A narrativa sobre o Jardim Belizário, localizado próximo ao Km 30 da Raposo Tavares, se inicia em meados de 1900 com João Bento Antônio Pires, natural de Cotia, e sua esposa, Anália Pires, descendente de italianos. O casal que se conheceu na região são os pais de Belizário Antônio Pires, Benjamim, Firmino e Rafael.

João era proprietário de vastas terras pela região, sua competência era a agricultura e por meio da profissão sustentava sua família e contribuía para geração de emprego de moradores dos arredores.

Na década de 1960, após sua morte, suas terras foram dividas entre os quatro filhos. Belizário, o primogênito que sempre trabalhou em olarias, mudou-se, em 1964, para a região que anos depois carregaria seu nome, homenageado pelo prefeito Carmelino Pires de Oliveira.

Belizário casou-se com Noemia de Jesus Pires e dessa união tiveram sete filhos: Aurora, Iocélio, Benedicta (Dita), Izildinha, Irineu, Joana D’Arc e Maria. Dois dos filhos morreram ainda crianças, Aurora e Irineu, os demais permanecem vivos.

Quem nos conta essa trajetória com carinho é uma das filhas de Belizário, Benedicta de Jesus Pires, que com esforço para resgatar as lembranças dos pais, abriu o álbum com as fotos da família para explicar a cronologia.

Hoje, aos 69 anos, lembra que chegou ao bairro aos 14, quando tudo não passava de vales e áreas verdes com pouquíssimas casas de pau a pique. “Foi em 1964 quando o pai fundou sua própria olaria”, recorda.

Na olaria era realizada a produção de tijolos, os mesmos que ajudaram a construir grande parte das casas do bairro. Além de ter esse papel para história do povoado, sua construção também era de princípios e valores e fez questão de passar adiante aos seus filhos, familiares e funcionários.

Brincalhão, sempre com um sorriso no rosto e com uma piada pronta, é assim que sua filha se recorda dele.

Apesar da ampla terra herdada, nas décadas de 1950 e 1960, ter posses de grandes terrenos não significava riqueza, pelo contrário. Apesar de o homem que teve uma visão empreendedora que, além de ter seu próprio negócio contribuía para empregar moradores da região, a vida da família Pires após a década de 1960 não era só flores.

Dita conta com dor de um período de muito sofrimento. “A única recordação que ficou daquele tempo foi muito trabalho e pouco retorno, houve situações de necessidade”, relembra.

Há mais de meio século, a família deixou marcas que estão enraizadas até hoje na história do bairro e que os moradores mais antigos relembram com muito afeto.

Regularização

O conceito de mercado imobiliário começou no Brasil em 1964. Antes disso, não havia uma forma de medir essas riquezas, tampouco lucrar tanto quanto hoje em dia com venda de terras.

Grande parte dos terrenos no Jardim Belizário foi conquistada na base da troca – o escambo era uma prática muito comum na época. Trocar pedaço de terra por comida, bicicleta, charrete, galinha, cavalo etc., era algo habitual. Por esse motivo, poucos moradores do bairro possuem escritura, a maioria apenas tem um contrato de compra e venda e muitos ainda lutam por essa formalidade.

Em agosto deste ano, foi anunciado pela Secretaria de Habitação de Cotia, o Programa de Regularização Fundiária Urbana ‘Cidade Legal’, o Cadastramento Social para Regularização Fundiária dos imóveis do bairro Jardim Belizário. A finalidade do programa é a realização do cadastro dos imóveis no cartório e a entrega das escrituras aos proprietários dos lotes de forma gratuita.

 

Por Caroline Lima