Arte Observada: obra de André Rocha Fornaza Yabiku

Milenna Saraiva escreve sobre a obra do paulistano André Rocha Fornaza Yabiku, para quem a arte é a maior expressão de sua alma.

O artista visual André Rocha Fornaza Yabiku, mais conhecido como André Filur, nasceu em 1985, em São Paulo. Influenciado por sua mãe, que foi atriz, mas também passeava pelas artes plásticas, desenha desde criança. Sempre muito tímido, usava o desenho como meio de expressão e comunicação com o mundo.

Aos 13 anos de idade, por intermédio de amigos de escola, conheceu o graffiti. Desde então, deixa pelos muros seus traços e personagens inconfundíveis. Hoje seu trabalho vai muito além do graffiti: murais, pinturas sobre telas, esculturas e pinturas digitais compõem seu diverso portfólio. Seu trabalho pode ser admirado em galerias de arte e exposições que fazem parte de coleções em diversos lugares do mundo, como Canadá, Estados Unidos, México, Chile, Uruguai, Espanha, Itália, Holanda, Taiwan, Japão e Austrália. Em 2011, foi convidado pelo Ministério do Turismo da Itália para conhecer o país e se inspirar para produzir uma obra que hoje se encontra no acervo do governo italiano, em Roma.

André desenvolveu um estilo único, forte, mas, ao mesmo tempo, delicado. Agressivo, mas sempre poético e, acima de tudo, espiritual. Seu trabalho tem muitas características surrealistas, onde seus sonhos e memórias ganham formas e cores, dando vida a um universo onírico e místico. Sua obra questiona a relação entre a mente e a alma, a fantasia e a realidade. Retrata encontros com o “eu” interno, onde o próprio processo artístico, o ato de pintar, serve como meditação e reza. Para o artista, a arte é a maior expressão de sua alma.

Filur busca inspiração em povos indígenas, tribos e culturas antigas diversas. A influência oriental também fica clara em seus traços feitos com tinta spray, canetas e pinceladas sempre usando a cor preta. Seus personagens parecem sussurrar misticismo em nossos ouvidos. Figuras singelas, cujos gestos retratam a tentativa de comunicação entre o interior e o exterior, tanto do próprio criador quanto do expectador.

André Filur hoje vive e trabalha em São Paulo e é representado pela Casa Galeria SP.

 

VAMOS OBSERVAR

 

André Filur

O Sol Brilha para Todos, 2018

Tinta acrílica, tinta acrílica em spray, caneta à base d’água sobre tela.

80 x 120 x 6 cm

 

O Sol Brilha para Todos é uma referência à frase “O sol nasce para todos, mas brilha mais para aqueles que acreditam que o amanhã será sempre melhor que hoje, e a solidariedade ainda é a melhor virtude de um ser humano”, de Edivam Passos.

A obra é a representação visual desta frase para o artista. Para Filur, a obra é um mantra sobre positividade. “Por mais sozinhos que nos sentimos em certos momentos, se não desistirmos e mantivermos o equilíbrio entre a mente e a alma, venceremos na vida”, diz Filur.

Cada elemento na obra tem um significado importante: o sol é a representação da luz, do brilho, da vida, da prosperidade e da oportunidade de realizarmos sonhos; os peixes representam o equilíbrio mental, o Yin Yang, a calma e a paciência, o bem e o mal, sentimentos que tomam conta da nossa mente; a cabeça é a representação da alma, sempre de olhos fechados, olhando para dentro de si mesmo, em meditação; a mão representa a bênção, a mão amiga, a mão criadora do artista, que produz a obra de arte; o ambiente deserto remete a estar sozinho, solitário, como o artista solitário criando em seu estúdio.

Se fizermos uma linha imaginária, passando por todos os elementos da obra (do sol à mão e de um peixe ao outro), veremos uma cruz que, de acordo com o artista, representa a espiritualidade e a fé.

As cores usadas na obra, amarelo e ocre, nos remetem à alegria, que se justapõem com a expressão do personagem, serena, de olhos fechados e enterrado na areia. Os traços soltos e respingos de tinta contribuem para um cenário surreal, onde peixes voam debaixo de um sol escaldante no meio do deserto. A mão emergindo da areia é mais do que um elemento de composição no quadro. É mais que provável já ter visto este gesto em muitos quadros de inspiração religiosa cristã. O gesto em questão simboliza o ato de benzer e começou a ser utilizado nos primórdios do cristianismo. O símbolo remete à cultura romana, a um gesto que era associado a alguém que queria falar. Depois do Edito de Milão, quando Constantino despenalizou o cristianismo, esse movimento ganhou popularidade e, em pouco tempo, foi assimilado por esta nova religião que nascia.

A linguagem artística tem uma característica própria, que é conseguir comunicar além da linguagem falada ou escrita, porque se trata da comunicação das emoções, do inconsciente, da ordem do indizível. Por isso é um excelente recurso para o autoconhecimento e o crescimento pessoal. É também um instrumento de catarse, isto é, uma forma poderosa de colocar para fora tudo aquilo que não está resolvido emocionalmente. Talvez esta seja a mágica criativa da arte, a de transformar sentimentos e emoções em possibilidades libertadoras. A arte de André Filur é um espelho, não para ver seu próprio rosto, e sim para ver sua alma.


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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