Cotidiano com erotismo

A arte brasileira sentirá saudade da arte audaciosa de Ivald Granato

Ivald Granato nasceu em Campos, Rio de Janeiro. Era pintor, escultor, gravador, desenhista e artista multimídia. Teve uma carreira de mais de 50 anos, reconhecida e premiada. Ficou conhecido por sua arte performática experimental e por ser um dos pioneiros nesta categoria no Brasil.

Granato começou a pintar muito cedo, inspirando-se em obras cubistas. Por um breve período, cursou a Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. Sua obra bidimensional destaca-se pela espontaneidade e vivacidade, apresentando pinceladas vibrantes e, muitas vezes, tintas escorridas. Em seu trabalho está sempre presente o traço autobiográfico.Apresenta obras que reúnem as referências ao cotidiano, o caráter fantástico e o erotismo.

Suas performances emergem da fusão de pinturas, música e teatro. O produto de cada performance (a roupa, a fotografia, o cartaz, enfim, qualquer suporte que tenha sido empregado na ação) transformava-se em pintura e objeto artístico. Ele assumia sua condição de pintor, e a performance era a decorrência do seu fazer artístico.

Não podemos esquecer que a obra de Ivald surgiu em plena ditadura militar. Todos estavam presos nas malhas desta condição e, nessa relação dialética entre o contido e o liberto, ele exercita a distinção entre o novo e sua diluição. Granato criou zonas de diversão em uma época em que o performer surpreendia o público e inventava o lugar do jogo e da diferença. Não havia galerias nem zonas demarcadas, apenas uma vontade obsessiva de se expressar.

Na década de 1960, a performance artística surgiu como uma modalidade de manifestação artística interdisciplinar que – assim como o happening – podia combinar teatro, música, poesia ou vídeo, com ou sem público. É característica da segunda metade do século 20, mas suas origens estão ligadas aos movimentos de vanguarda (Dadaísmo, Futurismo, Bauhaus etc.) no início do século 20.

Diferia do happening por ser mais cuidadosamente elaborada e não envolver, necessariamente, a participação dos espectadores. Em geral, seguia um “roteiro” previamente definido, podendo ser reproduzida em outros momentos ou locais. Era realizada para uma plateia quase sempre restrita ou mesmo ausente e, assim, dependia de registros – como fotografias, vídeos e/ou memoriais descritivos – para se tornar conhecida do público.

Nos últimos anos, Granato se dedicou mais à pintura e à organização de sua própria obra. Também era confessamente metódico, mas, segundo ele mesmo, não era chato. Acordava às 6 horas e trabalhava em seu ateliê com organização – não como se fosse uma obrigação ou uma fábrica, mas com o espírito livre e despretensioso. Essa liberdade criativa não o impedia de calcular cada gesto, mesmo que fosse visceral.

A obra de Granato ficou marcada pela ironia, o humor e a crítica ao establishment artístico. Uma mistura de Chacrinha e Artaud, Granato protagonizou tentativas de popularizar a arte, como a “ocupação” Mitos Vadios, uma paródia à primeira e única edição da Bienal Latino-Americana (1978), que tinha o título Mitos e Magia. Tudo em plena Rua Augusta, em sua época de ouro, onde ele convidou para “vadiar” Antonio Dias, Arthur Barrio, Hélio Oiticica, Claudio Tozzi, Gabriel Borba, Ana Maria Maiolino, Regina Vater, a argentina Marta Minujin, todos sob a bandeira do “viva e deixe viver”.

Granato chegaria ao local de helicóptero, mas a FAB proibiu a decolagem e ele chegou a pé, representando My Name is not Ciccillo Matarazzo, paródia sobre o presidente da Bienal de São Paulo, de braços dados com Lygia Pape, travestida de Yolanda Penteado, mulher de Ciccillo.

Na caixa de som, o Rolling Stones tinha a preferência, enquanto cartazes exibiam slogans que diziam “Quem não tem Hyde Park vai de Unipark”, “Estacionamento ocupado pelos vadios” e “O Mercado de Arte é o Preservativo da Criação”.

Performance é um dispositivo de trânsito, de cruzamento e de sucessões, tudo muito rápido para mentes desabituadas ao choque. Na trilha de Granato se ordena um mundo de “loucos” que, como ele, querem escapar da rotina do ateliê. Há quem jure ter ouvido a voz de Polonius, personagem de Hamlet, atrás da cortina: “Há método nessa loucura”.

Ivald não tinha um método ou técnica excepcional que o fizessem se destacar em uma área específica das artes. A sua arte era, em si”, a vontade de se expressar, de protestar, de todas as formas possíveis, sem saber como ou de que forma. O resultado é este: uma explosão de cores, sons, gestos e ideais.

O artista faleceu em 2 de julho de 2016, em São Paulo, aos 66 anos, provavelmente, raptado pelo Urubu Eletrônico, que o levou em suas asas para a performance final em GRAN-ATO! Se o choque da perda é uma condição momentânea, a arte dele é infinita.

Por Milenna Casseb Saraiva, artista visual, formada pelo Santa Monica College, Los Angeles. Também é galerista da Casa Galeria, espaço de arte contemporânea. www.millena.com | www.casagaleriasp.com

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