
No final de julho, o professor de computação Straus Michalsky, que mora em Poços de Caldas (MG), passou duas semanas de férias na casa de sua amiga Adriana Raguza Engelberg, no Residencial Vila Verde, na divisa de Itapevi com Cotia.
Adriana, a mãe das aves, que já foi tema de reportam da Revista Circuito em maio, cria mais de 20 aves legalizadas em sua residência e transformou seu lar em um enorme viveiro, todo telado. Ela recebeu o amigo com mais quatro hóspedes, suas quatro araras – Manu, Gilberto, Dolores e Tadeu – e pode conhecer e praticar de perto o voo livre de aves de estimação.

Sim, seu amigo mineiro solta suas aves todos os dias para voar livres. Elas dão umas voltinhas pelos arredores e voltam! Foram educadas para voar e voltar. No Residencial Vila Verde, que tem grande parte de sua área verde preservada por ser uma APA – Área de Preservação Ambiental, elas fizeram lindos voos e encantaram os moradores que já estão acostumados a ver tucanos, pica-paus, bem-te-vis e muitas outras aves silvestres voando livres por seus quintais, mas, araras, foi um espetáculo à parte!
Straus conta que desde criança sempre gostou muito de bichos. Teve até uma maritaca de estimação, que resgatou, porque a encontrou caída do ninho e cuidou dela. “Ela ficou boa e cresceu livre em casa. Ela saia de casa, voava e voltava sempre para casa de noite”, lembra. Já adulto, Straus descobriu que era possível comprar araras legalizadas, nascidas em cativeiro, e ensiná-las a voar livremente. Então, fez um curso de treinamento de voo livre para aves com o americano Chris Biro e adotou essa prática pra nunca mais largar. Hoje, suas férias são sempre assim: ele só viaja para onde puder levá-las.
E olha que elas já viajaram! Além de vir voar na nossa região, já foram para Bonito (MS), onde voaram com araras selvagens; para Porto Alegre (RS), Gramado e Canela (RS), Torres (RS), Praia do Rosa (SC), Ilha Bela (SP), São Paulo (SP) no parque do Ibirapuera; nos canyons do Capitólio (MG), Carrancas (MG), São Thomé das Letras (MG), Bueno Brandão (MG) e Belo Horizonte (MG). Também foram para Teresópolis (RJ) e para a Capital carioca, onde o tutor e suas quatro aves de estimação viveram a experiência de voar juntos! Ele de paraglider, claro.
“Elas voaram ao meu lado em dois voos, um no Rio de Janeiro e outro no Interior de São Paulo”, conta. “No primeiro, no Rio, se assustaram quando eu me aproximei do mar e voltaram para a pedra de onde eu tinha saltado”, lembra. Mas no segundo, voaram comigo até o pouso”, completa. Essa e outras aventuras estão no Instagram, onde Straus posta fotos de suas viagens com as araras e seus voos livres.
Sua primeira arara, a Manu, foi comprada em março de 2016 e, em julho, já estava voando livre. Segundo Straus, treinar uma ave para voar é um procedimento de muita dedicação entre tutor e ave. O próprio tutor é quem tem que treinar a sua ave, pois ela cria uma confiança de pai para filho. “Na natureza seriam os pais que ensinariam a ararinha a voar, como tutor você faz o papel do pai da arara e ela vê você como parte do bando dela”, explica. “As pessoas acham que as aves nascem sabendo voar, mas na verdade elas são treinadas pelos pais”, conta. “É por isso que elas voltam, porque veem você como parte da família dela e elas querem estar perto de você”, explica.
Straus conta que hoje seu hobby é fazer isso e encontrar pessoas que também praticam voo livre com suas aves, trocar experiências e incentivar amigos, como a Adriana, a começar a praticar também. “Quando você convive com as aves, você começa a perceber o quanto elas são inteligentes e se encanta cada vez mais”, ressalta. “Elas respondem pra gente. Eu dou comandos como pedir pra levantar a asa, que elas atendem prontamente, também reconhecem cores, mandam beijos, dão tchau, falam seus nomes, avisam até quando estão com fome”, conta.
Segundo ele, as araras têm um longevidade muito grande e exigem muita dedicação e compromisso por parte dos tutores. “Sua alimentação tem de ser bem variada, fazem check up veterinário anualmente, pedem bastante atenção do tutor, precisam muito dele por perto”, explica. “Hoje eu organizo a minha vida em função delas”, completa.

Ele também ressalta que é importante que os aspirantes a tutores de voo livre entendam muito bem os riscos e a técnica de voo livre antes de soltar a ave. “Se a ave não for bem treinada, é bem provável que o tutor perca o animal”, diz. “Não porque a ave vai fugir de você, mas porque se ela não estiver bem treinada, ela vai voar pra frente e se perder sem saber voltar”, explica. “A gente sempre escuta as pessoas dizerem que as aves fugiram da gaiola, mas na verdade, elas não fogem, se perdem”, conta. “A tendência delas é voltar para onde têm cuidados, alimento e atenção do tutor, mas se não estiverem treinadas, elas não voltam porque não sabem voltar”, afirma.
A técnica de Chris Biro
O voo livre consiste em desenvolver as habilidades de voo na ave para que ela consiga voar e se localizar e conseguir estar junto ao tutor.
São cinco níveis de desafio:
No nível um – iniciante – o tutor solta a ave em um lugar plano, aberto, sem árvores, sem desnível, o mais aberto possível. A ave começa a desenvolver as habilidades de voo e não precisa se preocupar com altura, ventos, com nenhum obstáculo por perto. E o tutor também consegue enxerga-la se ela se assustar e sair voando reto.
No nivel dois – o tutor a leva para um local aberto, mas já começa a ter desníveis no solo, então a ave vai ter de aprender a navegar com esses desníveis. Além de se preocupar em localizar o tutor, ela vai começar a prestar mais atenção na altitude.
No nível três – o tutor a escolhe espaços com mais desníveis e obstáculos, é quando ela vai começar a não enxergar o tutor em alguns momentos, mas ela vai aprender a navegar para voltar para ele.
No nivel quatro – os desníveis são bem maiores e os obstáculos são bem grandes. Então ela vai ter de usar as habilidades que ela já desenvolveu nos outros níveis pra conseguir voar, navegar e encontrar o tutor.
No nivel cinco – já é um local cheio de árvores e desníveis, uma reserva florestal, por exemplo, onde a ave terá de voltar para o tutor por conta própria porque se ela se embrenhar na mata e não voltar, será muito difícil o tutor encontrá-la.
Segundo Straus, treinar a ave enquanto ainda é filhote é bem mais fácil porque o cérebro dela ainda está em desenvolvimento e o que ela iria aprender com os pais ela acaba aprendendo com o tutor. “Mas a gente consegue fazer isso com aves um pouco mais velhas também”, conta.
Mais sobre voo livre com aves:
www.libertywings.com (em inglês – site de Chris Biro)
www.avoa.love (Site de Silvia Corbucci que ministra cursos no Brasil, com técnica de Chris Biro)
Por Mônica Krausz













