Amanhã é Páscoa e, ontem, mãe e filha seguiram a tradição norte-americana: pintar ovinhos para o coelhinho. Enquanto no Brasil uma das grandes marcas desta data são os ovos de chocolate, nos Estados Unidos uma das tradições envolve ovos de verdade, decorados e pintados com tinta, ou ainda ovos de plástico feitos especialmente para a ocasião.

Pintar, aliás, é um dos hobbies da pequena Stella Mascia Foltynek, de apenas 4 anos, filha dos granjeiros Federico e Angela Mascia Foltynek. Quando o isolamento começou, a pequena pintou pedrinhas e a mãe escreveu mensagens de otimismo, entregue aos vizinhos.

O casal mora há 10 anos no Estados Unidos e, há 4, com o nascimento da filha, mudou-se para Martinez, na Califórnia, cidade que faz parte da Região da Baía de São Francisco e que tem “um parque regional lindo”, como define Angela, chamado Briones. “A cidade está bem mais calma e tranquila do que de costume, só saímos para caminhar ou ir ao supermercado, onde há filas, falta de produtos e, algumas vezes, certa tensão. Agora, muito mais pessoas usam máscara e há uma lei que proibiu levarmos nossas próprias sacolas, temos que usar as de plástico ou de papel do próprio supermercado”, relata.

Angela acaba de completar 40 anos e ri da situação: “que ironia… quarentenando”. A quarentena foi decretada por lá (e, diga-se de passagem, a Califórnia é o Estado mais populoso dos Estados Unidos) em meados de março, pouco antes do seu aniversário. Desde então, a população só pode sair de casa para comprar alimentos e remédios e para fazer exercícios físicos, mas respeitando restrições. As praias estão fechadas e um homem, inclusive, chegou a ser detido no dia 2 de abril em Malibu, porque praticava stand up paddle.

Atraída pela paisagem e pela natureza, a família usa o caminhar como válvula de escape durante este período. “Tem nos feito muito bem”, afirma. Quando o clima permite, fazem as refeições do lado de fora da casa, no jardim. “Isso nos ajuda e é uma delícia. Também temos cozinhado um pouco mais que de costume e feito receitas novas”, conta. Para manter contato com amigos, fazem “FaceTime” sempre que possível. “Nós estamos bem emocionalmente, na medida do possível. Eu achei que seria mais fácil e as duas primeiras semanas até foram, mas agora que já faz quase um mês, começamos a sentir falta das coisas corriqueiras que fazíamos, antes da quarentena começar”, revela.

O marido continua trabalhando, mas de casa. “Como ele é da área de tecnologia, então, por sorte não fomos afetados, mas o desemprego no país só aumenta”, conta com certo ar de preocupação. De fato, o mercado de trabalho americano sofreu um baque. Pedidos de auxílio-desemprego saltaram, mostrando que perto de 10 milhões de pessoas nos EUA deixaram de trabalhar nas últimas semanas. De acordo com analistas, os dados de emprego de abril podem ser desastrosos e mostrar números antes inimagináveis na faixa de 10 a 20 milhões.

Para Angela, este momento é “wake up call”. “A minha visão é que o mundo veja isso como um chamado mesmo, de que muita coisa tem que mudar. Perdemos muito da nossa essência, principalmente depois que a internet virou algo mais popular e de acesso fácil. Estamos mais conectados do que nunca, mas na verdade desconectados. E por isso, talvez, o confinamento seja tão desafiador para muitos: é difícil ficar sem sair, sem consumir e ser ‘obrigado’ a se reinventar enquanto família”, comenta.

Apesar de um cenário tão desanimador e desafiador, Angela é otimista e esperançosa. “Quero acreditar que, no retorno à vida normal, vamos entrar em contato com os nossos sentimentos mais nobres, como compaixão, solidariedade e menos egoísmo, individualismo e ganância. Espero que, depois, de seis meses as pessoas não se esqueçam de tudo isso que estamos passando. E que os líderes mundiais se unam em prol da humanidade, sem conflito de interesses ou ganância, apenas pelo bem de uma sociedade mais igualitária e justa”, finaliza.

Por Juliana Martins Machado