
A paralisação de estudantes da Universidade de São Paulo (USP), iniciada no último dia
15 de abril, colocou a capital paulista no centro do debate sobre permanência
estudantil, estrutura universitária e financiamento do ensino superior público. O
movimento atinge diferentes campi da instituição e reúne reivindicações que vão
desde questões alimentares até demandas relacionadas a verbas e gestão,
direcionadas à reitoria e ao Governo do Estado de São Paulo, sob gestão de Tarcísio de
Freitas.
A poucos quilômetros da Cidade Universitária, localizada no bairro do Butantã,
estudantes de Cotia convivem diretamente com os impactos da paralisação. A
proximidade geográfica entre o município e um dos principais centros acadêmicos da
América Latina faz com que a rotina universitária de muitos jovens cotianos esteja
diretamente ligada ao funcionamento da instituição.
Diariamente, linhas intermunicipais que conectam o Terminal Butantã até Cotia,
muitas vezes seguindo até Caucaia do Alto, como os itinerários da EMTU “035 – Cotia
até Mirante” e o “396 – Terminal Cotia”, transportam calouros e veteranos rumo às suas
residências. O fluxo evidencia a forte presença de estudantes da chamada “cidade das
rosas” na USP e, com a atual mobilização, passou a refletir também as incertezas e
debates provocados pela paralisação.
Diante desse cenário, estudantes residentes em Cotia foram ouvidos para
compreender como o movimento tem impactado suas trajetórias acadêmicas, além de
reunir percepções e expectativas em relação à greve.

Entre os entrevistados, o estudante da Licenciatura de Matemática da USP e morador da região de Caucaia do Alto, Luis Surim, avalia que os impactos ainda são limitados no curto prazo, mas alerta para possíveis prejuízos caso a paralisação se prolongue. “Por hora, a paralisação ainda não atingiu um período grande a ponto de afetar minha graduação. Apesar disso, caso ela se estenda, corro o risco de atrasar matérias ou ter que estudar sozinho para provas, já que os professores não conseguem dar aulas, o que acaba precarizando meu aprendizado como profissional”, afirma.
Ao abordar a pauta de permanência estudantil, o aluno destaca que sua trajetória
influencia diretamente sua percepção sobre o tema. Segundo ele, o auxílio financeiro
oferecido pela universidade foi fundamental no início da graduação.
“Uma das pautas é o aumento do auxílio permanência, que foi de extrema importância no
meu primeiro semestre, especialmente para custear o deslocamento até a faculdade
enquanto eu ainda não tinha acesso ao cartão de transporte”, explica.
Em relação à condução da crise, Luis é crítico à atuação institucional e aponta falhas no
diálogo entre a administração central e os estudantes.
“A reitoria vem se esquivando de reuniões e acordos com os estudantes, fazendo apenas
anúncios oficiais que não garantem nada aos alunos”, avalia.
Como possível encaminhamento para o impasse, o estudante defende maior abertura
ao diálogo e medidas estruturais por parte da universidade.
“Acredito que a reitoria deveria ampliar o diálogo com os estudantes e reduzir a distância
entre os diferentes grupos dentro da universidade. Além disso, seria importante avançar,
ainda que gradualmente, na contratação de novos professores e no aumento dos auxílios. A
partir disso, pode-se construir um ambiente com mais representatividade estudantil,
evitando que greves se tornem o único caminho para que as demandas sejam ouvidas”,
conclui.

Já a estudante de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da USP, Carolina Cayana Luna, residente na região da Granja Viana, apresenta uma percepção distinta sobre o movimento. Para ela, a mobilização estudantil faz parte da dinâmica histórica da
universidade. “Acredito que esse tipo de movimento sempre fez parte do que a universidade defende e apoia”, afirma ao ser questionada sobre impactos mais amplos da paralisação.
Ainda assim, a estudante aponta dificuldades no acesso à informação, especialmente
para alunos que não estão diretamente envolvidos com a mobilização.
“Apesar de, por meio das redes sociais, ser possível acompanhar parte do que acontece, fica confuso para quem não tem tanto acesso, e ainda mais para pessoas mais introvertidas”, explica.
Sobre sua experiência inicial na universidade, Cayana relata uma adaptação mais
desafiadora do que o esperado, principalmente em razão das diferenças na formação
educacional. “Coloquei bastante expectativa. A universidade é realmente boa, mas não me pareceu muito acolhedora. O impacto da diferença entre a minha formação no ensino médio e o nível exigido aqui foi bem maior do que eu imaginava”, diz.
Em relação às pautas da paralisação, a estudante reconhece a legitimidade das
reivindicações, embora não acompanhe o movimento de forma ativa.
“Acho uma luta importante, principalmente diante de questões que envolvem direitos dos
próprios estudantes. Mas, sinceramente, não tenho acompanhado muito de perto”, admite.
No caso específico da Escola Politécnica da USP, ela afirma que os impactos
acadêmicos ainda são reduzidos, uma vez que as aulas seguem ocorrendo, ainda que
com adaptações. “As aulas não pararam. Algumas foram transferidas para outros prédios, então não houve um atraso significativo até agora”, relata.
Por outro lado, a estudante reconhece que a rotina pessoal pode ser afetada de forma
indireta e destaca que a participação estudantil nas decisões têm ocorrido de maneira
democrática. “Houve votação entre os alunos sobre participação e piquetes, então foi um processo justo. Não vi veteranos tentando influenciar quem pensa diferente, apenas incentivando a participação”, pontua.
Quanto às expectativas para o desfecho da paralisação, Cayana acredita que a solução
depende principalmente da postura da administração central da universidade.
“Acho que depende muito da disposição do reitor em dialogar e negociar. Como houve recusa em momentos anteriores, isso pode acabar prolongando a situação sem necessidade”, conclui.
Para além das diferentes percepções sobre a adesão ao movimento, os relatos
evidenciam um ponto em comum: a paralisação expôs fragilidades estruturais e

ampliou o debate sobre o papel da universidade pública e as condições de permanência estudantil. Entre impactos diretos e visões distintas, estudantes de Cotia refletem, a
partir de suas realidades, os desafios enfrentados dentro da Universidade de São
Paulo. O desfecho da paralisação ainda é incerto, mas o cenário já indica que, mais do
que uma interrupção temporária das atividades, o movimento reacende discussões
sobre acesso, diálogo institucional e qualidade do ensino superior no Brasil.
Por Davi de Oliveira, estudante de Direito na USP, “cotiano adotivo” desde 2015.
Nota da Redação: Estudantes da USP seguem em greve, mesmo após a reitoria encerrar as negociações e apresentar sua proposta final nesta segunda-feira (04/05). O principal impasse envolve o PAPFE, Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil. A USP propõe reajuste pelo IPC-Fipe, com auxílio integral de R$ 912, enquanto os alunos pedem valor equivalente ao salário mínimo paulista, hoje em R$ 1.804.













