Marcando vidas com a arte

História do tatuador Everton Ferreira

As tatuagens fazem parte de culturas encontradas em diferentes épocas, carregando diferentes significados para as pessoas. Foi uma forma de expressão artística muito utilizada pelas mulheres egípcias como forma de representação ritualística, por guerreiros cristãos na época das cruzadas e ficou ainda mais popular quando marinheiros passaram a adotar esses registros em suas viagens.

No Morro do Macaco, esta representação cultural é marcada por um profissional que é referência em toda a região por seu trabalho diferenciado e sua história na comunidade. Fundador e proprietário do Al Capone Studio, Everton Ferreira, 33 anos, atualmente é reconhecido por seus trabalhos como tatuador, mas já trabalhou fazendo pinturas artísticas em muros e outras atividades visuais pelo morro, uma delas até foi tema de divulgação pela copa do mundo há alguns anos.

Sua relação com essas atividades começaram muito cedo, quando ainda tinha 12 anos. A admiração pela tatuagem sempre despertava seu interesse em aprender mais, mas não havia muita oportunidade nem era uma coisa muito comum na comunidade. “Para fazer uma tatuagem naquele tempo, a pessoa tinha que ter dinheiro. Era caro porque era novidade. Então não era todo mundo que tinha condições para estar tatuando não”, comenta.

Foto: Marcos Batata/ @cinekordel

Ao longo de sua trajetória, percorreu um longo caminho de aprendizado e experiências até chegar à posição de referência e respeito na comunidade. Sempre precisou trabalhar fora para se manter e, com isso, não sobrava muito tempo para dedicar em estudo e aperfeiçoamento. O tatuador conta que procurou um equilíbrio para seguir com as atividades, trabalhando durante o dia e fazendo tatuagem à noite. Fez até algumas amizades com profissionais mais experientes que iam passando algumas dicas de técnicas que faziam diferença nos resultados. “Tem que ter paciência até você se aperfeiçoar. Levei muitos anos trabalhando fora e fazendo tatuagens quando tinha os tempos vagos. Ai com o tempo fui tendo acesso aos materiais mais profissionais”, diz.

Para quem se interessa por esse segmento, há especializações que contemplam de introdução básica, design de rosto e sombras a categorias de aperfeiçoamento e finalização. Mas é um investimento que pode ser relativamente caro para jovens da periferia e até difícil, quando os resultados práticos aparecem mesmo com tempo e dedicação do aluno e nem todos possuem essa oportunidade.

“Aprendi na prática mesmo, nunca fiz curso, não que não precise, é como eu falei a tatuagem é infinita e vai só evoluindo, então estudar para dominar as técnicas é bom e tem bastante cursos para se fazer. Mas mesmo para quem sabe desenhar, mas não tem experiências, é difícil. É uma atividade que você precisa praticar. E se você quiser fazer um ano de curso, vai precisar de muito dinheiro”, afirma.

Everton Ferreira (Foto: Marcos Batata/ @cinekordel)

Já deu para entender um pouco que se tornar um tatuador profissional não é tarefa fácil, e na periferia as chances acabam sendo ainda mais desafiadoras. Além disso, Everton também enfrentou dias difíceis até conquistar seu espaço para trabalhar com as atividades que ama. Ficou um tempo afastado das tatuagens e, há cerca de seis anos, retornou com seus objetivos de montar seu empreendimento voltado para esse segmento. Hoje é casado, dono do próprio negócio e espera continuar evoluindo não apenas como profissional, mas como pessoa. “Para mim ser tatuador é ótimo. Estar fazendo uma coisa que eu gosto além de estar trabalhando para mim mesmo, claro que tem muita responsabilidade também, mas é ótimo estar ainda aprendendo com a tatuagem e evoluindo como pessoa”, define.

Everton Ferreira tem essência de artista e reconhecimento dos moradores do Morro do Macaco, por isso quando o assunto é tatuagem, a procura é sempre pelo profissional que tem seu papel na cultura da comunidade e é protagonista de mais uma história inspiradora.

Por Eric Ribeiro

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