Em 13 de maio de 1888, foi aprovada a Lei Áurea que colocou fim à escravidão dos negros no Brasil. Desde então, o assunto está nos livros de História e é narrado por professores da Educação Básica aos alunos a partir de cerca de 8 anos de idade.

Mas será que a forma como a história é contada está tendo um impacto positivo nos estudantes brasileiros? Os jovens estão saindo da escola conscientes da importância da igualdade racial plena e prontos para assumir seu papel como cidadãos e lutar por um país cada vez mais igualitário?

A escravidão teve e tem inúmeros fatores que impactam na sociedade atual. De maneira geral, as desigualdades raciais verificadas hoje têm sua origem nas maneiras como a população negra foi tratada no contexto pós-abolição.

“Os postos de trabalho remunerados foram ocupados majoritariamente por imigrantes europeus. Libertos não receberam terras ou qualquer outro tipo de política que compensasse os anos de trabalho compulsório e possibilitasse a construção da cidadania a partir de condições mínimas como acesso à saúde, à moradia, à educação etc.”, explica Luciana Alves, pró-reitora Adjunta de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas na UNIFESP e consultora de educação e relações raciais. “Na competição por postos de trabalho, os empregadores davam preferência a trabalhadores brancos, restando aos negros as atividades mais precárias e de pior remuneração”.

Além da diferença de oportunidades no mercado de trabalho, há ainda os padrões culturais excludentes que configuram estereótipos negativos à pessoa negra, colocando-a como alguém de ‘raça inferior’. “Para além da desigualdade, essas depreciações dificultam a construção de uma imagem positiva de si para negros, especialmente as crianças e os jovens”, reforça Luciana.

Educar para as relações raciais

Para mudar essa realidade, é preciso um trabalho árduo que começa inevitavelmente pela educação. No Colégio Rio Branco, localizado em São Paulo, o tema é abordado sob diferentes perspectivas, iniciando já no 3º ano do Ensino Fundamental, com alunos de 8 anos.

“Especialmente a partir das séries finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, a escravidão é trabalhada por meio de histórias em quadrinho, livros paradidáticos, livro didático, além de debates, discussões e muitas rodas de conversa”, conta Mirtes Timpanaro, coordenadora de História do Colégio Rio Branco.

“Com esses recursos, falamos sobre o patrimônio cultural material e imaterial como forma de resistência da população negra, sobre a religião, a língua e a cultura, valorizando a diversidade africana. Também abordamos o processo abolicionista, pontuando o protagonismo dos escravizados, a sua luta contínua por liberdade e tantos outros temas relevantes para entender todo o processo e o papel do negro na sociedade”, acrescenta Mirtes.

O tema pode e deve ser trabalhado nos diferentes momentos da escola. Pequenos cuidados diários são incorporados na rotina das crianças e dos jovens. “Uma questão que pode parecer um detalhe, mas que faz toda a diferença, é prestar atenção aos termos utilizados, tais como escravizados no lugar de escravos. O termo escravo denota uma condição nata, quando, na verdade, eles foram obrigados a estar naquela posição”, ressalta Mirtes.

E, além disso, há os grandes encontros, como a reunião de alunos de diferentes séries para compartilhar leituras e, a partir delas, abrir para debates sobre o paradoxo da tolerância, sobre o nosso momento atual, sobre o aumento de grupos neonazistas e as escolhas desses grupos por perseguirem negros, por exemplo.

Para Luciana Alves, “é preciso ensinar as crianças e os jovens a pensar diferente a respeito da raça, das desigualdades, de seu papel como brancas no combate ao racismo e como negras na resistência a ele. É preciso apoiar a construção de subjetividades negras que transbordem autoestima, autocuidado, politização para identificar e se posicionar frente à depreciação de sua pertença racial. Enfim, é preciso, de fato, educar para as relações raciais”.

“A escola é o local de entender que o mundo é melhor quando se vive junto, quando se vive com e pelo outro e não contra o outro”, conclui Mirtes.

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