Pela primeira vez, uma mulher assume a Delegacia de Cotia

Em um momento histórico para a segurança pública de Cotia, a delegada Mônica Resende Gamboa é a primeira mulher a ocupar o cargo de titular da Delegacia da cidade e também é pioneira ao assumir a direção da Cadeia Pública.

Mônica ingressou na carreira policial, após concluir a faculdade de Direito em 2003. Embora na infância tenha sonhado em ser médica e cursado dois anos de medicina veterinária, seu destino mudou quando teve a oportunidade de vivenciar o ambiente de uma delegacia de polícia, enquanto tirava a segunda via do RG. Ela se encantou e, desde 2006, segue carreira na polícia.

É professora concursada da Academia de Polícia, especialista em Processo Penal e autora de livros sobre criminologia e direito. Seu currículo inclui passagens pelo antigo Grupo de Operações Especiais (GOE), pela Corregedoria da Polícia Civil e pela titularidade da Delegacia de Defesa da Mulher. Em 2021, assumiu a assistência da Delegacia Central de Cotia e, no início deste ano, a Delegacia da Granja Viana.

Na cidade, ficou conhecida como a “delegada do Pix” pela atuação contra quadrilhas envolvidas nesse tipo de crime. Também esteve à frente da investigação da morte da ex-modelo Aline Lopes.

Em entrevista exclusiva, Mônica detalhou como escolheu essa carreira, sua atuação em diversos departamentos e delegacias, além de mencionar a importância do policiamento comunitário e os desafios enfrentados na carreira. Confira:

Como você decidiu seguir a carreira na polícia e se tornar uma delegada?
Entrei na carreira policial depois de concluir a graduação em Direito, no período de 1998 a 2003. Acumulei o cursinho preparatório junto com o último ano da graduação. Mas na infância, tinha o sonho de ser médica e seguir a universidade de medicina, mas não consegui ingressar em uma universidade pública, federal ou estadual. Cursei medicina veterinária por dois anos e fiz o ensino técnico em nutrição. No entanto, quando tive a oportunidade de vivenciar o ambiente de uma delegacia de polícia, enquanto tirava a segunda via do meu RG, acabei me encantando por aquele ambiente. Decidi seguir a carreira de delegada e estou na polícia desde 2006.

Conte um pouco da sua história: por quais departamentos e delegacias passou até assumir a DP de Cotia?
Já atuei em diferentes áreas, incluindo o Grupo de Operações Especiais, que atualmente foi substituído por outro departamento, além de ter trabalhado na Corregedoria da Polícia Civil e como titular da Delegacia de Defesa da Mulher. Também atuei como assistente em delegacias de periferia e delegacias de bairros nobres, e fui responsável pelo setor de administração da polícia, lidando com licitações e outros assuntos administrativos. Cheguei aqui em Cotia no início de 2021, trabalhando na assistência da Delegacia Central de Cotia, e no começo deste ano passei a atender também na Delegacia da Granja Viana. Atualmente, estou com 17 anos de carreira.

E agora assume o comando da Delegacia de Cotia e, aliás, é a primeira mulher a assumir o posto. Como se sente?
Estou grata pela oportunidade, principalmente pelo fato de quebrar uma barreira tão significativa, que é o reconhecimento da competência da mulher em uma atividade tão importante como a segurança pública, dentro de um município.

Quais são as principais responsabilidades no seu dia a dia?
As principais responsabilidades do delegado de polícia são conduzir o inquérito policial, ou seja, investigar crimes para instruir o processo. É um trabalho, portanto, investigativo, auxiliando na persecução criminal, no caminho de elucidar um crime e auxiliar o juiz e o promotor de justiça. O tipo de investigação que é realizada é dividido de acordo com a natureza do crime, como crimes patrimoniais, contra a vida, contra a honra, contra o meio ambiente, contra a administração pública, contra a dignidade sexual, contra crianças e adolescentes ou ainda praticados por crianças e adolescentes. Além disso, lidamos com boletins de ocorrência, que fazem parte do nosso trabalho diário. O boletim de ocorrência é um documento no qual se registram crimes. Além das responsabilidades investigativas, também realizamos um trabalho humanizado, que envolve o atendimento ao público. A polícia civil e seus agentes são os representantes dos servidores públicos que têm contato direto com as partes quando ocorre um fato criminal.

Quais são os maiores desafios que enfrenta no exercício da sua função?
Os desafios que enfrentamos incluem a pouca estrutura, que é uma característica peculiar do serviço público. Além disso, o desafio de gerenciar o tempo, uma vez que todas as ocorrências de natureza criminal são urgentes, e ao longo do dia, lidamos com vários problemas e crimes ocorrendo simultaneamente. Portanto, é essencial gerenciar as prioridades. Outro desafio constante na profissão está relacionado ao perigo, à morte e a situações pesadas e tristes. Mas é importante não permitir que essas situações afetem nossa vida pessoal e enxergá-las como parte do trabalho, buscando ajudar as vítimas da melhor forma possível.

Pode compartilhar uma história ou caso que tenha sido particularmente significativo ou desafiador em sua carreira?
Ao longo da minha carreira, houve alguns casos que se tornaram memoráveis e significativos. No entanto, principalmente o que mais nos impacta, e o que mais me impactou, são os crimes sexuais, envolvendo principalmente crianças, ou os casos de homicídio.

Como você vê o papel da polícia na comunidade e qual é a importância do policiamento comunitário?
O policiamento comunitário é uma ferramenta importante dentro da sociedade, uma vez que a participação da comunidade, juntamente com o trabalho investigativo da polícia, é um agente de controle social extremamente eficaz. Isso porque a população que participa colabora com o trabalho investigativo, trazendo informações sobre endereços, algum fato estranho ou até mesmo criminoso que ocorra em determinada localidade, informações sobre uma placa de carro ou o apelido de alguma pessoa. Portanto, é muito importante essa integração e parceria entre a polícia e a comunidade, de modo que possamos diminuir os crimes, prevenir e até mesmo elucidar alguns deles.

Sua experiência pessoal como delegada de polícia influenciou a sua visão sobre segurança e justiça?
Sim. Participando diariamente desses mecanismos de apuração de criminalidade, conseguimos perceber algumas questões problemáticas. Isso inclui a flexibilidade da lei para alguns crimes, a ineficácia do sistema prisional devido à superlotação e a burocracia que leva muitos anos para concluir um processo. Além disso, também percebemos a falta de investimento na prevenção do comportamento criminoso e na ressocialização dos presos.

Vamos falar sobre a segurança regional. Como estão os índices de criminalidade da região?
Falando sobre a insegurança regional aqui em Cotia, os maiores índices criminais que temos são os crimes patrimoniais, como roubo majorado com retenção ou privação de liberdade, que são muito comuns na região. Isso ocorre devido à geografia de Cotia, que é uma área com muitos locais ermos e estradas de terra, facilitando essa prática criminosa e tornando as vítimas mais vulneráveis. Também temos uma incidência considerável de homicídios na região de Caucaia. Essa é uma área rural com locais de desova de corpos. A geografia desse local inclui estradas não pavimentadas, falta de iluminação pública e poucas residências, tornando-o propício para a prática desses crimes. Muitas vezes, esses homicídios são cometidos com armas de fogo, e as vítimas são executadas a tiros, sem vizinhos próximos que possam ter ouvido algo. Geralmente, não tem câmeras de segurança, pois não são habitadas, o que facilita a prática desses dois tipos de crimes. Por isso, a atuação da polícia, tanto da Guarda Civil Metropolitana quanto da Polícia Militar e da Polícia Civil, é bastante intensa nessa região do município de Cotia.

Para encerrar, quais dicas pode compartilhar para uma comunidade mais segura?
Algumas dicas de segurança importantes incluem conhecer bem o caminho que vai percorrer, analisar antes de sair de casa e conferir as rotas alternativas oferecidas por aplicativos. Sempre ter combustível suficiente no veículo para evitar ficar parado em locais com pouca movimentação, não compartilhar senhas e memorizar senhas de celular. Evitar expor bens nas redes sociais, não emprestar o telefone a desconhecidos em agências bancárias e sempre procurar a polícia quando se sentir ameaçado por algum crime ou desavença nas imediações.

Por Juliana Martins Machado

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