Tim-tim! Vinho orgânico, biodinâmico, natural?

Se beber, não destrua a natureza. Vinho Sustentável para uma vida ecologicamente correta.

Você, com certeza, já ouviu falar ou consumiu algum tipo de produto orgânico, não só para priorizar a qualidade de sua alimentação, sem agrotóxicos e outros produtos maléficos à saúde, mas também por questões ambientais, uma vez que esses produtos são cultivados de modo que não agridem a natureza. E cada vez mais ganham o mercado e se tornam populares nas gôndolas de supermercados ou lojas de produtos naturais de todo o país. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, atualmente são 17.075 registros de entidades produtoras de orgânicos no país, das quais cerca de 70% dos produtores são de agricultura familiar.

Mas e vinho orgânico, você já ouviu falar? Já experimentou? Ele também vem se tornando uma tendência no mercado e atrai produtores de todo o mundo, inclusive no Brasil. E desde 2013 são expostos em uma feira especializada, a Natureba, da qual participam produtores de vinhos artesanais, naturais, orgânicos e biodinâmicos de diversas partes do mundo. A feira também reúne produtores artesanais ligados à alimentação e sustentabilidade.

Mas antes de falarmos da feira, é preciso entender o que é um vinho orgânico. E quem nos explica um pouco mais sobre isso é o casal Lis Cereja e Ramatis Russo, proprietários da Enoteca Saint VinSaint, uma espécie de bar, restaurante 100% orgânico e sustentável com loja de vinhos (orgânicos, claro) e idealizadores da Natureba.

Apesar de ter como matéria-prima principal a uva, nem todo vinho é natural, muitas vezes nem mesmo aquele que você ou seu avô italiano ou português produz exclusivamente para a família com a uva plantada no quintal. Existem algumas diferenças, seja no vinhedo, seja na adega. “Vale lembrar que hoje existem mais de 400 produtos enológicos permitidos na produção do vinho, então, na verdade, não estamos falando só de uva”, diz Ramatis Russo, que explica alguns pontos importantes no processo de produção dos vinhos que podem ser orgânicos, biodinâmicos ou naturais. “Primeiro devemos lembrar que o vinho é produzido em duas etapas separadas e distintas, tendo a viticultura de um lado (campo/vinhedo) e a vinicultura de outro (adega).”

Ele explica que vinho orgânico é um produto feito com uvas de cultivo orgânico (viticultura) e que terá em sua vinificação somente a utilização de produtos enológicos certificados orgânicos (vinicultura). “Vale lembrar que hoje temos inúmeros produtos certificados para utilização tanto no vinhedo como na bodega, onde a matéria-prima (uva) será ‘transformada’ em vinho.” Os produtos incluem, por exemplo, sulfitos, levedura selecionada, pó de tanino, acido cítrico e açúcar.

“Digo transformação, pois existem técnicas enológicas que são largamente utilizadas também para manipular o produto e fazer com que ele tenha uma característica mais aceitável para o público consumidor geral. Entre eles, a clarificação forçada, estabilização, micro-oxigenação”, explica Russo.

Já o vinho biodinâmico é um produto feito a partir de uma agricultura baseada na antroposofia do médico austríaco Rudolf Steiner, que tem como consequência natural a renovação do manejo agrícola, o sanar do meio ambiente e a produção de alimentos realmente condignos ao ser humano.

“Lembrando sempre que vinho é alimento. É restabelecer a condição da terra de prover o melhor, da maneira mais equilibrada possível com o seu meio e devolver essa soberania à natureza. Um cultivo que exige um conhecimento profundo da natureza e o entendimento dos ciclos naturais dos seres vivos que ali residem e interagem.”

Segundo Russo, muitas das técnicas de cultivo biodinâmico e de vinificação se utilizam, principalmente, das fases da lua. Alguns produtos são admissíveis na vinificação também e podem ser utilizados, mas em muito menor quantidade, como no caso do sulfito.

Lis Cereja, nutricionista e chef de cozinha, iniciou a Enoteca há 10 anos. Ramatis Russo, sommelier da Enoteca.

Por fim, o vinho natural é um produto feito a partir de uvas orgânicas e/ou biodinâmicas, mas que terá em sua vinificação a menor intervenção possível. Não sendo permitido o uso de leveduras selecionadas e uma quantidade extremamente baixa de sulfito ou nenhum.

Para Russo, esses vinhos têm aceitação maior no corpo do consumidor, uma vez que não estão carregados de químicos e sintéticos. A diferença está na pureza que talvez o consumidor comum não vai perceber. “Mas aí eu pergunto: o consumidor comum sabe diferenciar um iogurte natural de um industrial? Ou um pão de fermentação natural e longa de um pão de saquinho do supermercado?” critica.

 

Natureba, investimento valioso

O custo da produção dos vinhos, segundo o produtor, “é relativo” porque há economia nos insumos químicos e sintéticos que são descartados. “No cultivo orgânico e/ou biodinâmico existe uma relação com a biodiversidade que, por fim, acaba por te oferecer mais do que somente o plantado. Estamos falando de um sistema integrado e equilibrado, logo vale muito a pena investir, sim, nesse tipo de negócio”, conclui.

Único evento com foco nos vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos do Brasil, a feira Natureba chegou, em agosto, à sua sexta edição, sob o comando do casal Lis e Ramatis e reuniu 90 expositores entre produtores nacionais, internacionais e importadoras especializadas. Pelo sucesso da feira, sem fins lucrativos, já se pode dizer que veio para ficar. “É para um bem comum e maior do que nós”, diz. E lança mão de um verso do poeta Fernando Pessoa para reforçar sua tese: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

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