preciso ser otimista, mas valer por onde.

Sobre o futuro da música, como prevê que será?
Torço para que os compositores façam músicas boas, que não façam só negócios, mas procurem fazer arte. A arte também pode ser negócio, mas vamos fazer de modo que dure. Torço para que o futuro da música tenha relevância e as pessoas percebam que é necessário e que a música não pode ser alienada. Você não pode ficar só na zona de conforto. O compositor não pode deixar de ser um crítico do seu tempo. Ele não pode deixar de ser o reloginho do despertador. Espero que o futuro da música passe essa fase só de fazer negócio e vá para o lado da relevância.

E na sua carreira, aonde pretende chegar ainda? Quais são os projetos futuros?
Eu poderia dizer que não que não tem mais metas, mas eu tenho. Não muito longas, né? O meu futuro é agora! Infelizmente, neste momento, está parado. Mas já estou pensando no projeto de disco, chamado Seres Humanos, e compondo as canções. Talvez eu convide o grupo Azymuth, com quem gravei muito no início, a participar comigo. Tenho outro projeto, o do filme, em que compus as músicas com o Arnaldo Antunes. E quem sabe até não faça mais coisas com ele, dentro desse mesmo projeto? Não sei até onde meu físico vai dar, procuro me cuidar, mas tenho 72 anos e, daqui para frente, pode acontecer qualquer coisa. Enquanto estiver fisicamente bem, vou rodar por aí. Mas o projeto principal agora é que essa pandemia passe, que nós tenhamos a vacina pelo bem da humanidade e que, eu como artista, possa voltar para o palco o mais rápido possível.

 

Por Juliana Martins Machado