Veterinária e Terapeuta de Cotia estão cuidando de Pit Bulls resgatados das rinhas

Especialistas em Pit Bulls garantem que eles vão ficar bem e serão reabilitados para finalmente viverem em paz com famílias amorosas

Por Mônica Krausz

“No momento ele não entende porque está sendo bem tratado pois sempre conviveu com o sofrimento”, diz a veterinária.

Eles viveram uma vida de horror, criados para brigar e matar outros cães, condicionados a viver com dor, magros, famintos… mas sobreviveram e, agora, finalmente, estão conhecendo o lado bom do ser humano: ganharam protetores que os resgataram de rinhas de cães, espetáculo macabro onde homens adultos se divertiam ao ver cães brigarem até a morte e depois ainda comiam a carne assada dos cães mortos. Nunca mais eles vão passar por isso!

Nove dos cães resgatados em Mairiporã e Itu vieram para uma clínica e hotel para cães especializada em Pit Bulls, em Cotia, a Clínica Sabiá, da Dra. Kelly Magda Concha. Lá eles também tem os cuidados do Terapeuta Comportamental de Animais Jorge Alejandro Concha e ao mesmo tempo que têm o corpo tratado, também serão adestrados e socializados. Segundo Alejandro, eles não são agressivos com o ser humano porque foram condicionados a ser agressivos apenas com outros cães. Mas segundo ele, até essa agressividade com outros cães muda com a terapia comportamental e em breve eles saberão conviver bem com seus semelhantes.

Mais de 50 cães foram resgatados nas duas ações policiais. Os que não estão com a Dra. Kelly estão sob os cuidados de outros veterinários de confiança dos protetores. De acordo com a Dra. Kelly,  a maioria dos cães estão muito magros com cerca de 15 quilos (quando o normal da raça é em torno de 30 ou 35), feridos, alguns com necroses, comprometimentos hepáticos, baço comprometido, aumento de próstata em decorrência dos anabolizantes que eram aplicados.  Segundo ela, a reabilitação de cada um deles deve demorar de 4 a 6 meses dependendo da gravidade das lesões e dos traumas.

Entre os cães resgatados uma fêmea desnutrida, muito ferida, com alteração hepática está prenhe de 4 a 6 filhotes. Os filhotes Dr. Kelly ainda não sabe se vão nascer bem em função de todo esse quadro. Se nascerem talvez tenham de ser separados da mãe pois não se sabe ainda qual será a atitude dela em relação aos filhotes. Dra. Kelly tem 10 dias para fazer mãe e filhotes ganharem peso. A previsão de nascimento é para a semana entre Natal e virada do ano. Kelly e Alejandro são casados há 5 anos e moram na clínica. Ou seja, apesar de contarem com 3 funcionários, estão sempre de plantão, dedicam 24 horas de seu dia aos animais.

O trabalho da Dra. Kelly e de Alejandro, assim como dos outros veterinários não é voluntário, pois eles têm muitas despesas com alimentação, medicação, exames, transporte, além do tempo que se dedicam a estes animais deixando de atender outros particulares, mas é pago por protetores e ONGs como a Pits Alês, por uma tabela especial para protetores. “Os cães resgatados que estão aqui têm exatamente o mesmo cuidado e tratamento que um cão que chega com seu tutor”, explica Dra. Kelly. É por isso que a melhor forma de ajudar os cães resgatados é ajudando os protetores em campanha como a da vaquinha virtual da Kickante, que está recebendo doações até de outros países tamanha a comoção mundial diante da denúncia das rinhas https://www.kickante.com.br/campanhas/resgate-pits-da-rinha-mairipora

A Clínica Sabiá, da Dra. Kelly tem capacidade para 50 cães (cada um tem um canil exclusivo com parte coberta e parte externa para eles poderem se movimentar) e hoje hospeda exclusivamente pit bulls resgatados por maus tratos e abandono e encaminhados por protetores como Alessandro Desco do Pits Alês, Werrner Grau Neto, que é um advogado ambientalista; Claudia Pequeno (protetora), Bruno e Juliana Jacobi (protetores). Todos unidos para salvar estes animais tão pré julgados e condenados.

Muitos dos que estão lá hoje já estão reabilitados e socializados, aguardando por adoção. Segundo Dra. Kelly, os animais adotados são acompanhados pelas ONGs por um período para garantir que não serão abandonados novamente. Segundo Dra. Kelly, os pit bulls são os que mais sofrem maus tratos e abandono porque há muito preconceito. “Mesmo quem gosta de animais, tem medo de resgatar e ajudar com medo dele morder”, conta. “Sempre se noticiou muito ataques de pit bulls, mas não se mostrava o que eles sofriam”, observa. “99% dos casos de ataques aconteceu com cães que estavam em sofrimento, privados de água, comida, acorrentados e machucados”, afirma.

“Resgate de maus tratos a gente recebe muito, mas eu mesma não imaginava que em pleno século 21 existisse rinhas de cães. Gente assando cachorros, comendo cachorros com ketchup. Eu fiquei muito chocada com isso, muito revoltada, chorei, fiquei muito nervosa”, diz a veterinária. “E se você pensa em uma rinha de cães você imagina cães fortes, gordos, mas não os cães passavam fome”, lembra. “Até agora eu não consigo acreditar que essa maldade toda é verdade, parece que a gente está num pesadelo e vai acordar”, comenta. E ela ainda conta sobre uma viralatinha que também está em sua clinica e foi resgatada com os pit bulls pois servia de isca para atiçar a agressividade dos cães.

Sobre a recolocação em famílias, perguntamos quando ela sabe que o animal estão pronto para a adoção. Dra. Kelly diz que isso é uma coisa de coração. “A gente percebe quando eles estão prontos para ir”, diz com lágrimas nos olhos. “E essa separação é difícil pra gente porque nos apegamos muito a ele”, conta. Kelly tem tanta preocupação com o futuro dos cães que trata que da 3 meses de assistência veterinária gratuita para os animais adotados em sua clínica. “Eu faço isso para acompanhar a situação do animal na nova família”, conta.

Para Kelly, que trabalha com cães há 28 anos, desde os 13 anos de idade,  não existe cão que não pode ser adotado, só é preciso encontrar a família certa para cada cão.

*Na quinta-feira, depois de nossa entrevista, Dra. Kelly recebeu mais dois cães da rinha de Itu. Agora ela tem 11 resgatados desta triste história com final feliz.

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