Chegamos ao começo de um ano novo. Quem é ou foi educado no cristianismo atravessou o mês de dezembro às luzes da família santa.
Mesmo em dezembro, 2020 foi um ano sem precedentes. E com ele fomos “convidados” a rever muitos dos nossos conceitos sobre família. A Covid-19 nos lembrou de nossas quatro paredes e dos indivíduos com os quais coabitamos.
Em janeiro, esta imagem da família ideal começa a se desvanecer frente aos desafios do dia a dia. Que continuam muitos, com ou sem vacina.
Não sei dizer se ganhamos ou perdemos neste convite que a vida nos fez. Ainda serão necessários anos e muitas pesquisas para se poder dizer isto com alguma precisão.
Da minha prática clínica, contudo, percebi empiricamente que as famílias que se ajustaram mais rápido passaram melhor pelo ano difícil. Como um time que se une para vencer um adversário forte. E seguramente vão encarar melhor 2021, que ainda traz muitos desafios pela frente.
Perdas e ganhos psicológicos são sempre muito subjetivos. De toda forma, podem ser observados na qualidade de vida do indivíduo e de seus relacionamentos.
Cerrados entre quatro paredes devido a pandemia, fomos instados a abrir os olhos para as dinâmicas familiares. Muito do que era apenas de fachada, caiu. O que estava nublado, se revelou.
Há ainda uma certa ilusão de que o que não é falado não é sentido. Há até um ditado para isso em português: o que os olhos não veem, o coração não sente. Em inglês, out of sight, out of mind. Será?
Não é bem assim em termos psicanalíticos. Desde que Sigmund Freud começou a empregar um método para lidar com o inconsciente por meio da interpretação dos sonhos, sabe-se que muito do que é percebido e causa incômodo nem precisa ser expresso.
Em Estudos Experimentais, por exemplo, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, idealizador da Psicologia Analítica, diz que é a atitude emocional dos pais e educadores que tem a maior influência sobre a pessoa em formação.
“A desarmonia latente entre os pais, uma preocupação secreta, desejos secretos e reprimidos, tudo isso produz na criança um estado emocional, com sinais perfeitamente reconhecíveis, que devagar, mas segura e inconscientemente vai penetrando na psique dela”.
Outro psicólogo, este ainda vivo e canadense, Alberto Bandura, propôs o reforço vicário, isto é, a noção de que o aprendizado pode ocorrer pela observação dos comportamentos de outros.
Para testar esta noção, Bandura usou um João-Bobo. Quando o brinquedo é apresentado pela primeira vez à criança, ela não manifesta reações hostis ao boneco. Se ela observa um adulto comportando-se agressivamente com ele, no entanto, passa a agredi-lo também.
O resultado, é que com o tempo a criança vai sendo levada “às mesmas atitudes e, portanto, aos mesmos estímulos do meio ambiente”, diz Jung na página 524 da obra.
Tudo é retratado inconscientemente no sistema familiar. Sabe-se que a criança pequena aprende por imitação. “Assim como os gestos dos pais são a expressão de seu estado emocional, esses gestos que ela imita vão produzindo aos poucos um estado emocional semelhante dentro dela”, pondera Jung.
Como os pais se colocam diante da vida, a criança também vai se colocando.
Por isso, Jung dizia que era preciso primeiro analisar os pais quando uma criança apresentava algum sinal de desajuste psíquico.
No outro extremo, há pais que falam demais, compartilhando seus próprios problemas e do mundo, sobrecarregando crianças ainda pequenas com um peso demasiado com os quais não têm capacidade de lidar.
Para os casais que falam de menos, um possível caminho é de usar mais os momentos de partilha, como as refeições, para treinar a habilidade da conversa. Sim, conversar demanda treino. Como foi o dia, o que foi feito, os planos conjuntos, as divisões de tarefas mesmo para os pequeninos, na medida do que podem ajudar.
Para os que falam demais, gosto sempre de recomendar A Vida É Bela, filme italiano de 1997 dirigido e estrelado por Roberto Benigni.
A comédia dramática se passa na Segunda Guerra Mundial. Benigni interpreta um judeu que tinha uma livraria judaica na Itália de Mussolini.
Ele e seu filho pequeno, Giosué, são capturados e enviados para um campo de concentração em Berlim.
Para proteger o filho do horror que estão vivendo, Benigni usa de leveza, espirituosidade e humor para mergulhar a criança num mundo imaginal, fazendo-a crer que estão em um jogo.
Em outras palavras, a metáfora é a de que estamos mergulhados num mundo incerto em que o futuro garantido é coisa do passado – o que alavanca às alturas o medo e com ele a ansiedade.
Neste cenário de insegurança, o que os pais podem fazer de melhor no momento é oferecer dias de paz e convivência decente entre os membros de sua família – qualquer que seja a configuração que ela tenha hoje em dia.
Nosso presente hoje talvez seja isso: o desafio de estar mergulhados num mundo impermanente, em que nada é para sempre, mas no qual temos de vigiar e cultivar o melhor de nós a cada instante. Mesmo sabendo que erramos dia sim e no outro também.
Dra. Monica Martinez
Psicanalista junguiana, atende presencialmente e online na Vila Madalena e na Granja Viana. Site: www.monicamartinez.com.br.















