Moradores do entorno da rodovia reivindicam debate sobre os impactos do projeto “Nova Raposo”

Comunidade, principalmente da região do Butantã, expressa preocupação com o projeto “Nova Raposo”, que pretende ampliar faixas e instalar seis pórticos de pedágio entre a capital e a cidade Cotia. No último domingo, mais de 60 pessoas se reuniram online para discutir a proposta, convocadas por diversas entidades, como a Rede Butantã e a Rede Ambiental Butantã, além de conselheiros do CADES Butantã e do Conselho Participativo Municipal.

A principal alegação é a falta de participação popular. “Soubemos do projeto pelo jornal, o que nos pegou de surpresa. Não houve consulta pública nem audiências divulgadas. E ele impacta terrivelmente bairros residenciais e arborizados, como o Jardim Previdência e outros do Butantã”, expressou Sérgio Reze, diretor de relações externas da Amapar (Associação dos Moradores Amigos do Parque Previdência). Ernesto Maeda, conselheiro municipal, considera “absurdo que um projeto dessa dimensão não tenha participação popular e de especialistas”.

“Nossa principal exigência é uma audiência com o Governador do Estado, a fim de que representantes dessas mais de 50 entidades tenham a oportunidade de se fazer ouvir. Não estamos contra apenas por estar contra. Reconhecemos os desafios enfrentados na Raposo Tavares. Vivenciamos esses desafios diariamente. No entanto, não se pode resolver um problema recorrendo apenas a soluções que incentivam o uso do automóvel, uma abordagem ultrapassada”, completou Sérgio.

Por sua vez, a Secretaria de Parcerias e Investimentos do Estado afirmou que a consulta pública – cujo prazo para manifestações expirou na última terça-feira (16), após um mês de abertura – foi amplamente divulgada, através do Diário Oficial, do site e das redes sociais. Explicou que o projeto ainda está em fase de elaboração e que as opiniões colhidas durante essas conversas com a população serão levadas em conta na concepção do projeto e informou que foram realizadas duas audiências públicas, uma em São Paulo, na sede do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER), e outra em Vargem Grande Paulista.

O governador Tarcísio de Freitas ressaltou que “nenhum projeto sai exatamente como entrou” e que o governo está aberto para ouvir a população. “É compreensível a reação e o desconforto. No entanto, tenho certeza de que isso será atenuado quando o projeto estiver bem estruturado e os investimentos se concretizarem. Então, veremos a diferença”, disse em uma coletiva de imprensa, realizada na última quarta-feira.

Na reunião, a comunidade expressou indignação com a rápida condução de um projeto de tal magnitude, sem o devido respeito às diretrizes do Estatuto da Cidade. “Onde estão os Estudos Técnicos, de Impacto Ambiental, de Vizinhança, de Mobilidade e os respectivos Estudos Sociais sobre a população instalada na região?”, indagou José Jacinto, coordenador da Rede Ambiental Butantã, conselheiro do Parque Previdência e morador do Butantã há mais de 30 anos.

“Além de um transporte público de massa, o certo seria investir na segurança e fluidez do Rodoanel, justamente para descongestionar os bairros”, avaliou Wladimir Bordoni, morador do bairro City Butantã, ex-engenheiro de transporte e tráfego por mais de sete anos na CET. Para ele, um dos maiores equívocos do projeto é estimular ainda mais a rodovia Raposo Tavares para acessar áreas centrais da cidade, piorando locais já congestionados como a avenida Pedroso de Moraes, ponte Eusébio Matoso e Marginal.

Segundo a arquiteta e urbanista, Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o projeto de concessão da Raposo Tavares é uma iniciativa que não leva em consideração o contexto da via, com grande trecho urbano em uma área densamente povoada da cidade.

Os participantes da reunião decidiram criar o movimento “Nova” Raposo, não! para impedir o avanço do projeto e requerem que o Poder Público, em âmbitos municipal e estadual, retroceda o processo em curso. “É preciso o cumprimento integral das diretrizes legais que norteiam os processos participativos e o direito democrático de controle social”, afirmou Angela Baeder, do CADES Butantã.

Até o momento, cerca de 40 entidades – incluindo Coletivo PanVerde e Transition Towns Granja Viana – participam do movimento.

Lote Nova Raposo

A concessão inclui quatro rodovias: Rodovia Raposo Tavares (SP-270), Rodovia Castello Branco (SP-280), Rodovia Prefeito Livio Tagliassachi (SPA 053/280) e Rodovia Coronel PM Nelson Tranchesi (SP-029) e também o trecho municipal entre os municípios de Cotia e Embu das Artes, paralelo ao Rodoanel Oeste.

O projeto vai beneficiar 14 municípios da região e prevê investimentos para duplicação de 27,7 km, implantação de 146,6 km de faixas adicionais, 48,3 km de vias marginais; 24 novos dispositivos, adequação de 41 novas obras de artes especiais; 38 novas passarelas e 73 pontos de ônibus.

O projeto prevê melhorias em dispositivos de acesso e retorno, entre outras obras de infraestrutura viária, além de serviços como atendimento por equipes de socorro mecânico, guincho, primeiros socorros e monitoramento das rodovias por sistemas de câmeras. Esses investimentos devem gerar mais de 8,5 mil empregos, entre diretos e indiretos.

A rodovia também contará com o sistema automático livre, pagamento da tarifa de maneira 100% automática (sistema free flow), que permite uma cobrança mais justa em relação ao trecho percorrido. As vias atualmente sob concessão da ViaOeste terão as praças de pedágios convertidas em pórticos, o que permitirá uma redução em torno de 20% na tarifa quilométrica atual, além de diminuir o tempo de viagem e a emissão de dióxido de carbono.

O projeto da Nova Raposo faz parte dos 1.800 km de rodovias qualificadas no Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP), em fevereiro de 2023. O PPI-SP visa atrair investimentos privados, com o objetivo de melhorar a prestação dos serviços públicos à população, ampliando as oportunidades de negócios, emprego, desenvolvimento socioeconômico, tecnológico, ambiental e industrial em São Paulo.

Veja no vídeo abaixo:

Por Juliana Martins Machado

Artigo anteriorJair Oliveira lança álbum ‘Tekoá
Próximo artigoComo cuidar da pele e da barba em dias mais frios