Cotidiano: Imprudências

"Entre outras características do Brasil, a imprudência e a ousadia de alguns motoqueiros", escreve Marcos Sá.

Depois de uma temporada por terras norte-americanas, a volta sempre nos leva a alguns questionamentos e indagações. Foram 20 dias na Flórida e lá, obrigatoriamente, você tem de seguir as regras e as leis americanas, caso contrário, pagará caro por omissão ou, pior, pode parar atrás das grades por infrações menores. Já vi brasileiro passar a noite na detenção por ter feito xixi na estrada. Não há impunidade nem complacência com quem infringe a lei, e o que não falta é policiamento. Não existe o jeitinho brasileiro, a tolerância é zero, a polícia é admirada e ninguém está acima da lei. Se infringir a lei, a “jiripoca vai piar” e a “cobra vai fumar”. Policial subornável, delegado conhecido ou a famosa “carteirada”, nem pensar. Bebeu e dirigiu, se for pego, cadeia! O policiamento é severo e eficiente. Basta cometer um pequeno deslize que um policial brota do nada para te enquadrar. O efeito dessa rigidez é que você rapidamente tem de se enquadrar nas regras, que são fáceis, lógicas e bem-feitas. Com obras de engenharia bem executadas e avenidas que são estradas com seis pistas de rolamento, você dirige sem stress, sem solavancos e com alto nível de segurança. Sem risco de assaltos e sem motocicletas enlouquecidas te ultrapassando por todos os lados. Você não precisa fazer malabarismos no volante para sobreviver. De volta ao Brasil, começam os sustos. É que no dia a dia, por aqui, nos acostumamos com algumas barbaridades que se banalizam em razão da frequência, a repetição e a impunidade. Tal como o sapo que, colocado numa panela com água a aquecer, acostuma-se com a temperatura e morre sem pular fora quando a água ferve, nos acostumamos paulatinamente com os absurdos e, sem alternativa, a vida continua. Somos um país que não aprende com a história e as tragédias se repetem indefinidamente. Ruas malconservadas, trânsito sem planejamento, viadutos que despencam, assaltos, chacinas, roubos, corrupção, a violência agora em níveis de guerra no Rio de Janeiro, as tropeçadas do nosso STF com o prende e solta, morde e assopra conforme a conveniência, e nada muda. Mas vou focar num fator que chamou muito a atenção na minha volta. A imprudência e a ousadia de alguns motoqueiros. No período em que fiquei fora, me desacostumei das suas ultrapassagens acrobáticas. Surpreendo-me, a cada dia, com as imprudências de alguns dos kamikazes de duas rodas. As ultrapassagens são feitas pelos dois lados em todas as pistas. Como a regra de trânsito permite que se ultrapasse somente pela esquerda, o motorista nunca espera uma ultrapassagem pela direita. Mas é o que mais acontece. Não importa em que pista você esteja. Ao abrir espaço para um motociclista passar pela esquerda, você vira o carro mais para a direita, e depara com outro motociclista passando à toda velocidade. O mais impressionante é a velocidade com que alguns passam entre as filas de congestionamento com o trânsito parado. Qualquer movimento diferente de algum dos carros enfileirados pode ser fatal, mas parece que o perigo não mora ali. Como não há policiamento as leis de transito não são respeitadas. Acidentes fatais com motos acontecem na proporção de um por dia só na cidade de São Paulo. Segundo especialistas, são muitos os fatores que podem explicar o rápido crescimento das mortes de motociclistas, mas todos os estudos recentes apontam que as causas principais são procedimentos de risco dos próprios condutores, como andar no chamado corredor das vias, e também o consumo de álcool. Se o risco de morrer em uma colisão de automóvel já é significativo, sobre uma motocicleta essas chances são 20 vezes maiores. Esse número sobe para 60 vezes se a pessoa não estiver usando o capacete. Motoristas impudentes existem aos montes e também são, em grande parte, culpados pelos acidentes com motos, mas o que intriga é a atitude de alguns motoqueiros que não enxergam tais riscos e pilotam como se não houvesse amanhã!

Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

 


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