Didu Russo e a gangorra do mercado dos vinhos

Em entrevista ao Circuito Almanaque Didu Russo apresentou um pouco o panorama do consumo de vinhos e das notícias que vem percorrendo o Brasil em torno do aumento da venda de vinhos no primeiro semestre de 2020 na faixa de 37%.

Eduardo Granja Russo, mais conhecido por Didu, atua no mercado de vinhos há mais de 20 anos. Por sua paixão pelo vinho, idealizou e fundou em 1999 a Confraria dos Sommeliers, que reúne os melhores Sommeliers de São Paulo todos os meses, para degustar vinhos às cegas e avaliar o que há de melhor no mercado.

Em entrevista ao Circuito Almanaque Didu Russo apresentou um pouco o panorama do consumo de vinhos e das notícias que vem percorrendo o Brasil em torno do aumento da venda de vinhos no primeiro semestre de 2020 na faixa de 37%.

“É fato de que o consumo de vinho cresceu, mas devemos analisar esses dados com cautela pois existe uma falsa ideia de que o mercado brasileiro está explodindo. Essa informação nasceu após uma entrevista de uma empresa que faz auditoria de números que divulgou um balanço de consumo “per capita” considerando apenas os adultos e que acaba resultando em uma diferença extraordinária. E isso não é correto pois “per capita” é um conceito que engloba todo mundo e não apenas um nicho.”, alertou Didu. Esse formato de avaliação teria ocorrido por solicitação do Ministério da Saúde com base nas leis que proíbem o consumo de bebidas alcóolicas para menores de idade.  “Isso é um absurdo matemático, em nenhum lugar do mundo se avalia dessa forma. Esta leitura acabou elevando o consumo médio de vinho per capita do brasileiro que saiu de 1,8 litros (que sempre foi uma média nacional) para 2,60 litros.”

O especialista citou Portugal como exemplo de “per capita” lembrando que o país recebe anualmente turistas que somam três vezes o volume de habitantes. “Quando medem o que foi vendido de vinho em Portugal em um ano o “per capita” português sai como “per capita” de Portugal. Mas veja só, não foi o português que tomou todo esse vinho e sim todos os que estiveram em Portugal, além dos portugueses. Então é necessário esperar dar um ano para termos base de comparação com o ano passado.” Didu ressaltou que provavelmente os resultados da próxima “per capita” de Portugal serão muito ruins pois as pessoas não puderam viajar e a queda será inevitável.

Segundo Didu os vinhos importados, nos últimos 12 meses, cresceram 15% em volume e, em valor unitário, 7%. “Lembrando que isso é o que foi importado e não o que foi vendido, claro que de certa forma é de se esperar que esse aumento de importação está diretamente ligado à demanda e reposição de estoque.”, alerta.

Sobre a média de consumo nacional o especialista afirma que infelizmente não existe um número oficial que aponte o consumo de vinhos pelo consumidor final, mas com sua experiencia de mercado há mais de 20 anos falou de números aproximados: “O brasileiro consome por ano cerca de 546 milhões de garrafas de vinho, desse volume, 366 milhões, ou seja quase 70% são aqueles garrafões de vinho, vinhos de mesa, inferior, popular. Esse é o líder do mercado. Depois nós temos 32.8760 milhões de garrafas de vinhos finos brasileiros. E 147.240 milhões garrafas de vinhos finos importados.”

Outro problema que mascara a realidade do consumo de vinhos no Brasil seria que o governo é o único que possui os dados exatos e não são compartilhados o que torna tudo muito complicado. “Nos números brasileiros temos um pandemônio. A Uvibra, que é a união dos viticultores brasileiros, só possui o número do Rio Grande do Sul que representa 90% da produção brasileira. Mas existem produtores no Vale do Rio São Francisco, em Minas Gerais, em São Paulo e outros estados.”, avalia.

Didu também alertou sobre o fato do Brasil possuir uma alta taxa de contrabando, superando os 15%.  “Um produtor chileno de vinho que prefiro não citar o nome, um vinho que é famoso e todos nós já tomamos, exporta para o seu importador no Brasil 400 mil caixas por ano, mas ele também exporta para o Paraguai outras 300 mil caixas por ano. É obvio que esse vinho sai do Paraguai e vem para o Brasil eventualmente até com o próprio importador. E é importante dizer que o maior incentivador dessa situação de contrabando e falsificação é o próprio governo brasileiro, porque são muitos os tributos e a burocracia. Sem contar o câmbio, é um pecado!”.

 DICAS DO DIDU

São Paulo é privilegiada em ofertas de vinho, são cerca de 30 mil rótulos diferentes (só Nova York e Londres alcançam ou superam essa linha) porém o gosto do brasileiro é para vinhos chilenos, argentinos e agora vinhos portugueses. Aposte em opções diferentes!

  • Da Eslovenia: Espumante Puklavec Estate Selection Sauvignon Blanc
  • Para deixar o preconceito de lado neste verão:
  • Vinho em Bag in Box tem ótimas alternativas – São 3 litros de vinho em torneirinha para deixar na geladeira e ir degustando quando der vontade.
  • Vinhos em lata, novidade que pode pegar nesse verão. Imagina uma lata de um bom rosé, espumante ou branco na praia, bem gelado?
  • Atreva-se no preparo das consagradas sangrias e clericots que tem tudo a ver com o verão.

Brasil na mesa:

Bons vinhos de mesa no país são raros de se encontrar, mas seguem duas dicas de produtores de vinhos artesanais que segundo Didu Russo valem a pena:

Lizete Vicari – Rio Grande do Sul

Famiglia Boroto

Relembrando

Didu Russo já foi capa da Circuito, e harmonizou vinhos nos restaurantes da Granja Viana. Confira: