Em um piscar de olhos, tudo mudou. As medidas de distanciamento social esvaziaram as escolas e os profissionais da educação precisaram se reinventar, buscando novas formas para executar o seu trabalho. Em uma velocidade impressionante, o ano letivo de “presença à distância” passou, emendou em outro e… aqui estamos. Ansiosos, aguardando o que vem a seguir.

Com o avanço do programa de vacinação, as escolas se preparam para o retorno às aulas
presenciais em toda a sua capacidade. Mas as perguntas que surgem ainda são muitas. A principal delas é: como será esta escola que reabre? Sabemos que a pandemia alterou a lógica de como funcionamos enquanto sociedade e evidenciou a importância de se trabalhar o desenvolvimento humano. Isto, inclusive, já está enumerado na Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Sendo assim, a escola tem um importante papel social neste cenário e precisa se preparar, mais do que nunca, para atuar nesse novo – ou velho – mundo.

Terá que aperfeiçoar a relação com as famílias e acolher os alunos, cuidando do seu desenvolvimento integral que inclui corpo, mente e emoções. Elas estão prontas para mediar os encontros e os reencontros diários que os alunos terão não só com o conteúdo dos livros, mas sobretudo com o outro?

Para trazer esse importante tema à nossa comunidade e outras questões pertinentes, a
equipe da Circuito conversou com quatro grandes profissionais: Terezinha Fogaça de Almeida, educadora; Sheila Niskier, médica especializada em adolescentes; Cristiano Nabuco, psicólogo que coordena trabalhos de desintoxicação tecnológica; e Rodrigo Bressan, psiquiatra focado em saúde mental nas escolas.

Para completar, também convidamos diretores de escolas parceiras da região para debater alguns tópicos sobre essa educação que nasce – ou deveria nascer – no cenário pós-pandemia. Sob diferentes óticas, cada um apresenta suas visões da realidade atual.

Vamos lá?

Momento dos R’s

Repensar. Refazer. Reinventar. Reconstruir. Remodelar. Ressignificar. Cabe às escolas reescrever suas estratégias. Com a pandemia, descobrimos que vivemos em um mundo que se transforma a cada dia e o grande desafio é planejar uma educação capaz de preparar educando e educador para essas transformações. Mas não pelos meios
utilizados até o momento pela escola tradicional – memorização, reprodução e checagem de conteúdos cristalizados -, como afirma a educadora Terezinha Fogaça de Almeida. “Cite três rios afluentes do Amazonas, por exemplo. Diante de uma resposta correta, tal como
Madeira, Xingu e Purus, o que se faz? O que um professor e um aluno fazem a partir desse tipo de informação é o que nos leva a caminhos muito mais interessantes. Ou seja, uma ideia mais ampla de que o mundo é feito de uma multidão de pequenas complexidades. A busca do educador é ensinar e também aprender quais são as ferramentas particulares que cada aluno precisa para se encontrar no mundo e para encontrar seu mundo”, afirma.

No currículo, devemos formar indivíduos capazes de solucionar problemas complexos, pensar de forma criativa e ter flexibilidade cognitiva, focando em competências socioemocionais. Colaboração parece ser uma palavra adequada para este novo momento. “Escola precisa ensinar habilidades sociais, este vai ser o grande desafio. É importante fazer a informação virar conteúdo e, mais, através de um trabalho colaborativo, com inclusão social e respeito à diversidade”, afirma a médica especializada em adolescentes Sheila Niskier.

A escola, segundo elas, deve nutrir nos alunos a curiosidade e as competências para continuarem aprendendo a vida inteira. E mais: ensiná-los a pensar globalmente para que sejam capazes de responder e contribuir com a construção de um mundo mais igualitário e
em constante mudança.

Escola presencial é insubstituível?

Pode até ser possível abraçar virtualmente com palavras, mas só isso não é suficiente. O face-a-face é, digamos, insubstituível. “É uma forma de se reconhecer no outro. É imprescindível para o autoconhecimento. A escola presencial é importante para a cognição social. Você se conhece através do olho no olho e não no like”, comenta Sheila. E o psiquiatra Rodrigo Bressan completa: “se as pessoas achavam que o novo normal era estudar à distância, erraram. A escola é um espaço de convivência absolutamente fundamental”.

Terezinha é outra defensora de que a escola do futuro, no tempo certo, é presencial. “As experiências com o ensino à distância foram importantes e não podem ser esquecidas. Mas a essência é um entendimento mais forte de que o papel da escola é o de proporcionar e preparar as crianças para os encontros: com os outros, consigo mesmas e com o mundo”, afirma. Ao mesmo tempo, ela faz questão de ressaltar que já dá para dizer que a escola tradicional do jeito que se conhecia até a pandemia – fechada, lotada de pessoas circulando
em ambientes onde o ar é condicionado – acabou. “Ao menos, ela tornou-se inadequada”, diz. Será necessário reavaliar os espaços.

Educar para o uso da tecnologia

Não apenas a interação social, mas a absorção de conteúdos também ficou prejudicada com o ensino remoto. “Alfabetização, por exemplo, fica bem comprometida. A criança precisa ver a leitura labial enquanto a professora soletra. Além do mais, tem um estudo
que fala da diminuição da massa branca proporcionada pelo ensino eletrônico. As multitarefas fazem com que não acessemos a memória de trabalho. Assim, formamos crianças e adolescentes mais distraídos”, alerta Sheila.

E aqui entramos na seara do psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador da área de Dependentes de Internet do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Nem de longe ele critica todas as possibilidades que a tecnologia trouxe, traz e ainda nos trará. Sua inquietude, na verdade, diz respeito à forma pela qual essa tecnologia vem sendo estimulada junto aos jovens. “Se você faz uso saudável, regulado e equilibrado, você está extraindo da tecnologia o que ela tem de positivo. Mas se não faz isso, as chances de ultrapassar essa linha são muito grandes”, afirma.

Em 2019, nós abordamos com ele esse mesmo tema: a tecnologia na educação. Naquela época, ele pontuou que, enquanto as escolas mundo afora introduziam a tecnologia no processo educativo, grandes nomes da tecnologia preferiam que seus filhos estudassem
em escolas que praticamente proibiam o uso de telas. Contrassenso? “Grande parte das instituições de ensino do Vale do Silício sequer permitem que ocorra a entrada de qualquer artefato tecnológico junto aos seus alunos. Apenas a velha receita: lápis e papel. Isso deve ter, claramente, algum propósito maior”, dispara o psicólogo.

Claro que, diante do atual cenário, a tecnologia foi a solução ideal. “Seu uso não é a melhor ferramenta para educação, mas diante da pandemia foi uma alternativa importante para manter as atividades escolares”, confessa. Mesmo assim, ele faz questão de bater na tecla
de que a forma como aprendemos não mudou desde os primórdios. Sentar, ouvir o professor falar e, então, raciocinar, absorvendo conhecimento, tudo isso continua igual. “A escola serve para estimular a pensar”, defende. Com ou sem tecnologia.

Os paradoxos são muitos, assim como os debates intensos. “Geralmente, as pessoas que criticam a tecnologia são aquelas que nunca foram expostas na sua infância. Estamos aqui falando de nativos digitais versus os não nativos. Mas o que sabemos de fato? Que o uso
de telas não é salutar, mas também ainda não há evidências científicas para afirmar que isso ou aquilo fazem realmente mal, entende? Porque ainda é tudo muito novo, só poderemos avaliar o impacto lá na frente. O que temos de concreto é um estudo recente que apontou que, quando o cérebro é exposto a muitos estímulos, como gráficos, vídeos etc, ele fica cansado e não consegue decodificar tudo. Por isso, eu digo: a tecnologia, se adotada, precisa de muita cautela”, pontua.

Os especialistas que conversamos são unânimes em dizer que, para fazer melhor uso dela, é necessário discutir alguns pontos. “Não dá para tirar a tecnologia, não podemos dar um passo para trás. Você pode usar os recursos digitais, mas de uma forma mais calculada e atenta. Tudo passa pelo equilíbrio”, acredita Terezinha. Sheila complementa sua opinião: “a tecnologia veio para ficar, não podemos negar. Se o aluno está inserido nela a escola não pode ficar alheia e precisa repensar seu papel, mudar paradigmas e ter consciência de que os mais jovens também têm a nos ensinar. Essa troca de conhecimento é importante e é justamente essa colaboração que vai promover o crescimento de todos”.

Para Nabuco, o desafio da escola é “fazer com que esses alunos reaprendam a estudar, da forma mais básica possível”. E como? Escolhendo abordagens de ensino que vão além, abram possibilidades e proporcionem suporte para novas formas de aprendizagem.

Mente sã

O desafio de agora é voltar. Quem afirma é o psiquiatra Rodrigo Bressan. “Passado mais de um ano no hibridismo, precisamos nos acostumar ao antes. É uma volta para o novo. Parece estranho dizer isso, mas de certo modo não voltaremos ao que tínhamos”, avalia. “Quem se adaptou ao virtual, vai ter que entender de novo o funcionamento do presencial e da interação. Dependendo da característica do aluno, a dificuldade pode ser maior ou menor. Maior, principalmente, para quem tem problemas para se socializar. E aí vai entrar o papel do educador”, pontua.

Ele fala com conhecimento de causa. Desde 2018, o Instituto Ame Sua Mente, criado e presidido por Bressan, faz um trabalho voltado para a saúde mental nas escolas, principalmente com os educadores. Só neste ano, promoveu iniciativas à saúde mental, que beneficiaram mais de 14 mil deles.

Para Bressan, o educador é a peça chave e pode, “com seu olhar sensível”, identificar precocemente sinais de transtornos nas crianças e adolescentes. “Os educadores têm um olhar privilegiado. Ninguém conhece jovens de tal faixa etária como eles que os veem
por muitos anos, em grupo. Eles têm parametrizado e, portanto, conhecem como deveria ser o tal comportamento esperado e qual é o desviante”, explica. Assim, a luz vermelha acende, o que seria fundamental nas palavras do psiquiatra. Desta forma, os comportamentos podem ser cuidados, antes que virem transtornos, e as mentes mantém-se sadias.

Lições para o futuro

Na escola que nasce no pós-pandemia, professores e alunos valorizarão de maneira mais intensa uns aos outros, a parceria entre família e escola será mais efetiva e a delimitação dos conteúdos será revista. “Para quem acha que aluno vai para escola aprender português e matemática, está enganado. Espero, sim, que ele esteja aprendendo, mas não é só isso. Os jovens vão para a escola aprender uma das coisas-chave: educação socioemocional. Ou seja, aprender a conviver, se relacionar, ter limites, entender a si mesmos frente aos desafios, lidar com medo e aceitação social. Isso é fundamental na formação de cada um”, defende Bressan.

A experiência dos últimos meses mostrou que não existem questões e ações isoladas. Assim, o mais importante que uma escola pode ensinar é que este mundo não pertence apenas a nós e, sobretudo, enfatizar a conscientização sobre comunidade, coletivo e sociedade. Mais do que nunca, precisamos formar pessoas abertas para o mundo e autônomas. Terezinha concorda: “escola é lugar de construir – construir-se pessoa, construir-se cidadão, tornar-se ser pensante, disciplinado intelectualmente, alguém ativo e permanentemente aberto ao debate e à reflexão”.

Independentemente do que virá a seguir, assim como a educadora e outros profissionais do segmento defendem, o papel da escola segue sendo o de formar jovens que sabem somar, multiplicar, dividir, ler e escrever. Mas agora é imprescindível, mais do que nunca, adicionar valores para transformá-los em adultos comprometidos com o coletivo. As escolas devem provocá-los a formular boas perguntas, ao invés de restringi-los à “resposta certa”. É preciso inspirá-los a criar novas visões para tornar este mundo um lugar melhor. Não há respostas para a construção de um futuro eficaz para a educação, mas uma coisa é certa: começa de forma simples, com planejamento e desenvolvimento. Assim, um futuro incerto pode se tornar um futuro “e se…?”.


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Por Juliana Martins Machado

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