Nos últimos anos, cerca de 4 milhões de pessoas saíram da Venezuela em busca de melhores condições. De acordo com dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), divulgados no início do ano, a Colômbia abriga o maior número de refugiados e migrantes da Venezuela, com mais de 1,1 milhão. O Brasil ocupa a sexta posição, com 96 mil venezuelanos que se refugiaram aqui em busca de um caminho para reconstruir suas vidas.

Em setembro de 2018, sete famílias de refugiados venezuelanos vieram iniciar a vida em nossa região e nós pudemos conhecer e contar, em nossas páginas, a história da Família Flores.

A escolha de deixar o seu país de origem não é simples e eles deixam para trás sua terra natal, amigos e familiares. É preciso mergulhar na intimidade para conhecer os desafios desses refugiados. Entender um pouco a situação dos venezuelanos que escolheram o Brasil como sua nova casa depende de um olhar íntimo e generoso. Essa foi a motivação para criação do documentário Recomeços, produzida pela Little Stories e a ONG Cruzando Histórias, que no ano passado fez uma parceria com a Revista Circuito para a execução do projeto Selo Cidadão: Conexão&Emprego.

A obra conta a história emocionante de Richeily, venezuelana refugiada no Brasil que decidiu resgatar o filho e familiares da Venezuela após se estabelecer em São Paulo. Ela é uma das refugiadas amparadas pelo projeto Conexão Venezuela desenvolvido pela Cruzando Histórias. “Em 2018, tive o privilégio de conhecer Richeily Andreita, uma venezuelana que veio para o Brasil em busca de um recomeço para sua família. Nossas histórias se cruzaram, e durante um ano vivemos uma grande história de colaboração, que se tornou amizade”, lembra Bia Diniz.

Com a família da Richeily, em Boa Vista, em outubro de 2019

A iniciativa chamou atenção do documentarista Saulo Ribas, da Little Stories, que resolveu documentar esta história de maneira humanizada, mostrando os personagens dessa história como indivíduos. As lentes registram o laço de amizade que se forma entre Richeily e Bia, a saudade que ela tem da família e a tristeza de não tê-los por perto. “Ela nos deu acesso aos seus momentos de maior alegria e de maior fragilidade. Acompanhamos seu primeiro emprego no Brasil, seus momentos difíceis, seus medos”, relembra o diretor Saulo Ribas.

Foram dois anos de campanha, vaquinha, muito trabalho e filmagens. O Ristorante Don Camillo (foto ao lado) foi um dos apoiadores, inclusive, na venda das camisetas para compra de passagens para buscar as famílias.

Lançado no final do ano passado, a obra já foi exibida em festivais de cinema no Brasil e exterior, além de participar de mostras e eventos voltados para o debate em torno da questão dos refugiados. Chegou a ser selecionado para Changing Face International Film Festival e TMFF – The Monthly Film Festival, além de vencedor do Madras Independent Film Festival. “É um filme emocionante e verdadeiro. Levanta a realidade dos refugiados mas também acende o sentimento de esperança em todos nós”, revela Thaís Diniz, fundadora da Little Stories. Para Bia Diniz, “é uma lição de humanidade, inclusão e respeito à diversidade”.

Lançamento do documentário em dezembro de 2019, no Google Campus

A produtora Little Stories e a Ong Cruzando Histórias programaram para este ano uma jornada de exibições do documentário Recomeços. O filme tem como foco percorrer eventos com a temática de direitos humanos, como a Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, e o Festival de Cine y Derechos Humanos Donostia em San Sebatian. Em comemoração ao Dia Mundial do Refugiado, comemorado em 20 de junho, será promovido um cinedebate online, com exibição no YouTube e roda de conversa no Zoom.

Por Juliana Martins Machado, com informações da Little Stories e Cruzando Histórias