COMPORTAMENTO
Papais antes do tempo
Eles podem ser jovens e inexperientes, mas não menos dedicados.
Rapazes que mal saíram da adolescência já assumem a responsabilidade de cuidar de um filho ou de uma família inteira, e a transformação, às vezes, pode ser bastante radical. Sempre que se fala em gravidez na adolescência, o assunto tende a ser abordado apenas da perspectiva da jovem mãe, ficando o pai adolescente quase sempre de lado. Tem gente que desconhece que, em muitos casos, os meninos desejam acompanhar o período de gestação e cuidar do filho junto com a mãe, ou seja, querem assumir suas responsabilidades diante desse novo fato. O drama de uma notícia dessas em pleno momento de muitas mudanças e escolhas também faz parte do mundo masculino, pois boa parte deles começa a tomar consciência que o período de farras, de festas com os amigos e de descompromisso com a vida está com os dias contados. Filhos, em qualquer idade, significam aumento de responsabilidade. Na adolescência, é arrumar trabalho, dividir-se com estudos e outras preocupações, justamente por tudo o que envolve
o ato de cuidar de uma nova vida até o resto da vida.
E, se você pensa que casos assim estão longe da realidade, está enganado.
Apesar do crescimento dos programas de prevenção, ainda é alto o número de adolescentes que assumem o responsável papel de pais.
| No fim do ano passado, aconteceu em Barueri a 8ª Semana de Orientação e Prevenção da Gravidez na Adolescência, promovida pela Comissão de Sexualidade da Prefeitura de Barueri. Mais de 600 jovens estiveram reunidos para receber informações e orientações sobre os riscos físicos e impactos psicológicos de uma gravidez e paternidade precoces. |
Pela região, quem merece destaque é o empresário Eduardo Cavalcante, que aos 20 anos arregaçou as mangas e assumiu a tarefa de ser o pai da jovem Isabella, hoje com 16 anos. Além dele, a REVISTA CIRCUITO encontrou alguns papais na mesma situação e que tiveram total apoio da família e dos amigos na hora de encarar o desafio e vestir a camisa de paizão.
Felipe Moura, 23 ANOS,
PAI DA BEATRIZ, DE APENAS 3
Felipe Moura levou o maior susto quando, aos 20 anos recémcompletados, descobriu que seria pai. O principal problema a resolver, antes de tomar qualquer decisão, seria contar para a família e esperar uma reação negativa e nada amigável. Foi aí que veio a grande surpresa.
Os pais do jovem rapaz adoraram e receberam com alegria a notícia de que seriam avós. Hoje, a pequena Beatriz faz parte da vida de Felipe de forma integral. Os programas com os amigos são divertidos com ela e, segundo o rapaz, as relações sociais seguem normalmente.
“Ser pai é mágico”, define.
Apesar de o casamento não ter dado certo, pelo menos dois dias por semana Beatriz fica com o pai, que é pai de verdade. Felipe troca fraldas, faz mamadeira e leva a filha para o parquinho. “Faço tudo o que for preciso. É muito bom cuidar de quem a gente ama”, explica ele, que, a partir do nascimento da menina, tornou-se mais responsável, já que tinha, e ainda tem, uma preocupação constante em ser um exemplo para a filha.
Atualmente, o jovem papai estuda Engenharia Civil e não abre mão de assistir a filmes infantis e dar boas risadas com a filhota.
| A adolescência é um período que compreende a faixa etária que vai dos 12 aos 20 anos. Contudo, não há uma definição clara para seu ponto de início e fim, geralmente considera-se que ela se inicia na puberdade, ou seja, no processo que leva à maturidade sexual ou fertilidade. |
Patrick Santos, 20 ANOS,
PAI DO MIGUEL, DE 3 ANINHOS
A prática de skate diário com os amigos ficou de lado. Agora Patrick é pai e precisa focar no futuro de Miguel. Fazer faculdade e trabalhar muito para ajudar no sustento do filho agora é essencial para o estudante de Administração. A paternidade bateu cedo à porta da família de Patrick. Com apenas 16 anos, o adolescente se viu na aflita situação de descobrir que seria pai. Desesperado, o jovem não conseguia pensar em outra coisa e nas mudanças que aquela situação traria para a sua vida, afinal, não passava de um garotão que não sabia o que era trabalhar e só pensava em badalar com os amigos. “Fiquei sem falar com meu pai por uma semana; ele tinha motivos suficientes para ficar chateado”, explica ele, hoje com 20 anos, que só acreditou na paternidade quando ouviu, pela primeira vez, o coração do filhote bater. Apesar do susto, recebeu o apoio de parentes e amigos. Os tios lhe deram uma oportunidade de emprego. Os amigos aceitaram numa boa e curtiram a situação.
Não basta ser pai, tem de participar. Esse foi o lema do adolescente, que tirou cinco dias de licença-paternidade e ficou no hospital até a alta do bebê. Trocar fraldas, preparar mamadeiras, dar banho e colocar para dormir – ou ficar noites sem dormir − foram atividades que tirou de letra. Patrick foi casado até Miguel completar 1 ano. Depois, retornou para a casa dos pais, que são fundamentais na criação do neto.
A experiência serviu para aprender que deve trabalhar, estudar, controlar os impulsos e viver num mundo diferente. Hoje, ele tem plena consciência de que todas as suas atitudes refletem no ser humano em que o seu filho se transformará. Atualmente, Patrick tem pouco tempo para badalações. Fica quase todos os fins de semana com o filho e, às vezes, durante a semana, não abre mão de estar com o filhote. Juntos, jogam futebol, brincam de caminhão, assistem a filmes, fazem bolo, comem pizza, vão à Igreja e ao circo. “Adoro levá-lo ao parquinho, mas ele gosta, mesmo, é do campo de futebol”, afirma o pai orgulhoso.
Apresentar uma namorada ao filho nem pensar. “O Miguel va
i conhecer apenas quando eu sentir que realmente vale a pena”, afirma.
De qualquer forma, namorar sério não está nos planos deste jovem pai, que quer focar nos estudos, crescer profissionalmente e curtir a infância do filho.
“Ser pai é ser amigo, sustentador nas dificuldades, é ser companheiro,
conselheiro, confiável e perdoador, aquele que abençoa a sexualidade
do seu filho, é ser aquele a quem o filho pode correr em busca de
refúgio e que etá disponível a acolhê-lo e ajudá-lo – é ser consciente,
é ser responsável – é ser Homem”.
(Ser Pai: um apelo à responsabilidade, de Rasma V.E. Jakob.)
| Uma pesquisa feita pelo Instituto Papai, de Recife, calcula que entre as adolescentes que são mães no Brasil, de 55% a 60% delas tiveram filhos com meninos menores de 19 anos. De acordo com o IBGE, atualmente, mais de 1,2 milhão de adolescentes são mães no país, o que significa que o número de pais adolescentes deve chegar a cerca de 700 mil. |
Fillipe Santos, 18 ANOS,
PAI DO RECÉM-NASCIDO KAUÊ
Faz poucos dias que Kauê chegou ao mundo. O pai, Fillipe, de apenas 18 anos completados no último mês de maio, mudou completamente o ritmo de vida e passou a ter uma responsabilidade dobrada na hora de encarar os sogros. Os pais de Jenifer Caroline, de 20 anos, mãe de seu filho, conceberam a filha ainda muito jovens e sentiram na pele as dificuldades de criar uma criança no auge da juventude.
Fillipe já havia tido antes a sensação de se tornar pai. Sua namorada engravidou quando o rapaz tinha 17 anos, mas uma fatalidade resultou em um aborto natural.
Tempos depois, anunciou a segunda gestação.
A paternidade exigiu algumas medidas difíceis por parte do rapaz. Ele abandonou os estudos no primeiro ano do Ensino Médio e teve de trabalhar duro para pagar o aluguel de uma casa para a namorada e o filho. Foi dessa forma que conseguiu mostrar independência para a família e pôde receber maior apoio afetivo para encarar a situação.
O casamento não deu certo, mas Fillipe garante que está em fase de reconciliação. Quanto ao filho, afirma pensar integralmente no futuro dele. Ainda no hospital, o jovem assumiu a função de pai. “A mãe do bebê era um pouco insegura na hora de dar banho. Eu dei os primeiros banhos e fiz as trocas”, afirmou ele, que curtiu os primeiros dias de vida de Kauê ao máximo. “Adoro sair com ele para os banhos de sol”, conta o pai, com responsabilidade de homem, mas com um sorriso ainda de menino.












