Tristeza que não acaba


Tristeza não é depressão

 

 

O termo depressão, atualmente, de tão corriqueiro, tornou-se uma espécie de sinônimo, onde todo e qualquer mal-estar significaria a mesma coisa. Assim, nos afastamos de um tratamento necessário e possível por um duplo engano, por um lado  falta de um diagnóstico preciso e, por outro, o excesso de diagnósticos equivocados.

Pelo lado do excesso, cabe lembrar que tristeza não é depressão; é uma resposta natural e esperada em determinadas circunstâncias. Alguém abatido pelo fim de um relacionamento, por uma perda, por uma quebra das expectativas com relação aos outros ou a si próprio, desencorajado por um fracasso, alguém com dificuldade de começar, recomeçar, mudar, etc, ou mesmo alguém tomado por um processo de luto, não está doente, está triste e é natural que o esteja, não? Essa pessoa pode e deve procurar ajuda se lhe prouver, mas não está doente e não deveria ser medicada. Por que nossa cultura não tolera a tristeza? Justo a tristeza, tão pertinente para avaliarmos e reavaliarmos. Somos diariamente minados por exigências sociais cada vez maiores de felicidade e são inúmeras questões suscitadas por essa demanda desenfreada, mas sabemos que o ser humano não pode ser pensado como positividade plena que precisa sempre ser curado, inclusive de si mesmo, por uma pretensa farmacologia eficaz.

Pelo lado do diagnóstico preciso, depressão é sim uma doença. Doença multifatorial em suas causas – emocionais, hereditárias, genéticas, sociais; em suas características – alterações de disposição, sono, apetite, humor, relacionais; e, por isso mesmo, multidisciplinar em seu tratamento, a depender do quadro – antidepressivos prescritos por médicos, psicoterapia, psicanálise, nutricionista, exercícios físicos. Enfim, trata-se de uma doença singular, que precisa ser diagnosticada e tratada no caso a caso, não há uma fórmula que funcione para todos. O fato é que muitas vezes, ela é encarada como um transtorno de humor simples do qual a pessoa, “fazendo uma forcinha” pode sair sozinha e, nesse ponto a situação começa a complicar pois o paciente não tem como se diagnosticar, nem se curar por conta própria. 

A depressão é mais persistente e também mais difusa que a tristeza, ainda que seu início possa ser identificado e muitas vezes relacionado à uma situação específica, alastra-se pelos diversos setores e vai causando estragos, gerando um esvaziamento de sentidos e de perspectivas. Embora algumas coisas continuem funcionando “no automático”, em geral a vida vai perdendo cores, prazeres, e pode-se mesmo perder completamente o desejo de viver. Ao contrário do que habitualmente se pensa, não manifesta-se apenas como desânimo ou apatia, pode se apresentar em forma de ansiedade, irritabilidade e agitação, principalmente quando em crianças e adolescentes. 

Pessoas muito deprimidas, por vezes, não conseguem nem mesmo procurar por tratamento, médico e ou psicológico, mas poderiam se beneficiar. Melhor e mais simples seria recorrer a ele, enquanto a situação não se agravou, mesmo porque é uma doença intermitente e com recidivas, mas cada um tem seu tempo. Cabe se perguntar: minha saúde, meu trabalho, ou meus relacionamentos estão prejudicados? Se sim, vale pensar seriamente na possibilidade de cuidar de si, deprimido ou não.

 

* Psicóloga Patrícia de Campos Moura

 

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