Em outubro de 2015, fui internado com suspeita de tuberculose no Hospital Metropolitano do Butantã. Isso porque comecei a sentir falta de ar e os exames constataram a presença de líquido em meus pulmões. A tuberculose foi a primeira suspeita de ter provocado aquela situação, porém, logo após os primeiros exames, essa hipótese foi descartada.
Passei, então, por uma série de exames para os médicos tentarem identificar o que estava causando aquele acúmulo de água dentro de mim. O nome do problema que eu tinha era derrame pleural, quando há o acúmulo de líquidos dentro da pleura, membrana que reveste o pulmão.
Fui ao centro cirúrgico por duas vezes. A primeira para fazer broncoscopia e a segunda para fazer biópsia. A água que estava concentrada nos pulmões passou a se alastrar para o pericárdio (membrana que reveste o coração) e também para o abdômen. Toda essa situação estava me deixando apavorado, isso sem falar dos cálculos renais (cerca de 9) que estavam em meus rins. Era uma dor insuportável, em que era aliviada somente a base de dipirona e morfina.
Enfim, os resultados dos exames. Tanto a broncoscopia quanto a biópsia vieram da seguinte forma: “processo infeccioso inespecífico”. Ou seja, não tinha nada em meu organismo causando aquele derrame todo. Os médicos não acreditavam. E eu, que já estava apavorado, fiquei muito mais, levando em consideração um fato crucial para o meu desespero: minha esposa estava grávida de 5 meses!
As dores aumentavam e o meu estado de saúde ia de mal a pior. Meu psicológico estava completamente abalado com toda situação, afinal, não sabia se sairia vivo dessa. “Será que veria minha filha nascer”, me questionava a todo o momento.
Passei por cinco especialidades médicas diferentes, mas nenhuma delas conseguiu encontrar a causa do meu problema. Os médicos ficaram tratando dos sintomas, era só o que restava.
Após o período que passei revoltado com tudo que estava acontecendo comigo, decidi aceitar a minha condição e entregar nas mãos de Deus o meu destino. Eu, que já não andava sem a ajuda de enfermeiros e fazia todas as minhas necessidades no leito, não tinha outra saída a não ser confiar naquilo que estava acontecendo. Era uma situação completamente constrangedora.
Quando mudei meu pensamento e resolvi entender aquilo tudo, uma voz em minha consciência disse assim: tudo vai dar certo. Intuitivamente, comecei a lembrar dos anos anteriores e tudo que eu tinha vivenciado no período em que trabalhei pela primeira vez em um jornal, quando ainda fazia faculdade em São Paulo. Mas por que aquelas lembranças naquele momento? O que elas tinham a ver com tudo que estava ocorrendo comigo? Qual a relação? Naquele momento, eu não tive respostas.
Entretanto, aqueles flashbacks vinham cada vez mais intensos, então busquei, em minhas reflexões, a razão para tais lembranças. Recordei da pessoa que havia me tornado naquele período (entre 2010 e 2014). Me transformei numa pessoa radical, que não aceitava opiniões diferentes da minha. Tinha raiva e ódio de todos que pensavam diferente. No campo político, ai de quem discordasse do meu ponto de vista! Era briga na hora!
Todo aquele contato com as injustiças sociais e políticas feriam os meus sentimentos. Eu chorava, me entristecia e levava para casa tudo aquilo, que não era meu. Eu carregava as dores alheias como se fossem minhas e aquilo me fazia mal. Eu descontava aquela raiva em pessoas que não tinham nada a ver. Criei desafetos dentro do meu próprio lar, com as pessoas que amava e amo.
Comecei a ligar os pontos. Eu, que sempre acreditei que o corpo era apenas um reflexo de nossas emoções, compreendi que aquela minha situação, deitado em um leito hospitalar, poderia ter ligação com os quatro anos que acumulei esses sentimentos negativos. A partir daí, comecei a mudar.
Ainda no hospital, prometi pra mim mesmo que nunca mais carregaria aquela carga de sentimentos ruins. Aceitei a minha situação e passei a ter mais fé naquele momento. As coisas, desde então, começaram a mudar.
Os dias se passaram e o líquido foi todo reabsorvido pelo organismo. Sim, “do nada”. Os exames não apontavam mais a presença de líquidos em meus pulmões e em nenhuma outra região do organismo. Tive alta.
Hoje, quase 3 anos depois, minha filha se encontra com 2 anos e 4 meses, trabalho com crianças e jovens em atividades culturais e, no jornalismo, mesmo tratando de assuntos políticos e sociais, separo quem eu sou do que não é meu. Sim, tive que sofrer um pouco para aprender.
A minha indignação – e não ódio – hoje é diferente. Ao invés de eu discutir, ao invés de eu sair publicando coisas em minhas redes sociais, ao invés de maltratar uma pessoa só porque pensa diferente de mim, utilizo ela em minhas aulas, nas oficinas e palestras que faço em escolas públicas. A melhor maneira de mostrar que não aceito o que estão fazendo de errado com o país, é inserir conhecimento na cabeça da molecada, realizar rodas de leitura, formando um senso crítico, trabalhar com a literatura e a poesia, como ferramentas de transformação pessoal e social. Me responda: qual governo que gosta de pessoas pensantes e conscientes?
E só para finalizar, hoje ainda passo periodicamente no pneumologista, para avaliação de rotina. Graças a Deus meus pulmões estão perfeitos, apenas com algumas cicatrizes deixadas pelo derrame pleural, mas nada que me impeça de fazer algo. O que eu tive? Ainda não sei, talvez, de fato, eu saiba, mas nada que esteja ligado ao campo físico, afinal, qual tomografia que detecta a presença de ódio e raiva no organismo?
A política, o ódio e a saúde
Como o ódio, acumulado por conta de problemas sociais e políticos, durante anos, pode resultar em um problema de saúde grave? Neste artigo, Neto Poeta traz uma reflexão importante sobre dias atuais, relatando algo que ele mesmo vivenciou
















