Durante muito tempo, os vinhos tintos dominaram com folga a preferência do consumidor, especialmente no Brasil, onde o imaginário coletivo associa vinho à cor rubi e aos dias frios. Mas os ventos estão mudando. Com frescor, acidez vibrante e um perfil gastronômico cada vez mais valorizado, os vinhos brancos ganham terreno no mundo todo, e o Brasil, aos poucos, entra nessa onda.
Embora os tintos ainda liderem em volume, a participação dos vinhos brancos no mercado brasileiro tem crescido de forma impressionante. Relatórios recentes da Ideal Consulting e do Ibravin (Vinhos do Brasil) apontam essa ascensão. Mesmo em anos de oscilação no consumo geral de vinhos, a fatia dedicada aos brancos apresenta crescimento percentual superior, um indicativo claro de mudança de comportamento do consumidor.
Outro bom termômetro são os dados de importação: embora os tintos ainda sejam maioria, as importações de vinhos brancos têm crescido significativamente, especialmente vindos de países como Chile, Argentina, Portugal e França. E mesmo que o consumo per capita de vinho no Brasil ainda seja modesto se comparado aos países europeus, o interesse crescente pelos brancos tem contribuído para a elevação gradual desse indicador.
Foi justamente com esse olhar curioso e encantado pelos brancos que visitei recentemente o Domaine de Chevalier, em Pessac-Léognan, ao sul de Bordeaux. No coração de Léognan, a poucos quilômetros da cidade, o Domaine se destaca como um dos raros Crus Classés de Graves para tintos e brancos.
Fundado no século XIX, o Domaine foi adquirido pela família Bernard em 1983 e desde então é comandado por Olivier Bernard, figura de grande prestígio no mundo do vinho. Sob sua liderança, a propriedade passou por um processo de modernização cuidadoso, sem abrir mão da identidade histórica e da expressão do terroir. O lema da casa, aliás, reflete essa filosofia: “Le plus grand vin de ma vie, c’est celui que je ferai demain”, “O maior vinho da minha vida é aquele que farei amanhã”.

Chevalier Blanc,
elaborado com 70%
de Sauvignon Blanc
e 30% de Sémillon
O Domaine de Chevalier Blanc, elaborado com 70% de Sauvignon Blanc e 30% de Sémillon, é reconhecido como um dos grandes vinhos brancos secos de Bordeaux (e do mundo!). Com potencial de guarda de até 30 anos ou mais, revela uma complexidade aromática e uma textura que impressionam até os paladares mais exigentes. O vinho é tão impressionante que é servido somente após o tinto, que também é extraordinário, durante a degustação na vinícola.
A visita ao Domaine de Chevalier foi mais do que uma imersão técnica, foi uma confirmação sensorial de que os grandes vinhos brancos têm tanto a dizer quanto os tintos mais celebrados. E se regiões de grande prestígio, como Bordeaux, já carregam essa tradição há séculos, o Brasil parece finalmente pronto para evoluir. Num mercado em transição, onde o frescor e a versatilidade ganham espaço à mesa, os brancos de alta qualidade não são apenas tendência: são uma afirmação de que sofisticação também pode vir em tons dourados.
Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas
Juíza de vinhos Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR
Fundadora da Confraria das Granjeiras.













