Pedro Mariano

CAPA

Pedro, na redação da CIRCUITO, durante a
produção da matéria

FILHO DA MÚSICA, DA GRANJA E DA ELIS 

Pedro é um nome comum.

É nome do apóstolo de Jesus Cristo. É nome de comediante, de ator de novela, de vizinho. Quem, na escola, não foi amigo ou amiga do famoso Pedrinho? Pedro é nome de padre, de apresentador de televisão, de garoto- -propaganda. Na Granja Viana, Pedro é nome de artista que chega com um sobrenome pesado, incrementado de responsabilidade. Pedro é nome de filho de diva, de pianista.

É nome de cantor, compositor, são-paulino, ariano. Pedro é o nome do pai da pequena Rafaela, é o nome do marido da Patrícia.

Pedro Camargo Mariano tem tantas competências que a equipe da REVISTA CIRCUITO achou que não conseguiria fazer esta entrevista em apenas um dia. Ele chegou à redação no horário combinado e, por horas, deu o seu ponto de vista sobre todos os adjetivos que atribuímos a ele, como músico, cantor e produtor, filho da grandiosa Elis Regina − de quem ele fala com saudade −, e do consagrado pianista Cesar Camargo Mariano.

Prestes a completar 38 anos de idade − seu aniversário é dia 18 de abril −, faz brincadeiras sobre futebol, fala com propriedade da carreira, com alegria de sua paternidade, mas se fragiliza quando ouve a pergunta. “Teria um bom motivo para brindar hoje?”

A voz tremeu: “Eu gostaria de brindar à vida. Perdi pessoas queridas“.

A mais rica herança deixada pelos pais foram a seriedade e o profissionalismo com que trata a música. “Se algum dia eu não puder mais cantar, peço para subir”, avisa ele.

Com 18 anos de carreira e uma bagagem musical impressionante, Pedro é o tipo de estrela que nasceu para brilhar aqui, em terra, entre nós, contando histórias, encantando o público e levando aos quatro cantos a importância singular da música brasileira.

É por essas e outras que a REVISTA CIRCUITO pede:
Solta a voz, Pedro Mariano!

Revista Circuito: Bom, vou começar com uma pergunta que mais ninguém poderia responder por você. Quem é o Pedro Mariano?

Pedro Mariano: Não sei. É difícil saber. Na verdade, não me preocupo muito com ele nem fico querendo saber quem ele é (risos). Sou um cara muito correto, justo, gosto de tudo feito direito, preto no branco, dito às claras; não gosto de mentira, de enrolação. Mas, no decorrer da vida, você descobre que deve ser outras coisas, que não adianta ser somente do jeito que você quer. O meu lado “pessoa”, muitas vezes, entra em conflito com o meu lado “empresa”, por conta de objetivos conflituosos que a vida artística impõe. Mas a minha essência é muito ética.

RC: Seu primeiro trabalho profissional como cantor foi aos 20 anos?

PM: Nasci numa casa onde, de cara, eu já tinha o Super-Homem e a Mulher-Maravilha. No colegial, eu já trabalhava com música. Ganhei meu primeiro cachê aos 14 anos. Eu conto como carreira a partir dos meus 20 anos, quando assinei meu primeiro contrato com gravadora. Isso foi em 1995, com a Sony. Já tinha trabalhado bastante com música, publicidade, tive bandas, mas considero a primeira vez que entrei em estúdio. A partir daí, minha vida artística despontou.

RC: Por que optou pela carreira-solo?

PM: É muito difícil você ter um monte de ideias na cabeça e ter de ficar convencendo as pessoas em volta de que aquele caminho é o mais legal. A verdade não está só nos olhos de quem vê, mas é palatável ao gosto de cada um, então, percebi que minha postura não era egoísta, e sim de artista-solo. Eu não queria ser chefe de ninguém. Quem abriu meus olhos para isso foi o meu pai. Eu entrava em parafuso por achar que a banda não estava correspondendo, por eu querer ensaiar e os caras não. Eu queria tentar coisas novas e eles não. Eu estava em outra sintonia. Depois disso, segui meu caminho sozinho e montei minha banda suporte, que apoiou as minhas loucuras e a coisa fluiu naturalmente.

“PARA MIM, CANTAR É MAIS IMPORTANTE QUE RESPIRAR. ”

RC: Quando você assinou seu primeiro contrato, tinha noção da responsabilidade?

PM: Sim, tanto que lancei meu primeiro disco dois anos depois. Eu avisei que não queria lançar de imediato e pedi para respeitarem meu tempo. Eu queria ter um repertório e me sentir seguro. Em 1997, lancei o disco Pedro Camargo Mariano. Quando você nasce dentro de uma casa como a minha, a relação com a música é diferente. Você pode levar tempo para amadurecer, entender o mercado, mas, mesmo assim, você catalisa muitos processos e depara com muitas situações diariamente. Eu não sei se eu tinha maturidade para aquilo, mas sempre estive rodeado de pessoas que me davam suporte toda vez que eu tinha alguma dúvida. Já meu pai não tinha para quem correr; ele precisava confiar. Minha mãe idem. Às vezes, dava certo, às vezes não.

 
Elis Regina com Pedro ainda pequeno

Em 1995, Elis Regina comemoraria 50 anos e foi homenageada por seus filhos Pedro, com então 18 anos, e João Marcello, com 23 anos, em um show chamado Tributo a Elis. Foram várias participações, como Ivan Lins, Lenine e outros. O show foi realizado no Tuca – Teatro da PUC São Paulo. O show se repetiu em Porto Alegre, terra natal da cantora.

RC: O seu talento é incontestável. Ajudou ou atrapalhou ser filho de quem é?

PM: Não dá para saber. Eu teria de começar tudo de novo. Eu não tenho motivo para acreditar que isso me atrapalhou. E também não tenho motivo
para acreditar que não tenho valor suficiente para conquistar o que conquistei ou que ainda venha a conquistar. Meus pais são dois ícones da música brasileira, dois artistas exponenciais, foram uma referência. Por onde passaram deixaram sua marca. É um legado. Agora, isso vir a ser um peso depende da forma como cada um encara. Se você incorpora como um combustível, isso te joga para a frente. Se incorpora como cobrança, não vai a lugar nenhum. Sou o primeiro a fazer qualquer tipo de comparação com a minha mãe e perceber que eu perco em tudo. Primeiro pelo tamanho dela, e segundo porque ela já morreu. Quando você morre, torna-se inatingível. Então comparar qualquer pessoa com alguém que já morreu é uma covardia enorme. A Elis não vai ter a chance de fazer um show ruim nunca mais. Nunca mais poderá fazer um disco que pudesse desacreditar a carreira dela; ela nunca mais poderá dar uma entrevista mal interpretada. Ela não vai mais pisar no calo de alguém. Então, tudo o que se pensar sobre a Elis é positivo. O que me incomoda é quando usam “filho de Elis Regina” como adjetivo. Minha profissão não é ser filho da Elis Regina. Eu não pago minhas contas sendo filho dela. Agora, usar “filho de Elis Regina” para situar as pessoas que não me conhecem, eu não ligo.

RC: Pedro, como você lida com o sucesso?

PM: O sucesso estrondoso pode ser bom ou ruim em diversos aspectos. Como dosar isso? Ninguém achou a fórmula ainda. Eu alcancei o sucesso dentro daquilo que trilhei para a minha vida. O que acontece no mercado da música brasileira é que as pessoas não querem fazer música e não querem fazer história, mas querem fazer sucesso. Aí, muita coisa se perde no processo. Li as biografias do Eric Clapton, do Sting, do John Lennon, do Sinatra, do Tom Jobim e estou lendo a biografia da minha mãe. Eu falei seis nomes que não são pequenos, e nenhum deles ficou satisfeito com o que construiu. Há 30 anos, quando minha mãe era viva, a média de venda de seus discos era 20 mil, 30 mil cópias, e ela alcançou esta média em todos os discos. E reclamava, porque queria fazer sucesso. Ela chegou a ficar um ano e meio em cartaz no mesmo teatro, de quarta a domingo, fazendo sessão dupla nos fins de semana. O que você prefere? Isso ou vender disco? Na cabeça dela, ela queria vender milhões de discos, só que faltou alguém dizer para ela que as pessoas não queriam ter um disco dela, mas queriam vê-la em carne e osso. Então, eu não fico me cobrando. Quero estar bem comigo e atingir, paulatinamente, os objetivos que eu traço para mim. De repente, sucesso é você ter todas as suas contas pagas e sua família feliz, no fim de semana, em volta da piscina, fazendo um churrasco.

RC: Como conheceu a Granja Viana? Como veio parar aqui?

PM: Eu me mudei para cá em 2004, por motivos que não sei mais onde estão. Paz e segurança são coisas que sumiram daqui já faz um tempo. As distâncias se tornam cada vez maiores por conta do trânsito. Como a grande maioria dos bairros da Grande São Paulo, a partir do momento que se torna um nicho de mercado, é explorado até o osso. Quando me mudei para cá, havia três condomínios na minha estrada. Hoje, já existem cinco residenciais numa estrada de mão dupla que mal cabem dois carros passando ao mesmo tempo. Você perde aquilo que faz as pessoas querer vir para cá. A essência da Granja se perdeu. Conheci a Granja vindo jogar bola na casa do Jair Rodrigues nos fins de semana. Por coincidência, minha esposa passou a juventude toda vindo à casa de amigos. Depois de casar e quando resolvemos ter filhos, quisemos ir embora de São Paulo. Ainda está valendo a pena viver aqui, mas dá um aperto no coração ver a falta de infraestrutura.

“SE ALGUM DIA EU NÃO PUDER MAIS CANTAR, EU PEÇO PARA SUBIR.”

RC: Você tem jeito de ser caseiro.

PM: Gosto de sair, mas gosto de ficar em casa fazendo o famoso nada (risos). Eu não preciso pensar em nada. Minha filha de 7 anos resolve tudo o que vamos fazer. Ela sempre aparece com alguma coisa. Temos pintado bastante e estou lendo Senhor do Anéis, para ela, todas as noites.


Com a filha Rafaela, sua grande paixão

RC: Fale da Rafa. Será que ela seguirá o caminho do pai, dos tios e dos avós?

PM: Não adianta eu querer nada para ela. Aliás, o que eu quiser para ela, daqui a um tempo, é o que menos vai contar. A Rafa tem de ser feliz, eestou aqui para isso. Para provê-la de tudo o que precisar para ser feliz. Se ela quiser ser astronauta, entro num consórcio de 70 anos e compro um foguete. Ela é louca por artes, de forma geral. Ela desenha e pinta muito bem. Canta, interpreta, cria. Ela é muito ativa, completamente o oposto de mim. Eu era muito fechado na idade dela.

RC: Elis por Eles. Como foi a escolha dos cantores que integraram esse trabalho?

O CD 8 é o primeiro totalmente realizado sob
seu Selo Nau, selo de produtor independente.

PM: De todos os artistas que estavam lá, os únicos que eu nunca tinha visto pessoalmente eram o Felipe Catto, o Diogo Nogueira e o Cauby Peixoto, que era um dos melhores amigos da minha mãe. Eu carreguei a cruz de escolher todos os cantores e, como diretor-geral do projeto, tudo passou por mim. Era uma lista enorme de cantores e uma lista enorme de músicas, então, era o caos. Eu não sabia nem por onde começar. Mas fui montando a lista desde os mais próximos, os que tinham mais afinidade com a Elis, e a agenda de cada um. Foram 14 artistas, sendo que 12 eu sabia que tinham tido alguma história com minha mãe, e cada um escolheu o que queria cantar. Foi um trabalho em conjunto, em que cada um prestou sua homenagem.

RC: O disco 8, seu último trabalho, tem uma proposta diferenciada? A proposta era buscar um público novo?

PM: Como sou intérprete, é muito provável que eu busque cantar tudo o que queira. Como compositor, então, pode ser que falte ainda muita coisa por fazer. O disco anterior, o Incondicional, já é a ruptura com a linguagem que eu vinha trazendo de outros discos. E isso foi uma evolução natural. Eu cresci ouvindo todo tipo de música, e não escondo minha predileção pela música black norte-americana, mas não é o que faz a minha cabeça hoje. O grande barato de trabalhar com música é esse. Você muda de ideia, de foco. São sabores onde se colocam temperos. Respira as mesmas influências. Afastei-me um pouco da MPB, indo mais ao encontro do jazz, do pop e do rock.

 

RC: O que você tem aí dentro do Cesar e da Elis?

PM: Meu pai sempre falou que sou parecido com a Elis, embora eu não tenha enxergado isso. Acho que dela puxei a passionalidade. Sou passional, mas não irracional. Além disso a minha relação com a arte como um todo. Minha mãe sempre disse que cantar era um sacerdócio, e, para mim, cantar é mais importante do que respirar. Você pode tirar um braço meu, mas, se algum dia eu não puder mais cantar, eu peço para subir. Se tem uma droga que eu experimento, é cantar. Já do meu pai, é escolher a dedo a hora de ficar quieto, no mau sentido. Eu sempre me calo quando deveria falar o que penso.

RC: Pedro, como um bom apreciador de vinhos, teria hoje um bom motivo para brindar?

PM: Todos os dias são dias para brindar. Depois que muita gente foi embora antes da hora, que não era para ter ido, brindar à vida e à família é bom demais. A pior coisa que existe é uma pessoa ir embora e você não ter tido a oportunidade de falar o que achava dela. Então, se tem oportunidade,fale. Não deixe para depois.

     

 

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