Douglas e seu marido, o irlandês Steve Holland, durante a cerimônia de casamento

Numa cidadezinha a 3 horas de Dublin mora Douglas Oliveira Holland. Este jornalista de 30 anos escolheu a Irlanda para um intercâmbio. A princípio, ficaria apenas 6 meses, tempo suficiente para aprimorar seu inglês. “Mas me apaixonei por esse lugar e acabei ficando”, conta. De 2014 a 2017, morou na capital. Foi lá onde conheceu Steve Holland, seu marido. Hoje, eles moram em Letterkenny, província de Donegal.

Por lá, antes da pandemia começar, ele costumava ir à praia todos os domingos, pela manhã. “Só para tirar foto”, faz questão de frisar. “Porque mesmo com sol, ainda é muito frio”, justifica.

Outra tradição seguida pelo brasileiro era “comer Irish breakfast em um café na minha rua, chamado The Kitchen”. O café da manhã irlandês é, digamos, uma super refeição, que vai muito além do tradicional pão na chapa brasileiro acompanhado de café com leite. O prato contém fatias de pão, bacon, salsichas fritas ou grelhadas, ovos, morcela preta e branca, feijão com molho de tomate, batata e cogumelos. Alguns itens podem variar um pouquinho de lugar para lugar, mas de uma forma geral, é tudo isso mesmo! Para beber, chá ou café.

Toda a sua rotina, aliás de todos que moram na Irlanda, mudou em março. No dia 2, três dias depois que o primeiro caso de coronavírus foi detectado no país, a Google, que tem sua base de operações na Europa em Dublin, pediu aos seus 8 mil funcionários que começassem a trabalhar de casa.

Em 9 de março, com 24 casos confirmados, o governo decidiu cancelar as tradicionais festas do St. Patrick’s Day, principal feriado do país. Em circunstâncias normais, as ruas ficarim abarrotadas de pessoas vestindo verde e branco, carregando balões com as cores da bandeira nacional (verde, branco e laranja), carregando folhas de trevos e se divertindo.

E assim, dia a dia, novas medidas foram sendo tomadas. Todas as escolas, universidades e centros culturais fecharam as portas a partir de 13 de março. E no dia 27, a Irlanda anunciou o confinamento de sua população, a partir da meia-noite. “Todos devem ficar em casa, quaisquer que sejam as circunstâncias”, recomendou o primeiro-ministro, Leo Varadkar.

Douglas descreve o cenário da cidade: “cafés e restaurantes quase todos fechados, até o McDonald’s fechou. Poucos são os restaurantes que ainda estão abertos para delivery. Mercados controlando os clientes, dando luvas na entrada, depois de usar álcool em gel. Eles também contrataram mais funcionários para que desinfetem as prateleiras, carrinhos, etc. Alguns estão abrindo mais cedo para atender os idosos com prioridade”.

Durante o fim de semana da Páscoa, por exemplo, a garda – polícia irlandesa – fez uma ronda ostensiva nas ruas, “controlando quem estava fora, perguntando onde estava indo e o motivo”, relembra o brasileiro.

Quem ainda está trabalhando, conta ele, precisa de uma carta provando que tem motivo para estar fora de casa. “Viagens essenciais, como ir ao supermercado, ou fazer exercícios são permitidos, mas apenas se a distância for até dois quilômetros de casa”, explica. A polícia tem direito de multar quem não está respeitando as regras.

O confinamento que, a princípio, ia até 12 de abril ainda está em curso. Seguirá até 18 de maio. Depois disso, o começa o calendário de reabertura do país. A reabertura de bares, boates e a realização de eventos como festivais e até casamentos faz parte da penúltima fase (5ª) do plano de reabertura do país, prevista para o dia 10 de agosto. O primeiro-ministro, Leo Varadkar, afirmou que as medidas podem ser repensadas caso haja mudanças no número de casos por covid-19.

A cidade de Letterkenny, vista do alto

Durante a primeira semana de confinamento, Douglas se permitiu descansar. E depois, escreveu uma lista do que fazer e está “tentando cumprir as atividades”. “Limpar e pintar a casa ajuda muito. ‘Tentar’ fazer exercícios também”, diz.

Por não estar funcionando normalmente, a padaria onde trabalha dispensou alguns funcionários. Douglas estava na lista. “O governo está auxiliando quem perdeu o emprego por conta da crise, e incentiva as empresas a admitirem os funcionários novamente, quando tudo voltar ao normal”, comenta.

Para ele, o mais importante a se pensar agora é a saúde, não importa de onde você seja, onde esteja ou quem você seja. “Em uma pandemia, não há rico, pobre ou estrangeiro”, afirma. Em resumo, somos todos iguais.

Douglas aposta que este período será de grande aprendizado. “Estivemos perdendo muito tempo com pequenas coisas e deixamos de privilegiar a saúde, no mundo inteiro. Depois que tudo isso passar, vamos ter aprendido mais do que anos em uma sala de aula”, finaliza.

Por Juliana Martins Machado

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